Zanele Muholi

série de fotografias da artista exposta na 29ª bienal de São Paulo.

Faces e fazes: I

Declaração da artista

Há um sentido entre Faces e Fazes e porque o projeto enfoca essas duas palavras.

Eu decidi capturar imagens da minha comunidade para contribuir para uma história homosexual sul africana mais democrática e representativa. Até 1994, nós, como lésbicas negras, eramos excluídas de participar na criação de um movimento queer formal e nossas vozes estavam faltando nas páginas das publicações gays, enquanto ativistas gays brancos dirigiam o movimento e escreviam sobre as questões e batalhas gays. Portanto, poucas de nós estavam presentes na linha de frente, mas muitas operavam às ocultas.

Eu embarquei emu ma jornada de ativismo visual para assegurar que haja visibilidade de lesbicas negras, para mostrar nossa existência e resistência nessa sociedade democrática, para apresentar imagens positivas de lesbicas negras.

Aparte da definição do dicionário do que seja uma “face” (a frente da cabeça, da testa ao queixo), a face também expressa a pessoa. Para mim, Faces significa eu, fotógrafa e trabalhadora em comunidade, estanto face a face com várias lesbicas com as quais interaji em diferentes municípios como Alexandra, Soweto, Vosloorus, Kathehong, Kagiso…

Em cada município há lésbicas vivendo abertamente independente do estigma e homofobia ligados a sua identidade lesbiana, ambas butch e femme. Na maior parte do tempo ser lésbica é visto como negativo, como destruidor da família nuclear heterosexual; para muitas lésbicas negras, o estigma da identidade queer surge do fato de a homossexualidade ser vista como não-africana. As expectativas são de que mulheres africanas têm de ter filhos e procriar com um parceiro, o chefe da família. Isso é parte da “tradição Africana”.

Ao não nos conformarmos com essas expectativas, somos percebidas como desviantes, precisando de um “estupro corretivo” para apagar nossa atitude masculina e nos tornar verdadeiras mulheres, fêmeas, mães, propriedade de homens.

As pessoas nesta série de fotografias têm diferentes posições e papéis na comunidade de lésbicas negras: jogadoras de futebol, atrizes, acadêmicas, ativistas culturais, advogadas, dançarinas, cineastas, ativistas de direitos humanos/gênero. No entanto, cada vez que somos representadas por outras pessoas, somos apenas vistas como vítimas de estupro e homofobia. Nossas vidas são sempre sensacionalizadas, raramente compreendidas. Esta é a razão para Fazes: nossas vidas não são apenas o que fazem as manchetes de jornais cada vez que somos atacadas. Nós passamos por diversos estágios, expressamos diversas identidades que se desdobram paralelamente em nossa existência.

Da perspectiva de alguém do grupo, esse projeto destina-se a comemorar e celebrar as vidas das lésbicas negras que conheci em minhas jornadas pelos municípios. Vidas e narrativas são contadas com dor e alegria, já que algumas dessas mulheres estavam passando dificuldades em suas vidas. Suas histórias me renderam noites sem dormir já que eu não sabia como lidar com as necessidades urgentes das quais era informada. Muitas delas tinham sido violentadas; eu não queria que a câmera fosse outra violação; ao invés, eu queria estabelecer relacionamentos com elas baseado em nosso entendimento mútuo do que significa ser mulher, lésbica e negra na Africa do Sul hoje.

Eu chamo esse método o nascimento do ativismo visual: eu decidi usar ele para marcar nossa resistência e existência como lésbicas negras em nosso país, porque é importante por uma face em toda e cada questão.

Faces e Fazes é sobre nossas histórias, lutas e vidas neste queer planeta mãe: nós vamos enfrentar nossas experiencias independente do que sejam, e ainda assim continuaremos seguindo em frente.

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esse texto é uma tradução de Faces & Phases: I encontrado no site da artista: http://www.zanelemuholi.com/photography.htm

Aproveite e assine a petição para pedir uma ação do governo sul africano contra “estupro corretivo”: https://secure.avaaz.org/po/stop_corrective_rape/?cl=922933207&v=8260

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