As coisas estão mudando! (mesmo que devagarinho)

linha mulheres artistasEstava agora jogando as palavras “mulheres artistas” no google, como faço algumas vezes desde que começamos o blog e coletivo um pouco mais de 7 anos atrás (!!!!!!!!), e percebi algo diferente. Agora o google mostra uma linha de rostos e nomes de mulheres artistas visuais, cênicas e musicistas de variadas épocas. Algumas das quais já estão aqui, outras ainda vamos escrever sobre. Mas o fato é que lá atrás, quando começamos, não aparecia assim de cara esses vários nomes. Lá pela metade do caminho, uns três ou quatro anos atrás talvez, lembro de ter visto uma fileira semelhante, mas que apenas mostrava atrizes hollywoodianas ou globais. Agora estavam ali Lygia Clark, Lygia Pape, Maria Bonomi, Ana Mendieta, Yoko Ono, Fayga Ostrower dentre várias outras. Ainda um grupo excessivamente branco e hegemônico, mas com um razoável número de representações sul-americanas, ao menos.

Lembro-me particularmente da Hanna Hoch, artista dadaísta maravilhosa, sobre a qual não havia material em português no google quando escrevi sobre ela em 2010! E olha que coisa linda, agora vemos não só muita coisa sobre ela em português como várias páginas e blogs escrevendo sobre mulheres artistas, documentários com essa temática, mulheres artistas aqui do DF se organizando em rede e de forma geral uma visibilidade para as mulheres nas artes consideravelmente maior que em 2010! Claro que não fomos nós que fizemos isso, mas estivemos junto desse processo e isso é muito bacana!

Queremos que cada vez mais mulheres artistas sejam conhecidas – afinal, como está em uma das sessões de nosso primeiro zine, “Frida não estava só” – e que esse grupo esteja cada vez mais repleto de artistas negras, indígenas, lésbicas, trans, periféricas, com deficiência ou de qualquer outra identidade sistematicamente oprimida pela sociedade. Ainda há muito o que percorrer, mas devagarinho, com amor e resistência de muita gente de todos os lados, as coisas vão mudando! ❤

 

Tauana M.

“E a Mulher Criou Hollywood”

O documentário abaixo mostra como as mulheres desempenhavam papéis de destaque no início do cinema em hollywood, quando ainda não era considerada uma indústria ou mesmo uma atividade lucrativa. Quando esse cenário mudou, na década de 40, o espaço da produção cinematográfica foi tornando-se um espaço cada vez mais masculino e, como vemos ao longo da história, essas mulheres pioneiras, que muito contribuíram para o desenvolvimento da linguagem cinematográfica (com destaque especial para a francesa Alice Guy Blanché – que foi a primeira pessoa a criar narrativas com os filmes e a utilizar som e cor no cinema), não costumam ser conhecidas ou lembradas.

Dendê: partilha pedagógica e poética diaspórica em processo

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Queridas,

deixo aqui o link para acessar e fazer download da minha monografia em Artes Visuais. O trabalho é sobre minha pesquisa poética, que se dá a partir da relação entre corpo negro e memória diaspórica, e as possibilidades pedagógicas que ela traz. São abordadas questões como memória, candomblé, cartografia como metodologia e estratégias de artistas negrxs na recontação de nossas histórias.

Nina Ferreira.

Tirem as mulheres artistas dos depósitos

O texto abaixo é tradução da reportagem “Bring female artists out of storage” de Amanda Vickery para a versão online do jornal inglês The Guardian. O Texto faz referência a uma pesquisa feita para um programa da bbc sobre mulheres artistas na história da arte  apresentado pela autora. O link para o texto original se encontra ao final do texto. Aproveite!

Artemisia Gentileschi's Susanna and the Elders (1610)
Detalhe de Susanna e os Velhos (1610) de Artemísia Gentileschi

 

Tirem as mulheres artistas dos depósitos

Por que há tão poucas pinturas de mulheres artistas em galerias públicas? Amanda Vickery vai a uma chocante caça para desenterrar mais obras-primas.

Sexta, 16 de maio de 2014.

