Diana Salu

por Nina Ferreira Barreto

 

 

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Créditos: Júlia Salustiano (@juliasalustiano)

 

“O Caminho é o Vazio

E seu uso jamais o esgota

É imensuravelmente profundo e amplo

Como a raiz dos dez mil seres”

Tao Te Ching – Cap 4

Diana Salu (Distrito Federal) é quadrinista e designer, poeta. Seus trabalhos transitam pela escrita e o desenho, a lógica da pintura nas manchas de cor e a fotografia.

Publicou Maré, em 2017 e Barragem em 2018. Também em 2018, pela coleção Escrevivências da padê editorial, lançou o livro Cartas para ninguém. Poderíamos dizer que é um livro-poema e prosa em quadrinhos? Explico, nas próximas linhas, minha pergunta.

Uma característica do trabalho de Diana é criar espaço a partir de seus desenhos e palavras, muito mais que encarrilhar, por assim dizer, uma narrativa. Como uma porta a qual, uma vez que abrimos, encontramos o mundo e melhor: o vazio. Melhor porque vazio também é de onde vêm todas as coisas. Algumas perguntas também são assim: muito mais que pequenos cubos onde um única resposta possível preencheria o espaço entre as seis faces, algumas perguntas são a porta na beira de um abismo feito para a gente saltar.

Desenhando ruínas, cascas, crostas, Salu se pergunta sobre as suas próprias crostas, cascas e ruínas e sobre as que tem em comum com o universo ao redor.  Desenha imensas paisagens montanhosas para olhar pra dentro.

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do livro Cartas para ninguém. 2018, cole-sã Escrevivências, padê editorial.

Na página dezesseis de Cartas para ninguém, a artista apresenta uma série de quadrinhos sem ilustração ou onde a ilustração é o próprio vazio-névoa do retângulo acinzentado abaixo das palavras. Ao mesmo tempo é uma ode ao processo, à  transitoriedade criativa. 

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decifro-me. nanquim sobre papel.

Tal qual Manoel de Barros e seu interesse por aquilo que está sempre perto e ao mesmo tempo fora da ordem utilitária, por isso o simples extraordinário, Diana nos apresenta o interesse por todas as perguntas sem resposta, pela prevalência dos caminhos sobre as chegadas, pelo oroboros alado que é, afinal, ela própria: o “ninguém” ao qual escreve, o universo e todas as pessoas atravessando; todas as plantas habitando a construção civil, os tons terrosos de seus pássaros em pastel.

Acompanhe o trabalho de Diana Salu: https://www.instagram.com/diana.salu/

 

Charlene Bicalho

Charlene

Charlene Bicalho (João Monlevade | MG, 1982) vive atualmente em São Paulo. N

Nascida e criada nas águas de Minas Gerais, a artista interdisciplinar tem no encontro das águas doces interioranas ao interior do mar, berço da diáspora e de nossas saudades, um espaço de criação.

Seu trabalho traz à vista narrativas contra hegemônicas sob uma perspectiva histórica, documental e emocional.

Artista interdisciplinar, Charlene compõe seus trabalhos por meio de investigações, perfomances, fotografias, instalações, intervenções e vídeos.

É idealizadora do Projeto Raiz Forte, iniciando em 2012, onde desenvolve práticas artísticas processuais no encontro com outros artistas negros.

 

Em “Onde você ancora seus silêncios?” pesquisa-ação com vários desdobramentos, Charlene tem como mote uma ruína no Espírito Santo, cuja história oral conta que era um local “de engorda”, onde pessoas escravizadas permaneciam antes de serem vendidas para o trabalho braçal.

Como uma forma de dialogar, ocupar e se envolver com o espaço próximo à ruína e que interage diretamente com sua história, ela cria as ações performáticas “Onde você ancora seus silêncios” I e II.

A artista participou do Fissura Entre Vista, onde conversamos sobre sua trajetória como produtora em espaços culturais, articuladora e artista visual. O vídeo da entrevista você pode conferir aqui.

Para conhecer mais o trabalho de Charlene e manterem-se atualizadas sobre seus projetos, sigam a artista em suas redes sociais e acessem seu site!

