Vênus

Venus de Willendorf (c. 24.000 a.C.)

Lendo um livro sobre o feminino no xamanismo me deparei com um trecho em que a antropóloga e xamã Bárbara Tedlock fala sobre aquelas estatuetas antigas de mulheres que receberam o nome de vênus, geralemente consideradas simbolos de fertilidade. A teoria de Bárbara Tedlock é bem distinta e por isso resolvi transcrever alguns trechos do que diz a respeito aqui:

“Algumas das indicações mais antigas da possível prática xamânica feminina encontram-se nas figuras de mulheres do tamanho da palma da mão. Cerca de duzentas estátuas pequenas de mulheres nuas e sem rosto, as cabeças inclinadas para baixo e grandes quadris e nádegas foram descobertas em toda Eurásia, dos Pirineus à Sibéria. Figuras de mármore, galhos de veado, argila e pedra maleável datados da Era do Gelo foram encontrados escondidos sob rochas nas cavernas e abrigos nas rochas, bem como em nichos nas paredes e em poços perto de casas. Apesar das variações em suas aparências, foram todas denominadas “figuras de Vênus”, inspirado pela deusa romana do amor.

Alguns autores argumentam que essas figuras estavam intimamente ligadas a “cultos antigos de fertilidade”. Quando a Vênus de Willendorf [acima] foi achada perto de Krems, na Áustria, em 1908, seu corpo esculpido em calcário ainda conservava traços de ocre vermelho esfregado na pedra. Com seu chapéu ou penteado trançados, quadris largos, nádegas volumosas e seios opulentos, parecia exprimir uma forte mensagem sexual para os homens. “As áreas do corpo exibidas com sua perfeição arredondada eram precisamente as áreas mais importantes nas fases preliminares do ato sexual, isto é, o abdome, as nádegas, coxas, seios e ombros; ao passo que as canelas, os antebraços, os pés e as mãos não tinham nenhum apelo”. Outros descreveram essas “Vênus” como as primeiras mulheres eróticas: as pin-ups do Pleistoceno ou as coelhinhas da Playboy.

Descrições dessas estátuas como símbolos de fertilidade, amuletos eróticos, ou objetos sexuais feitos e usados pelos homens revelam o preconceito quase sempre incosciente das gerações anteriores. O pressuposto é de que os corpos femininos só têm interesse se satisfazerem aos desejos dos homens, e que essas mulheres eram meras espectadoras na vida mental criativa da pré-história. Segundo essa concepção, as mulheres nos tempos antigos não tinham cultura própria. Em vez disso, existiam sobretudo para estimular o sexo e a fecundação.

Entretanto, outros autores interpretaram essas figuras como representações feitas por mulheres para o uso delas. Encontram-se entre esses autores a arqueóloga lituana Marija Gimbutas. Ela argumenta que por terem achado centenas de figuras femininas e só uma quantidade pequena de masculinas, a divindade primordial de nossos ancestrais pré-históricos era feminina.” (pags. 39 e 40)

A autora segue descrevendo brevemente outras teorias, de que as estatuetas tenham sido usadas como calendários, já que apresentam estados distintos do corpo feminino, em práticas mágicas ou como auxílio para ensinar mulheres jovens, grávidas e parteiras. A teoría da autora, no entanto, é de que elas teriam pertencido a mulheres xamãs, que, dentre outras funções, também atuavam como parteiras. Um dos indícios são os cordões abaixo das nádegas da Vênus de Lespugue [ao lado] como os cordões encontrados em “elementos das roupas  dos xamãs do Norte da Ásia do século XVII ao século XX”.                                                                     Venus de Lespugue (c. 25.000 a.C.)

Em outro trecho ela escreve  que: “[…] descobertas de esqueletos femininos enterrados como artefatos xamânicos continuam a surpreender muitos estudiosos ocidentais, assim como público em geral, porque se presumiu por muito tempo que o xamanismo era basicamente uma vocação masculina. Essa concepção errônea tem sido sustentada, em parte, pela prática de determinar o sexo dos esqueletos pela forma da pelve, o tamanho da cabeça, o peso e as dimensões dos membros. O problema desse método é que há uma grande variação em tamanho e peso nas populações de cada sexo. Ossos ambíguos, inclusive de mulheres fortes ou robustas, quase sempre são tidos como masculinos”.

Embora não se refira a artefatos visuais essa reflexão é interessante para pensar nas práticas de atribuição de gênero e na conhecida generalização para o masculino, além do processo de escrita da história da arte. Vários trabalhos feitos por mulheres já foram atribuídos a homens e depois redescobertos como sendo de autoria das mulheres após novos estudos. A pintora barroca italiana Artemísia Gentileschi, por exemplo, teve vários de seus trabalhos atribuídos primeiramente a seu pai, também pintor, Orazio Gentileschi. Isso leva a crer que diversos outros trabalhos feitos por mulheres provavelmente ainda são compreendidos como sendo de autoria masculina…

Mais adiante no texto ela diz que uma das coisas que fez com que várias ossadas passassem a ser reconhecidas como femininas foi, além do desenvolvimento de novas tecnologias, a entrada de mulheres nessa área de atuação. Ou seja, a entrada das mulheres trouxe uma mudança de perspectiva na área, algo que parece essencial para que um campo de conhecimento se expanda e as práticas relacionadas evoluam. Além disso, olhar por novos angulos facilia uma interpretação crítica daquilo que é apresentado como oficial. Quais serão as outras “verdades” criadas pela/na arte e história da arte? O que elas escondem? Elas favorecem algum grupo?

 

Tauana M.

 

fonte:

TEDLOCK, Bárbara. A Mulher no Corpo de Xamã: o feminino na religião e na cultura. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.

2 comentários em “Vênus”

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s