Revelar a história de mulheres artistas na televisão pode soar como um projeto fácil, um agradável exercício em turismo patrimonial. Já não fomos para além de um respeitável agrupamento de heroínas esquecidas, escondidas da história? Afinal de contas, a história da arte feminista tem investigado o olhar feminino desde que Linda Nochlin perguntou “Por que não há grandes artistas mulheres?” em 1971. Pesquisas e livros magistrais vieram, desde The Obstacle Race (1979) de Germaine Greer, até Old Mistresses (1991) de Griselda Pollock e Rozita Parker, possibilitando as graduações em história da arte a oferecerem cursos sobre gênero e “formas de olhar” nos últimos 20 anos aproximadamente. Engajar a TV no objeto deste debate seria fácil. Eu presumi alegremente, até que embarquei na simples mas fundamental tarefa de ver, por conta própria, arte produzida por mulheres.

A arte é masculina? A maioria das instituições nos faria pensar que sim. As disparidades são alarmantes. Em 1989 as feministas Guerrilla Girls descobriram que menos de 5% do acervo do Metropolitan Museum de Nova Iorque era de mulheres, mas 85% dos nus eram femininos. Normalmente é possivel ver trabalhos de uma ou duas mulheres em um museu inteiro, mas você pode passar horas procurando. Eu fiquei aliviada de encontrar o pequeno mas enfeitiçante Proposição (1631), de Judith Leyster e o definifor de gênero Natureza Morta com Queijo, Amêndoas e Pretzels (1621), de Clara Peters, no Hague’s Gemeentemuseum [Museu Municipal de Haia].

Até mesmo a obra prima de Artemísia Gentileschi Judith Decapitando Holofernes (1620) só foi exibido no Museu Uffizi a partir de 2000. Uma duquesa Médici baniu a cena de assassinato de Gentileschi para um corredor escuro por considerar o “sangrento trabalho” demasiado sinistro para exibição.

Semanas de negociação e um contato italiano me levaram ao corredor Vasari para filmar. Essa passarela quilométrica serpenteia do Palazzo Vecchio até o Pitti Palace, atravessando o rio Arno pela Ponte Vecchio. Construído em 1564, ela permitiu aos Medici transitar entre seu palácio e os escritórios governamentais sem serem importunados. A passarela é ladeada por autorretratos de artistas, um panteão da história da arte do século XVI em diante. Mas dos 1.700 autorretratos apenas 7% são de mulheres.

Still Life with Cheeses, Artichoke, and Cherries by Clara Peeters.
Natureza Morta com Queijo, Alcachofra e Cerejas de Clara Peeters

As mulheres não pintavam, esculpiam ou produziam artesanato? Ou o esforço feminino era de tão pouca qualidade que elas não conquistaram um espaço na parede? A ausência de um celebrado panteão feminino contrasta enormemente com o sucesso das mulheres na literatura. Porém, os requerimentos de autoria eram bem mais fáceis de completar que as demandas da arte. Escrever requeria apenas letramento, acesso a uma biblioteca e uma mesa. Mesmo a arriscada exposição de uma publicação poderia ser compensada pelo anonimato. Por contraste, a arte demandava um complexo treinamento, produção pública e estava enredada em uma bem-guardada infra-estrutura. Preconceitos sociais inflexíveis, proibições de acesso ao treinamento formal e restrições legais ao comércio feminino prejudicavam as mulheres artistas.

 

Eu estava preparada para a caça, mas mesmo assim a quase invisibilidade das mulheres na arte foi chocante: fui forçada a ir para espaços de armazenamento e porões. A Advancing Women Artists Foundation [Fundação de Promoção de Mulheres Artistas] estima que 1.500 trabalhos de mulheres artistas estão atualmente armazenados em variados depósitos de Florença, a maioria dos quais não foi visto pelo público em séculos. Para a questão “São todos esses trabalhos de alto padrão artístico?” Jane Fortune, diretora da fundação responde: “Nunca saberemos a menos que eles sejam vistos”.

Galerias públicas parecem tacitamente endossar a visão conservadora, exemplificada pela afirmação de Brian Sewell de que “apenas homens são capazes de grandeza estética”. Mas pintores e escultores eram artesãos trabalhando dentro de oficinas familiares, como os alfaiates, serralheiros, ourives e marceneiros. Arte era um ofício. Poucas pinturas eram produto de uma única mão – apenas o rosto e as mãos podem ser o trabalho de um “mestre”. A marca do artista masculino era uma ficção. Marietta Tintoretto trabalhou ao lado de seu pai em Veneza, Barbara Longhi ao lado de seu irmão em Ravenna, sendo seu trabalho um vital componente da economia familiar, porém não reconhecido fora da oficina.