Instagram

Site da artista

Projeto Raiz Forte

Regina Parra

A artista, desde 2005, vem elaborando pinturas, vídeos, performances e instalações. Parra possui trabalhos em grandes cidades brasileiras, como: “Chance” (2105-2017) em neon vermelho instalado no meio de uma floresta no Rio de Janeiro e “É preciso continuar”(2018), que consiste em um grande letreiro em neon instalado no centro do Largo da Batata, em São Paulo. Uma das principais características das obras de Parra é a utilização de letreiros em neon.

A frase “Os desejos adormecem atrás das janelas” é escrita em letras maiúsculas com um letreiro neon, sobreposto à paisagem de céu e prédios de São Paulo, ​instalado no topo de um edifício na Avenida Ipiranga.

 

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Regina Parra – ​Atrás da janela​ (2011). Luminoso em neon. Dimensões: 75 x 450 cm. Disponível em: <​http://www.reginaparra.com.br/atras-das-janelas​>

 

O luminoso reproduz uma um frase do poema “O jardim adormecido”, do poeta palestino Mahmud Darwich. Um trecho do poema é reproduzido a seguir:

“Nem adeus nem árvore.
Os desejos adormeceram atrás das janelas,
as histórias de amor e as traições
adormeceram atrás das janelas,
e os agentes de segurança também.
Rita dorme… dorme e desperta os seus sonhos.”
(trecho do poema ​O Jardim Adormecido​, de Mahmud Darwich).

O trecho do qual foi retirada a frase nos deixa entrever quais os possíveis sentidos para os quais essa obra aponta. É importante destacar que elementos como o contexto, o local, a frase etc, precisam ser estudados para a compreensão desse tipo de obra contemporânea.

O letreiro está na metade inferior da fotografia, escrita em um luminoso em neon laranja. A parte abaixo das letras é iluminada pelo laranja da luz. O contraste do fundo com o letreiro evidencia ainda mais o sentido de cada palavra, destacando, ao mesmo tempo, seu aspecto visual. O tipo gráfico utilizado é homogêneo, sendo utilizadas letras maiúsculas, em fonte sem serifas. Destaca-se na reprodução da fotografia um fundo azul, cinza e preto do centro de São Paulo em alto contraste com dizeres em vermelho neon. Pequenas janelas também compõem a paisagem, gerando uma aproximação visual e de sentido com o letreiro.

Os letreiros são comumente utilizados pela publicidade, o que torna seu uso no presente trabalho algo incomum. A frase exposta por Parra difere bastante dos tipos de frase geralmente exibidas em letreiros e outdoors, tendo sido retirada de uma poesia, da qual a artista se apropria.

A contraposição entre adormecer e estar desperto suscitada pela imagem é evidente, a frase é olhada pelas janelas e constitui o “fora”. As janelas, por sua vez, conectam-se com o letreiro, mas sugerindo diferença, tornando-se pontos, fagulhas adormecidas. Há uma separação entre o “fora” e o “dentro”, reelaborada na imagem que a artista tece, na qual trabalha a ideia de “fora”.

No caso dessa obra, o fato de ela ter sido composta a partir da apropriação do trecho de um poema nos traz um caráter forte de intertextualidade. A frase apropriada traz uma contraposição entre uma linguagem poética e um tipo de linguagem adequada à publicidade, que é bastante direta e objetiva.

O letreiro está ali sendo observado pelas pessoas na janela de apartamento ou por aquelas que olham para o alto no meio da cidade. O letreiro brilha à noite em cor incandescente, sendo uma urgência. O título da obra, “Atrás das janelas”, por sua vez, já dirige o intérprete para um importante significado: ela/ele é o alvo. A obra convida para o exame de uma vida não realizada em seu potencial, cujos desejos estão adormecidos. A frase então é inscrita em um letreiro laranja, primeiro como lembrete e quase uma denúncia.

O laranja da frase é vívido, como que preenchido da real potencialidade de realização. Ainda é possível? Os desejos adormeceram atrás da janela e o que fazemos nós? Acordar e adormecer. O neon que queima é aquele visto pelos insones, à noite.

O local no qual o letreiro foi instalado é o Centro na Avenida Ipiranga, o que adiciona uma outra camada de sentido à essa obra. O centro de grande cidade é o local onde a vida segue em um corre-corre interminável, o curso da vida segue adiante, atropelando os desejos na urgência.

 

Referências Bibliográficas

SITE DA ARTISTA REGINA PARRA. ​Disponível em <​http://www.reginaparra.com.br/atras-das-janelas​> Acesso em: 08 de jul. de 2019.

