Carta de Lygia Clark para Hélio Oiticica

Paris, 6.2.1964

Meu muito querido,

Chegando hoje de Stuttgart, fui direto à Embaixada (exausta – meu pé cresceu já uns dois pontos – será elefantíase?) para buscar a carta que havia chegado para mim – Era sua! Valeu todo o meu cansaço pois cheguei pisando como uma velha de 80 anos… Você nem imagina a alegria que senti pois uma carta é sempre um pedaço da pessoa, e a gente lê uma, duas, trêz vezes tal a fome, que é a saudade, que a gente sente dos amigos! Acho que virei até antropófaga. Tenho vontade de comer todo mundo que amo e que se ache aí… coitado do Peter quando chegar! Bom, vamos moderar esta voracidade senão… bem passarei o resto da minha vida na cadeia como Genet, como devoradora de machos (o meu signo é escorpião, lembra-se)

Fui de trem para o vernissage. Frau Walter e Herr Bense me escreveram dizendo que, se eu quisesse montar a exposição, eu deveria chegar na véspera à tarde ou no dia 4 de manhã. Achei que não daria tempo para grandes arrumações e escrevi que confiava na Frau Walter para montá-la sozinha. Diz o ditado que a gente deve confiar desconfiando, o que eu fiz na minha burrice à la Lacerda, que você já conhece, não fiz.

Ah! Nunca mais! Pois ao chegar lá vi os Bichos quase todos dependurados pela sala por meio de fios de nylon, como os móbiles de Calder!… Estava exausta pois não havia dormido desde a véspera e havia viajado durante oito horas até lá. Evidentemente protestei imediatamente e, sob grandes protestos do Herr Bense e, posteriormente, da Frau Walter (que foi chamada pelo Bense para que me impedisse de retirar os Bichos pendurados), peguei uma tesoura e cortei todos os nylons do teto. Um Casulo que Bense não queria que ficasse na parede, eu o pendurei, e o grande Contra-relevo que era na diagonal (eles o haviam posto sob a forma de quadrado), eu o fiz pendurar certo. O argumento de Bense era: “Está tão bonito! deixe desta maneira!” (…)

Não é preciso dizer que foi criado um clima de guerra aberta. Fui delicada, disse palavras horríveis (longe do Herr e da Frau), mas com eles eu expliquei que isto desvirtuava totalmente o meu trabalho e que eu não podia de maneira nenhuma fazer concessão desta ordem. Pois bem, na hora da vernissage, eu quase desmaiada de fome, exaustão e nervosia, pedi a um brasileiro que me traduzisse o que Herr Bense estava dizendo –  começou ele dizendo que quando eu cheguei eu desarrumei todo o seu arranjo, que a respondabilidade do atual era só minha e que ele teve que respeitar a minha opinião de que a importância da minha exposição era da participação do expectador, etc., etc. Todo mundo morreu de rir e quando ele acabou de falar foi um sucesso total – todos sem exceção mexiam sem parar nos Bichos. Foi Lindo! Matemáticos, arquitetos, encantadíssimos com a exposição (que foi a mais merdífera feita por mim em toda a minha vida). Não me deram o salão grande, pois houve qualquer coisa entre o reitor e o Herr Bense, de modo que a exposição foi muito incompleta (perto da do MAM). Bases diminutas e os Bichos pareciam pousados num pé só como as aves fazem. Botei tudo no chão com raras exceções pois salvei ainda, improvisando, algumas bases. Não expuseram as fotos (caríssimas) das Arquiteturas fantásticas, nem os Abrigos, nem a Casa, tampouco o Caminhando – falta de espaço. Foi televisionada, muitos repórteres, críticos e intelectuais. Mais de dez pessoas me perguntando o preço – O lá lá!… Bense acha que venderei ao menos uns três trabalhos. Depois fomos comer juntos num restaurante. (…) Nesta hora os ânimos estavam ótimos, o Herr Bense, entusiasmado com o sucesso da exposição, Frau Walter, idem, e riam muito, quando admoestei o Bense, dizendo que na próxima vez que ele se propusesse a me atacar que o fizesse em francês, pois assim eu teria a chance de revidar à altura. No dia seguinte, a Frau me convidou para almoçar chez elle e o ambiente foi francamente ótimo. O Bense escreveu um artigo sobre Lygia Clark e Gertrude Stein – diz ele que vai me mandar – e vai escrever outro sobre a minha obra para uma ótima revista alemã. Pediu que eu expusesse (para o ano) na galeria de um amigo seu que é imprtantíssimo pois tem a melhor publicação de arte na Alemnha. Ficou radiante quando disse que, quando voltasse para o Brasil, deixaria com ele em Stuttgart uns seis Bichos emprestados. Dei-lhe um Casulo que ele escolheu e para a filha da Frau Walter uma maquete, pois eu gosto dessa Frau! O catálogo ficou bem bonito – vou mandar o do Mário e guardo um para você. (…) Vou terminar aqui pois a carta está enorme. Telefone Soninha (gosto pra burro dela), diga-lhe que já escrevi a ela sim, mas que a carta saiu tão triste e repelente que rasguei – vou amanha mesmo lhe escrever outra. Que ela não fique triste ou zangada, porque eu escrevi, isto eu juro!

Mil abraços para os nossos – (que incluem os seus).

Milhões de beijos

Lygia Clark

ps: Diga ao Eduardo que eu escrevi para ele duas cartas e ele não me respondeu ainda, […].
Diga a Ana que vou responder amanhã sua carta.
Adorei!

Texto retirado do livro “Lygia Clark . Hélio Oiticica: Cartas (1964-1974)”, organizado por Luciano Figueiredo e publicado pela editora UFRJ.

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