Zoe Leonard: um olhar humanizador no museu de anatomia

Na obra Preserved Head of a Bearded Woman (Musée Orfila) (1991) a artista apropria-se por meio de fotografias da cabeça de uma mulher barbada em uma cúpula de vidro arredondada, que está preservada no maior museu de anatomia da França, o Musée Orfila. A obra de Zoe Leonard constitui-se como uma reapresentação desse objeto disposto no museu. Sendo assim, está em jogo uma qualidade de olhar da artista sobre aquele objeto, em relação a outro olhar como expectativa social sobre aquele corpo.  O grotesco que se pode observar reside no ato de preservação médica – por meio da taxidermia – desse corpo para ser estudado para a posteridade no museu.

Leonard parece retomar essa imagem para sugerir um olhar humano nessa apropriação simbólica, expondo o grotesco que é a ação violenta de decaptação e preservação da cabeça dessa mulher. O ato condensa o pensamento social em relação a corpos dissonantes em relação à normatividade, que é visível na exotização de pessoas com condições corporais distintas como os ditos freaks que eram atração de circos dos horrores como aberrações humanas.

A mulher barbada distoa da normatividade do corpo feminino, tendo sua existência configurada como um desvio dessa norma. O desenvolvimento de pelos faciais que caracterizem uma barba em pessoas dotadas de útero é chamado de hirsutismo.  Os pelos faciais em mulheres – cisgêneras ou trans – na cultura ocidental não são desejáveis na região do queixo e do buço, ainda que exista uma ligeira flexibilidade em relação à existência deles em outros lugares do corpo.

As mulheres barbadas são destituídas de sensualidade – tida como atributo feminino – e são consideradas ridículas, recebendo esse estigma por um ideal de assepssia ligado ao corpo feminino no que concerne à presença de pelos e sangue, tidos como relacionados à sujeira, à abjeção.

­­O abjeto é repulsivo porque manifesta uma confusão  de  limites,   que   pontua,   fratura  e fragmenta a suposta  unidade […]  dos  sujeitos hegemônicos e do corpo político da nação. (KRISTEVA apud VILLAÇA, p. 74 ).

A mulher barbada é ela própria uma disrupção de limites do gênero, pois a presença de pelos em demasia é atributo socialmente circunscrito aos corpos masculinos e a existência deles além de um limite social no corpo feminino dá a esse corpo a tônica do abjeto, pelo fato de colocá-lo fora de uma linha de inteligibilidade do gênero.

Butler (p. 191-192) em relação a um conceito de abjeto de Julia Kristeva, pontua que esse relaciona-se com as funções excretoras do sujeito por meio da delimitação de interno e externo corporal e a relação com a constituição de identidade do “eu” e do “Outro”, pontuando que a expulsão de elementos pela excreção elabora o próprio estranho e o sujeito em si.

A obra de Leonard refere-se à classificação institucional da anormalidade em patologia e objeto de estudo,  o queer é classificado por meio de uma etiqueta: Museu de Anatomia 002907. Existiria essa mulher barbada dotada de pessoalidade; com história, nome? A ela não é dada humanidade, não há a noção de indivíduo; há a de aberração. O ato de expô-la como bizarrice no museu de anatomia reafirma a normatividade de corpos e a construção do conhecimento científico e sua respectiva organização discursiva do corpo.

Referências

http://www.ina.fr/fresques/elles-centrepompidou/parcours/0003_3

http://www.arts-programme.com/musee/view/id/401

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização brasileira, 2010.

VILLAÇA, Nízia. Sujeito/Abjeto. Revista LOGOS 25: corpo e contemporaneidade. Ano 13, 2º semestre 2006.

 

Ana C.

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