Anjos da Anarquia: mulheres artistas e surrealismo

Este vídeo é uma conversa entre a curadora de uma exposição ocorrida em 2009 sobre mulheres artistas surrealistas e a escritora inglesa Jeanette Winterson. O vídeo está em inglês e sua tradução segue no texto abaixo. Por enquanto não foi possível incluir legendas no vídeo, mas esperamos poder fazer isso num futuro próximo.

Anjos da anarquia: Mulheres artistas e surrealismo

Jeanette Winterson em conversa com a curadora de Anjos da Anarquia, Dr. Patricia Allmer.

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P.A – Oi, meu nome é Patrícia Allmer. Eu sou curadora de Anjos da Anarquia: mulheres artistas e surrealismo, na Galeria de arte Manchester. A exposição irá abrir dia 26 de setembro.
Eu estou aqui com Jeanette Winterson.
O que você achou da exposição?

J.W. – É uma exposição fantástica! Completamente inesperada. Eu não sabia o que iria encontrar. Eu sabia sobre Lee Miller, eu sabia sobre Frida Khalo, eu sabia sobre Leonora Carrington. E eu acho que muita gente vai reconhecer a xícara e pires peludos de Meret Oppenheim, porque é uma imagem icônica do surrealismo .
Mas eu não tinha idéia de que tantas mulheres haviam trabalhado dentro do movimento surrealista durante tantas décadas.
E, de fato, sendo inteiramente perdidas para nós. E é somente o feminismo nos anos 70, não é? Que nos trouxe essas mulheres de volta, e agora podemos ver a qualidade e variedade de seu trabalho, que é extraordinária.
Não é que não sabemos sobre essas mulheres porque elas não são boas, é porque, como sempre, a história masculina desse período na arte as descartou.

P.A. – Sim, eu acho que é muito importante mostrar que essas são grandes artistas do século XX e é muito importante trazê-las de volta para o conhecimento público. Também é muito importante porque vários dos trabalhos artísticos estão começando a se desintegrar e estamos próximos de perder essa história.

J.W. – Esse tem sido um problema com vários trabalhos de mulheres, está quase se auto-desaparecendo, de forma que as mulheres são retiradas dos livros de história mas seu trabalho também desaparece.

P.A. – Então há um verdadeiro perigo aqui de perder a história, a história que é nossa história enquanto sociedade, mas também é uma história de nós enquanto mulheres, e isso é muito importante.

J.W. – E eu acho que ainda há um mito comum, não é?
Enquanto as mulheres são mais aceitas agora como escritoras, como artistas visuais, escultoras, artistas que trabalham com instalação, ainda são vistas como um pouco incomuns, como se as mulheres não fossem boas o bastante para entrar nestas esferas masculinas, aonde o verdadeiro trabalho criativo está acontecendo.

P.A. – Você acha que isso mudou nos últimos anos ou últimos tempos, que está mais fácil para mulheres artistas ou escritoras?

J.W. – Eu acho que está melhorando. Quando você olha para “a cama” ou “a tenda” de Tracey Emin, ou para a escultura “Casa” de Rachel Whiteread, que foi demolida no dia em que ganhou o prêmio Turner, uma história extraordinária..
Você pensa que essas mulheres, Tracey e Rachel, elas estão saindo desse espaço. As mulheres aqui, os trabalhos de mulheres surrealistas aqui, tornaram possível para as mulheres agora de nossa geração realmente terem o tipo de reconhecimento, o tipo de  estatus verdadeiro, que elas devem ter.
Mas mesmo aí as pessoas ainda dizem “ah sabe, Tracey Emin, talvez ela seja uma farsa, será que ela é pra valer?”
E acho que tem muita misoginia nesse tipo de comentário, que é certamente o tipo de comentário que as mulheres surrealistas tinham que agüentar, não é?
E elas de alguma forma não eram tão criativas, seu trabalho era muito menos importante, elas não mereciam ter escritos sobre elas. E eu acho que é só nos anos 70, não é? que nós realmente redescobrimos essas mulheres.
Eu estava olhando para essas imagens fantásticas de corpos femininos e de mulheres se fotografando e fotografando outras mulheres. Tão bonito e também tão subversivo, e tão provocativo. E agora estamos num mundo em que uma menina comum, uma menina de 16 anos, vai sair na rua e vê milhares de imagens todos os dias, imagens distorcidas, retocadas e transformadadas de si mesma e de como ela deve ser.
Então uma exposição com essa retoma as questões de como nos vemos, como somos vistas e como nos representamos no mundo.