GALERIA MILLAN​. Disponível em: <​http://www.galeriamillan.com.br/artistas/regina-parra/textos/paula-borghi Acesso em: 08 de jul. de 2019.

 

Autora: Ana Carolina Lima Corrêa

Mapeamento Nacional de Mulheres nas Artes Visuais

O Fissura está realizando um mapeamento nacional das profissionais que atuam em segmentos que compõem a cadeia produtiva das Artes Visuais: artistas, curadoras, fotógrafas, produtoras culturais e técnicas de montagem, entre outras.

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O mapeamento busca a promoção da equidade de gênero nas profissões da cultura no âmbito das Artes Visuais, fornecendo dados para a possível contratação dessas profissionais. Acreditamos também que, por meio do acesso ao banco de dados que se formará com as inscrições, será possível fortalecer também o fomento da equidade racial dentro da área.

Futuramente os dados coletados estarão disponíveis para consulta em nossa plataforma.

https://bit.ly/mulheresnasartesvisuais

Daisy Serena

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Daisy Serena é fotógrafa, poeta, artista e ativista visual. 

Trabalha com cinema, vídeo arte, vídeo-clipe, registros fotográficos tanto de eventos como de espetáculos teatrais e musicais; em 2017 publicou o livro Tautologias, pela padê editorial e tem um extensa produção de colagens digitais, além das colagens com matrizes físicas.

Em seu canal no Instagram  podemos ter acesso a seu portfólio: lá ela divulga tanto os eventos em que trabalha, como expõe seus trabalhos mais recentes e escritos; encontramos fotografias em preto e branco de seu dia a dia e alguns autorretratos, além de retratos de outras pessoas, artistas ou não, pois Serena é uma retratista, também. 

Aqui farei uma apresentação muito miúda, perto da produção da artista, comentando uma série de colagens que a artista tem desenvolvido e um vídeo-poema, chamado Atotô.

A série de colagens digitais de Daisy,  anuncia o afrofuturismo e o espaço sideral, mas não aquele povoado por naves espaciais, senão aquele que é paisagem habitável, sem a mediação de foguetes ou roupas de astronauta. Em seus cenários galácticos personagens negras, humanas e orixás, muitas vezes adornadas por flores e elementos naturais, protagonizam como quem habita ou reina. 

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Brita, colagem digital, 2020.
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‘até quando vamos ter que dizer presente para os nossos meninos ausentes pela mão genocida do estado? , colagem digital, homenagem a João Pedro, 14 anos, assassinado pela PM dentro de casa, 2020

 

Embora hoje saibamos que as viagens ao espaço só foram possíveis graças a cientistas negras, ao apresentar personagens negras no ambiente espacial sem fazer referência aos aparatos da engenharia espacial em si, mas, ao invés, apresentando elementos da natureza, que a princípio não levariam ninguém ao espaço – portanto ao futuro – podemos vislumbrar o cerne do ativismo negro brasileiro: a memória em relação às tecnologias de cultivo da terra e da fé em Orixá, Vodun, Nkisi e no povo da Encantaria. Tecnologias outras de sobrevivência e guerra, de aquilombamento, na contramão do colonial desbravamento e dominação de terras, trouxe a comunidade negra até aqui e é essa mesma tecnologia que nos leva ao futuro. O futuro negro do ativismo brasileiro preza pela vida e sua celebração, na reverência à ancestralidade e no respeito máximo à natureza. É esse afrofuturismo que as colagens de Daisy apresentam.

Em Atotô, um vídeo-poema, Daisy apresenta dois cenários a princípio contrastantes: um corporificado pela música que utiliza, o opanijé, e outro pela paisagem urbana vista de uma janela, à qual a câmera direciona nosso olhar. 

Atotô from Daisy on Vimeo.

Atotô é a saudação que se faz, no candomblé ketu, ao orixá Omolu. Opanijé é um ritmo do candomblé ketu (uma das nações do candomblé de matriz yorubana, com origens na cidade de mesmo nome) entoado a este deus africano, também conhecido como Obaluaê, epíteto composto pela contração: Obá Olu Aiyê, que significa rei senhor da terra ou ainda, rei que tem domínio sobre a terra. 

