Como enquadrar um enquadramento: lições de Agnès Varda – Mayã Fernandes

Escrevo este texto após assistir a análise de uma fotografia feita pela artista e cineasta Agnès Varda, em Um minuto para uma imagem (1983). Em formato de vinhetas, os ensaios cinematográficos foram realizados por Varda em parceria com o Centre National de la Photographie e televisionados na França. Por vezes, Agnès Varda, observa as fotografias como imagens opacas1, que não garantem um atravessamento da imagem, não sendo plausível encontrar o seu referencial, recorrendo à fatores externos como a criação de narrativas possíveis. 

Liliane de Kermadec. Fotografia do filme Cléo de 5 a 7, (1961).

Um exemplo desta interpretação de Varda pode ser visualizado com a fotografia de Liliane de Kermadec, realizada durante as gravações do filme “Cléo de 5 a 7” (1961). Por mais que Varda tenha dirigido o filme, ela se propõe a observar a imagem como se fosse a primeira vez. Na ressignificação do olhar, Varda indica a inexatidão do referente na imagem e recusa-se a analisar o evento em si, mas aproxima-se dos objetos por meio de metáforas, entendendo a fotografia como um símbolo, que dialoga com inúmeras possibilidades de acontecimentos que não foram capturadas pelo enquadramento da imagem. 

Nesse vídeo, Varda analisa a fotografia como um índice, um rastro físico do evento que aconteceu. Esse registro fotográfico evidencia uma situação que está no passado, mas que permanece eternizada pela imagem. O exemplo dessa análise pode ser encontrada na imagem da Mulher Argelina (1960), e proponho-me aqui a acompanhar o índice para além dos minutos do vídeo. 

Olhando para a foto da Mulher Argelina senti a angústia e o desconforto da mulher ao ser fotografada. Em seguida, com a interpretação de Varda, pude confirmar a violência causada pela objetiva da câmera. 

No início do vídeo, Varda apresenta-nos a fotografia durante 15 segundo para em seguida introduzir sua narrativa. Ao fim de sua interpretação, Varda revela o nome da imagem e o do fotógrafo. A transcrição do vídeo é a seguinte: 

Eu conheço essa imagem, ela faz parte dos arquivos do exército e o fotógrafo guardou o negativo durante 20 anos numa gaveta. Era a Guerra da Argélia e ele fazia seu serviço militar. Essa mulher foi obrigada a posar para ele, como todas as pessoas da aldeia, de quem se fazia fotografias para a carteira de identidade obrigatória. (VARDA, 1983). 

As fotografias de guerra tiveram sua recepção banalizada por jornais e mais tarde pela televisão e mídias digitais. Susan Sontag alerta sobre a capacidade das imagens fotográficas amortecerem o sofrimento, de banalizá-los ao transformar essas doses de violência em algo suportável no cotidiano. A normalização das imagens de opressão em conjunto com o discurso da neutralidade do ato fotográfico, permitem ao fotógrafo transitar entre eventos acima do julgamento moral e da responsabilização de seus atos. Registrar uma cena à serviço de alguém cria a ilusória sensação de impunidade e limitação da liberdade. Além disso, a violência institucionalizada, nesse caso exigida pelo exército francês, suprime a subjetividade das pessoas em função da necessidade de catalogação, e, em sua perversidade, delimita a criação de um conhecimento científico enciclopédico de outros povos. Em sua análise, Varda diz

[…] Portanto, ele estava em serviço seguindo ordens e ela por sua vez foi obrigada a retirar seu véu, a deixar cair seu véu. Esse duplo constrangimento, essa violência feita a cada um, é visível, sobretudo, pela incrível força com a qual essa mulher recusa. E se a desordem de seu cabelo dá a impressão de uma dor, de uma emoção, de uma perturbação, a rigidez de seu rosto, com essa dobra amarga da boca, e a incrível violência de seu olhar – tudo isso diz: “Não!”. Pode-se dar ordens a essa mulher, não se pode submetê-la. Eu fico muito impressionada pelo rosto dessa mulher. E pelo trabalho do fotógrafo que, fazendo seu sujo trabalho de militar, foi mesmo assim mais longe do que a compreensão que tinha do que se passava.(VARDA, 1983). 