P.A. – Sim. Eu acho uma pegada bem interessante, por exemplo, nessa galeria onde mulheres artistas representam outras mulheres artistas, como é diferente da representação de musas icônicas do século XX. Então temos mulheres sendo mostradas com seus trabalhos artísticos, mulheres fortes, como por exemplo com a representação de Frida Kahlo. Kahlo é tão freqüentemente representada como um vítima sofredora, sempre apaixonada por Diego [Rivera], perdida….

J.W. – Que era o verdadeiro artista.

P.A. – E que era o verdadeiro artista, sim. E quando você olha para as fotografias de Lou Albarus Beowulf (?) de Frida Kahlo, essa mulher não está sofrendo, essa é uma mulher muito forte. E eu acho, mais uma vez, que a forma como as mulheres surrealistas estão se representando umas as outras, mostra bastante esse lado forte e esse lado de mulheres fortes.

J.W. – Sim, você está certa, mostra. Digo, elas são vistas como co-criadoras, não é?

P.A. – É.

J.W. – Elas se respeitam umas as outras.

P.A. – Há muito respeito com os trabalhos artísticos uma das outras. E mais uma vez, elas conheciam o trabalho artístico uma das outras. Não sabemos muito, mesmo, sobre o quanto cada artista conhecia as outras. Por que não? Por que não pesquisamos isso até agora? é muito, muito importante. Por que estamos sempre tão fixados em saber se Carrington era a namorada de Marx Ernst ou.., sabe, essas coisas de relacionamento sempre vem para primeiro plano, de como mulheres artistas de relacionam com homens artistas? Você só precisa ver as biografias das mulheres artistas. Tem sempre “oh, ela estava num relacionamento com outra pessoa”, enquanto se você olha para uma biografia de homem artista elas são sobre arte e os períodos pelos quais passaram.

J.W. – Certamente isso não mudou. Você ainda encontra todo o interesse, quando uma mulher está fazendo um trabalho criativo agora é entrevistada ou se escreve sobre ela, está sempre em com elas estão fazendo sexo, quem é o macho em cena.
Eu adoro aqui também como temos várias imagens de anjos. Temos o “Anjo da Anarquia” ao entrar pela porta, temos o “Anjo da Misericória”, que não parece muito misericordioso para mim, ao fim da exposição. Temos o “prisioneiro celestial” o anjo na gaiola, outros anjos nas fotografias. Acho que isso é fascinante, porque estava pensando no ensaio de Virgínia Wolf “O anjo da casa”, no início do século XX, vindo da idéia representacional masculina dos anjos presidindo delicadeza, e esse é um anjo confinado, apertado, açucarado. E aqui você tem anjos explodindo, na forma verdadeira, no que se chama de anjos como mensageiros, anjos se movendo entre dois mundos. Isso parece ser para mim o que essas mulheres surrealistas estão fazendo. Elas estão se movendo de forma tão hábil, veloz, leve, inteligente, divertida, bruxa entre dois mundos: o mundo do olhar masculino, e também elas se percebem como mulheres e criadoras. É uma exposição questionadora, porque penso que as mulheres, não apenas como indivíduos, mas como gênero, estamos ainda em transição. Nós não sabemos como nos ver, não sabemos realmente como nos representar, nós não sabemos nem quem somos. Não está acabado por um longo caminho.

P.A. – Não. E isso é bom. É brilhante que não sabemos…

J.W. – Eu acho que sim.

P.A. –  …e que temos que explorar.

J.W. – Então acho que o eu instável que tem sempre sido um problema para as mulheres pode ser também uma força, porque nessa instabilidade surgem muitas possibilidades  contanto que não sejamos imediatamente travadas pelas idéias da sociedade masculinista de como devemos ser ou como somos. Então o que encontramos aqui não é tanto uma filosofia de vida, mas uma série de perguntas que me permite questionar além: onde estamos agora em 2009, em nosso mundo, como mulheres?

P.A. – É. E o que você acha? Onde estamos nós, em 2009, como mulheres?

J.W. – Esse é o momento em que devemos lutar novamente. Esse não é o momento de descansar. Sabe, tem muita bobagem sendo dita sobre como o feminismo está acabado e que não precisamos mais dele. Então vemos uma exposição como essa e saímos e vemos o bombardeio de imagens de mulheres em todo o lugar, em revistas femininas, e a infinita distorção e retoques, e mulheres lutando para fazer suas marcas criadoras e você pensa “não, não, realmente cem anos não é suficiente. Vamos precisar dos milhares de anos que os homens artistas aproveitaram antes de ter certeza de quem realmente somos e o que queremos dizer sobre nós mesmas”.

P.A. – Muito obrigada!

Para saber mais sobre essa exposição visite: http://www.manchestergalleries.org/angelsofanarchy/

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