Omolu é o orixá que rege a cura e as doenças. Dançando o opanijé vai para a direita, movimentando a mão direita que aponta, ora a face ora a palma, para o chão e o mesmo acontece quando, na repetição da frase musical, vai para o lado esquerdo. No opanijé, os dois lados das mãos, são também uma metáfora para os dois lados de todas as coisas e, notadamente, aponta para a saúde e a doença como dois lados de um mesmo: área de domínio deste deus.

Em aparente distância ao cenário de cores terrosas e cruas, em contraste com o branco das vestimentas e tecidos das roças/terreiros de candomblé, referenciado pelo opanijé de Obaluaiye, a artista traz a paisagem urbana de São Paulo: em preto e branco, da janela de seu quarto e de  onde vemos ao fundo prédios, o céu, uma caixa d’água. Em primeiro plano as mãos da artista, em uma espécie de dança e alternância de movimentos, fazem uma referência nada óbvia, ainda que direta (especialmente para candomblecistas /ou intelectuais da religiosidade negra), aos passos do opanijé.

No terreiro diríamos que Atotô é um oriki: às 05h50 da manhã, a artista homenageia e contempla o “todo telúrico” deus, como ela mesma chamou: em português, nunca soube de nome mais apropriado àquele que, tão simples em sua realeza, limpa nosso corpo com pipoca.

Daisy utiliza a tecnologia de forma e as imagens que remetem ao futuro sem esgarçar os clichês da tecnocracia versus uma negritude estritamente rural ou simplesmente saudosista da terra. Não pára no arquetípico, mas o trabalha e relocaliza imageticamente, num contexto urbano permeado e norteado, muitas vezes, pela tecnologia.

Conheçam o trabalho de Daisy Serena: https://www.instagram.com/daiserena/ e https://vimeo.com/serenadai

 

Até a próxima postagem!

 

Nina Ferreira.

 

#fissura #mulheresartistas #artistasnegras #arteafrobrasileira #arte 

 

6 conteúdos sobre artistas negras

Hoje separamos 6 conteúdos sobre artistas negras já produzidos em nosso site. Boa leitura!

Eunice Nazário

Ingrid Pollard

Kara Walker

Rita Almeida

Rosana Paulino

Ndjideka Akulyili

Ingrid Pollard

Queridxs,

ainda no clima de comemoração ao Dia Internacional do Combate à LGBTfobia, apresento a vocês  um pouco do trabalho de Ingrid Pollard

Ingrid Pollard stuarthallfoudation

Pollard (1953) é uma artista visual, fotógrafa e pesquisadora guyano-britânica, que atualmente vive em Londres, Inglaterra. 

Sua formação acadêmica inclui um bacharel em vídeo e cinema em 1988 na University of Creative Arts, um mestrado em Estudos da Fotografia na Derby University e um PhD na Westminster University

Faz parte de alguns grupos, como o Mapping Spectral Traces, um grupo transdisciplinar internacional que agrega acadêmicos, pesquisadores, artistas e líderes comunitários ao redor de questões como a disputa territorial junto a comunidades que foram abaladas e o  LAND2, uma rede nacional de artistas/palestrantes e pesquisadores estudantes com interesse nas práticas artísticas que têm como foco o lugar e a paisagem. 

Entre 1984 e 2012 a artista participou de 96 exposições, 20 delas individuais, e de várias residências artísticas, como a Project Row Houses, no Texas, Estados Unidos, em 2004, e uma residência no Chenderit Visual Arts College, em Oxford , em 2008. 

Ganhou importantes prêmios em sua área, como o Leverhulme Individual Artists Award, em 2007, e o Arts Council Artists Award, em 2006 e 2007.

Os trabalhos de Pollard tiveram uma grande importância nos anos 80 na Inglaterra, por trazerem imagens de pessoas negras em território britânico e questionarem a formação da identidade britânica, generalizada como uma cultura branca, sem levar em conta aquilo que surge as partir do diálogo, ainda que imensamente verticalizado, entre pessoas caucasianas nascidas em território bretão e as pessoas negras, migrantes das colônias inglesas e britânicas. 

A artista produz  pinturas digitais, fotografias digitais e analógicas e faz intervenções nos processos de revelação. Além disso, também realiza colagens e instalações. A maioria de suas produções dialoga intensamente com questões relativas à ocupação do território e às dinâmicas raciais  britânicas. 

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da série Landscape Trauma. impressão digital sobre tecido. Copyrights © Ingrid Pollard. All rights reserved.