Talvez seja difícil para quem observa essa imagem entender a violência. O constrangimento que Varda alega ser também do fotógrafo, pode ser ignorado ao considerá-lo como agente de tal ação. No vídeo, Varda desloca o enquadramento da fotografia por meio do zoom, focando na expressão da mulher.

O zoom do vídeo demarca o encontro da câmera com o referente e evidencia a captura. O ato fotográfico, o clique no botão, o gatilho da câmera assemelha-se  ao disparo da arma. A fotografia possui a capacidade de transformar sujeitos em objetos, e a imagem sem nome próprio reafirma a objetificação. É a morte do sujeito barthesiano, que sugere o retorno do morto na eternização da imagem. Mas o que está sendo perpetuado na história? O olhar da argelina, que indica um “não” é insuficiente para barrar a violência do registro ocidental que objetifica a dor do outro em nome de uma memória. 

Judith Butler em Quadros de guerra explica-nos sobre a função dos enquadramentos nas imagens fotográficas. Para ela, esses fragmentos selecionados por quem fotografa são responsáveis pela delimitação de histórias de vida e de histórias de morte. O trunfo da leitura de Agnès Varda é não ignorar os cálculos ocidentais de objetificação, de enquadrar os enquadramentos, de entregar  a intencionalidade da imagem.  Assim, a fotografia conta-nos uma narrativa e mostra-nos a vítima e o algoz. Quando possuímos a sensibilidade e a codificação de leitura que permite a compreensão da intencionalidade do registro é possível refletirmos sobre a violência das imagens.

Esse destaque da cena, a evidência dos enquadramentos que causam uma agressão, fornece-nos um código de leitura para a imagem. Não é apenas de um registro de identificação, mas de uma fotografia 3×4 que como padrão, segue o ideal de objetividade elaborada para uma finalidade ocidental. Assim, a humilhação é compulsória e a retirada do véu é a subjugação de outros povos: a vitória do colonizador. 

Por fim, nos créditos do vídeo, Varda nomeia o fotógrafo, delegando a ele o compartilhamento da autoria de tal violência. O vídeo deve ser incômodo ao constatarmos a necessidade da responsabilização do ato fotográfico, do questionamento ético e dos usos da fotografia como ferramenta de dominação. 

Notas:

⒈Rouillé entende as fotografias como opacas quando não conseguem demonstrar ao observador o seu referente. Para ver mais sobre o assunto, ver ROUILLÉ, André. A fotografia: entre documento e arte contemporânea. São Paulo: Editora SENAC, 2009, p. 66.

⒉Índice como rastro, ver PEIRCE, Charles. Écrits sur le signe. Paris: Seuil, 1978.

⒊SONTAG, Susan. Sobre fotografia. São Paulo: Companhia das letras, 2004.

⒋ROUILLÉ, André. (2009, p. 66).

⒌BARTHES, Roland. A Câmara Clara. Rio de Janeiro: Nova fronteira, 2003. 

⒍BUTLER, Judith. Quadros de guerra: ou quando a vida é passível de luto. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2018.

Mayã Fernandes

É doutoranda em Artes Visuais pela UnB (2019), mestra em Metafísica na linha de pesquisa Estética Antiga: Narrativa, Visualidade e Verdade, pela mesma Universidade (2018). Dedica-se à oferta de cursos de curta e longa duração nas áreas de fotografia, arte e filosofia no Espaço f/508 de Cultura (DF) e na Oribê Educacional. É crítica de arte, atuando durante os anos de 2018 e 2019 na Revista Desvio/RJ, publicando mais de 30 críticas. Atualmente é colunista da revista Ano I: ensaio, podcaster no Filosofia de Bar e editora na Oribê Editorial.

Site pessoal:

https://linhasdefugaa.wordpress.com/

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