Émilie Charmy

Émillie Charmy foi uma pintora francesa que iniciou sua trajetória nas artes visuais produzindo obras impressionistas, passando posteriormente pelo pós-impressionismo e fauvismo, vanguardas das quais participou ativamente.  

O final do século XIX e início do século XX na França não era favorável à presença de mulheres nas artes ou em outros lugares de produção, de poder ou mesmo de autossuficiência financeira. Foi o privilégio de ser filha de uma família burguesa, mesmo tendo ficado órfã ainda nova, que a permitiu estudar em uma escola onde podia desenvolver suas habilidades artísticas e musicais. 

Embora os temas escolhidos pela artista estejam, em sua maioria, dentre aqueles “esperados” de serem retratados por mulheres (isto é, naturezas mortas, retratos e paisagens), Charmy criou polêmica ao representar mulheres que trabalhavam como prostitutas. Suas obras, no geral, eram bem aceitas, fazendo com que ela conseguisse se sustentar a partir da venda de seu trabalho; no entanto, o corpo de mulheres vestindo apenas meias pretas de cano longo, confortáveis em sua nudez na presença umas das outras (imagem abaixo), sendo retratadas por uma mulher da classe média, foi rejeitado mesmo por quem gostava do seu estilo. Isso remete à questão do olhar masculino para o corpo feminino ao longo da história da arte. Em outras palavras, se a nudez feminina é representada de forma tão corriqueira por homens nas artes visuais, o que choca na pintura de Emily não é a cena, mas o fato de que é uma mulher que a produz. Uma mulher olha para o corpo de outras mulheres, uma mulher decide representar esses corpos, decide transgredir o espaço de passividade que lhe era esperado. 

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Emilie Charmy. La lodge (the dressing room). Óleo sobre tela. 72 x 70 cm. c. 1902.

Permito-me, aqui, ponderar ainda o seguinte: será que a transgressão de Charmy, aos olhos dos homens da época, está no possível lugar de desejo por outros corpos femininos? Afinal, as mulheres podiam ver as obras que representavam nus femininos pintados por homens sem alarde, mas ver esses corpos ao vivo – e observá-los, e retratá-los – já era demais.

Talvez haja algum outro motivo nessa história, mas tendo alguma familiaridade com o desnorteamento que alguns homens heterossexuais sentem ao descobrirem que mulheres podem não desejá-los nem precisar deles para se realizar sexualmente, não posso deixar de pensar que o escândalo citado seja provocado, ao menos em parte, por esse medo. 

Outro fator de sua história que chama atenção nesse sentido são os “elogios” feitos à sua obra dizendo que ela pintava “como um homem”; e a crítica de André Warnod, editor da revista de arte Comoedia, à sua exposição de 1926, na qual dizia que seus nus eram de uma “sensualidade primitiva”, que abandonava toda “civilidade” e se aproximava de rituais das bacantes. Ficam nítidos nesses comentários as ideias de que produções das mulheres não eram vistas como potencialmente interessantes, audaciosas, instigantes, sendo estas classificadas como “masculinas” caso apresentassem essas características; e que o olhar de mulher para o corpo de outra, especialmente com uma representação sensual do corpo femino, era percebido como “não civilizado”, como o “outro”. Isto é, no olhar do crítico citado e possivelmente em boa parte do público escandalizado, o afastamento da heterossexualidade é percebido como característica a ser marcada e afastada do que consideram aceitável. Daí podemos pensar o seguinte: perspectivas decoloniais – que se propõe sair das lógicas e mentalidades construídas e atualizadas pelos processos de colonização em que algumas identidades, produções e visões de mundo são percebidas como válidas e outras como indesejadas –  necessitam ser, além de antirracistas, livres do heterocispatriarcado e suas inúmeras repercussões.   

Tauana M.

Referências:  

http://emiliecharmy.org/

https://awarewomenartists.com/en/artiste/emilie-charmy/

http://emiliecharmy.fr/fr/index.php

http://www.papillongallery.com/charmy2.html

Perry, G. (1995). Women artists and the Parisian avant-garde : modernism and ‘feminine’ art, 1900 to the late 1920s. Manchester University Press. 

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