Landscape Trauma in the Age of Scopophilia (Trauma de paisagem na era da Escopofilia),  é uma série de pinturas digitais, feita em 2001.

Na imagem acima, utilizando tons de azul, cinza, e marrom a partir de uma fotografia do solo britânico, apesar de não ser em si um mapa, pode-se notar a referência direta aos mapas topográficos, os quais apresentam registros dos relevos e acidentes naturais e artificiais na superfície terrestre.

Escopofilia designa o prazer em olhar algo ou alguém, portanto desde o título da série até sua referência visual aos mapas topográficos vemos uma citação às intervenções da mirada humana sobre a paisagem. 

Já na série Oceans Apart, Pollard usa impressões, colagens e fotografias em que há a centralidade da figura humana, especialmente de personagens negras. Esta série traz o Oceano Atlântico enquanto um território de disputas, migrações e criação de novas culturas e relações, abarca a própria diáspora negra como objeto. 

 

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da série Oceans Apart. xerox, acetato e texto impresso. Copyrights © Ingrid Pollard. All rights reserved.

 

Na peça acima, logo de cara a artista expõe a relação entre a história das pessoas negras em territórios europeus e figuras que protagonizaram o tráfico de pessoas africanas e o holocausto africano, como James Cook, Christopher Columbus (nosso conhecido Cristóvão Colombo), Frances Drake e Walter Raleigh. 

Acima os perfis dos navegantes europeus são sobrepostos pela imagem que exibe a planta-baixa de um navio negreiro e, ao fundo, imagens que ilustram os porões dos navios. Abaixo, nomes de ruas em inglês, que fazem referência às terras colonizadas se misturam com sucessivas impressões em preto da litografia “Negros no Fundo do Porão” do pintor alemão Johann Moritz Rugendas, de 1835, feitas durante o período de viagens deste ao Brasil e, logo abaixo, em azul, uma imagem de homens negros de terno entre um navio antigo e o que parece ser um navio de tecnologia mais recente.

 

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da série Oceans Apart. impressão prata matizada e tonificada à mão. Copyrights © Ingrid Pollard. All rights reserved.

 

 

Nesta fotografia, em que notamos uma forte presença da pictorialidade pelas manchas na madeira do deck, bem como no verde das roupas das personagens, notamos a presença marinha muito mais pelo protagonismo da cor verde do que pela imagem do mar em si, quase imperceptível ao fundo. As duas personagens, uma mulher que sorri e uma criança que olha em direção ao mar, estão descalças no deck, num momento de simplicidade tamanha que nos fazem ter aqui quase uma imagem daquelas que você acha num álbum de família.

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da série Oceans Apart. impressão prateada colorida e tonificada à mão e texto impresso. Copyrights © Ingrid Pollard. All rights reserved.

E ainda dentro de Oceans Apart,  temos a foto de um rochedo marítimo que abriga uma pequena poça que salta aos nossos olhos, sucedida por três papéis que dizem “sinto sua falta…” “saudade…” “sinto sua falta” acima de duas fotografias de crianças negras, a sensação de estarmos diante de um álbum de família se amplifica.

Como uma pesquisadora e artista negra, a pergunta que me fica a Oceans Apart,é se o Oceano Atlântico é o território da saudade negra, do banzo… E, caso a resposta fosse sim, eu candomblecista que sou, responderia com uma imagem da festa do 2 de fevereiro que a orixá Yemonjá é nosso eterno abraço (por isso são dela todos os cantos que oferecemos às ondas e todos os sambas que fazemos na areia).

Um salve à obra de Ingrid Pollard.

Axé à comunidade negra LGBT+!

Nina Ferreira

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Site da artista: http://www.ingridpollard.com/

#artistasnegras #artistasLBTs #mulheresartistas #artistasLGBTs #fissura

Comemorando o Dia Internacional de Combate à LGBTfobia – Cláudia Wonder

Uma de nossas entrevistas mais emocionantes e especiais foi a que fizemos com a multiartista Cláudia Wonder. Ela recebeu gentilmente Ana Carolina Lima (Fissura) e Caio Sá Teles, que realizou o precioso registro fotográfico, em seu hotel durante um show que fez em Salvador por conta da festa de encerramento do evento Stonewall 40 + o que no Brasil? em 2011. Dois meses depois de concedida a entrevista ela nos deixou.

Leiam a entrevista completa:

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Créditos: Caio Sá Telles