Algumas histórias esquecidas

 

Ressurreição de Camille

A família declarou-a louca e meteu-a num manicômio.
Camille Claudel passou ali, prisioneira, os últimos trinta anos de sua vida.
Foi para o seu bem, disseram.
No manicômio, cárcere gelado, se negou a desenhar e a esculpir.
A mãe e a irmã jamais a visitaram.
Uma ou outra vez seu irmão Paul, o virtuoso, apareceu por lá.
Quando Camille, a pecadora, morreu, ninguém clamou seu corpo.
Anos levou o mundo até descobrir que Camille não tinha sido apenas a humilhada amante de Auguste Rodin.
Quase meio século depois de sua morte, suas obras renasceram e viajaram e assombraram: bronze que baila, mármore que chora, pedra que ama. Em tóquio, os cegos pediram licença para apalpar as esculturas. Puderam tocá-las. Disseram que as escultyras respiravam.

Desalmadas

Aristótoles sabia o que dizia:
A fêmea é como um macho deformado. Falta-lhe um elemento essencial: a alma.
As Artes plásticas eram um reino proibido aos seres sem alma.
No século XVI, havia em Bolonha 524 pintores e uma pintora.
No século XVII, na Academia de Paris, havia 435 pintores e quinze pintoras, todas esposas ou filhas dos pintores.
No século XIX, Suzanne Valadon foi verdureira, acrobata de circo, modelo de Toulouse-Lautrec. Usava espartilhos feitos de cenouras e dividia o estúdio com uma cabra. Ninguém se surpreendeu que ela fosse a primeira artista a se atraver a pintar homens nus. Tinha de ser uma doida.
Erasmo de Rotterdam sabia o que dizia:
– Uma mulher é sempre mulher, quer dizer: louca.

Eles são elas

Em 1847, três romances comoveram os leitores ingleses.
O morro dos ventos uivantes, de Ellis Bell, conta uma devastadora história de amor e vingança. Agnes Grey, de Acton Bell, despe a hipocrisia da instiuição familiar. Jane Eyre, de Currer Bell, exalta a coragem de uma mulher independente.
Ninguém sabe que os autores são autoras. Os irmãos Bell são as irmãs Brontë.
Essas frágeis virgens, Emily, Anne, Charlotte, aliviam a solidão escrevendo poemas e romances num povoado perdido nos páramos de Yorkshire. Intrusas no masculino reino da literatura, puseram máscaras de homens para que os críticos perdoem seu atrevimento, mas os críticos maltratam suas obras rudes, cruas, grosseiras, selvagens, brutais, libertinas…

Noites de Harém

A escritora Fátima Mernissi viu, nos museus de Paris, as Odaliscas turcas pintadas por Henri Matisse.
Eram carne de harém: voluptuosas, indolentes, obedientes.
Fátima olhou a data dos quadros, comparou, comprovou: enquanto Matisse as pintava assim, nos anos 20 e 30, as mulheres turcas se tornavam cidadãs, entravam na universidade e no Parlamento, conquistavam o divórcio e arrancavam os véus.
O harém, prisão de mulheres, havia sido proibido na Turquia, mas não na imaginação européia. Os virtuosos cavalheiros, monógamos na vigília e polígamos no sonho, tinham entrada livre naquele exótico paraíso, onde as fêmeas, bobas, mudas, ficavam felizes ao dar prazer ao macho carcereiro. Qualquer burocrata medíocre fechava os olhos e se transformava, no ato, em um poderoso califa, acariciando a multidão de virgens nuas que, dançando a dança do ventre, suplicavam a graça de uma noite ao lado de seu dono e senhor.
Fátima tinha nascido e crescido num harém.

Proibido Cantar

Desde o ano 1234, a religião católica proibiu que as mulheres cantassem em igrejas.
As mulheres, impuras por herança de Eva, sujavam a música sagrada, que só podia ser entoada por meninos varões ou homens castrados.
A pena de silêncio regeu, durante sete séculos, até princípios do século XX.
Poucos anos antes que lhes fechassem a boca, lá pelo século XII, as monjas do convento de Bingen, nas margens do Reno, ainda podiam cantar livremente a glória do Paraíso. Para boa sorte dos nossos ouvidos, a música litúrgica criada pela abadessa Hildegarda, nascida para elevar-se em vozes de mulher, sobreviveu sem que o tempo a tenha gasto nem um pouquinho.
Em seu convento de Bingen, e em outros onde pregou, Hildegarda não fez só música: foi mística, visionária, poeta e médica estudiosa da personalidade das plantas e das virtudes curativas da água. E também foi a milagrosa fundadora de espaços de liberdade para suas monjas, contra o monopólio masculino da fé.

 

 

 

As histórias transcritas aqui foram retiradas do livro “Espelhos: uma história quase universal” escrito por Eduardo Galeano, publicado no Brasil pela editora L&PM. O livro conta diversas histórias apagadas ou silenciadas pela História Oficial. Para quem se interessar, é um ótimo livro!

 

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