Uma crença profunda na impossibilidade do gênio feminino está em ação. Muitas das telas

Judith Leyster's The Proposition
A Proposta de Judith Leyster

ensolaradas de Leyster que celebravam a vida social da época de ouro holandesa eram tão habilidosas que foram atribuídas a Frans Hals, apesar de sua assinatura.
A Bolonhesa Elisabetta Sirani produziu mais de 200 peças em uma carreira de 13 anos, conquistando prestígio internacional por sua polida arte religiosa. Ela dirigiu a oficina familiar que incluia suas irmãs, sustentou seu pai quando ele já não podia pintar e fundou uma escola de arte para meninas. O próprio desempenho, rapidez e fluência de sua arte, entretanto, a puseram frente à acusação de que ela não a poderia ter criado – um homem devia tê-la ajudado – uma acusação que Sirani combateu fazendo demonstrações ao vivo de sua pintura.

Gentileschi poderia se igualar aos homens da arte de contra-reforma, mas optou por dramatizar as lutas das mulheres. Ela retratou as mesmas heroínas, até mesmo repetindo as cenas de seu pai Orazio, mas ela carregou as suas com uma crítica pungente à posse masculina de mulheres. A violência do voyeurismo é palpável em Susana e os Anciãos (1610), quando a mulher encolhida é vítima do olhar lascivo de dois velhos. Eles vão acusá-la do crime capital de adultério, a menos que ela concorde em dormir com eles. Seu forte corpo torcido é exibido, mas seu horror é superior, e seus braços são levantados em resistência. “O que VOCÊ está olhando?” A pintura nos diz. Compare isso com a versão excitante de Tintoretto em que Susanna parece saber que está sendo vigiada e exibe sua nudez branca em uma constrangida e suave performance. O episódio se torna um pretexto para o erotismo, e, como a mulher é cúmplice em sua própria subjugação, a sujeira da opressão sexual é acobertada. Gentileschi não terá nada disso.

Não é meu propósito sugerir que ainda temos que descobrir uma mulher Michelangelo, mas é enganoso olhar para o passado apenas através dos olhos de homens. O que as mulheres viram foi diferente. Vamos nos lembrar disso.

 

Reportagem original em:

https://www.theguardian.com/artanddesign/2014/may/16/bring-women-artists-out-of-storage

Tradução Tauana M.

Publicidade e objetificação das mulheres

Esse vídeo da pesquisadora Caroline Heldman mostra como as imagens que nos circundam cotidianamente contribuem para uma hipersexualização do corpo feminino e diversas características destrutivas que acompanham esse processo. Em um momento em que muito se fala sobre cultura do estupro, vale pensar onde essa cultura se constrói, como se alimenta e como podemos, todxs, contribuir para que ela acabe.

Videoperformance


Letícia Parente
“Marca registrada”1975, 9min.
Câmera: Jom Tob Azulay

O vídeo é uma linguagem desde o início impura, híbrida, que opera  diversas vezes em cruzamentos com outras linguagens (MELLO, 2008). Uma dessa enorme gama de possibilidades foi chamada videoperformance, linguagem que o Dicionário de Novas Mídias define da seguinte forma: “Performance em que o artista incorpora uma filmadora ou equipamento de vídeo, e em que é dada à tecnologia uma posição tão proeminente quanto o corpo humano, como um complemento dele” (POISSANT, 2001 p.43-44).

Para Christine Mello (2008), a relação que se cria entre o/a performer e a câmera gera um terceiro corpo, meio máquina meio gente, de cuja síntese se tem a videoperformance. A partir daí pode-se pensar em uma possível diferença entre a videoperformance e o registro de performance, já que a primeira cria uma relação íntima do vídeo com o/a performer e a segunda pode ser feita mesmo sem seu conhecimento.

O registro seria, então, um mediador, um veículo para que se tenha acesso à ação, mesmo que de forma limitada, sem a amplitude toda do espaço, sem os cheiros, sem as energias presentes. A performance, nesse caso, seria o que aconteceu na frente da câmera.

A única vida da performance é no presente. A performance não pode ser salva, gravada, documentada, ou participar de outra forma na circulação de representações de representações: uma vez que o faz, ela se torna algo que não uma performance (PHELAN, 1993 p. 146) 

De acordo com a definição de Louise Poussant, os casos de performances em telepresença poderiam ser classificadas como videoperformances, mas, se forem pensadas enquanto performances, servem para bagunçar um pouco a posição de Peggy Phelan.

Passagens nº 1 – Anna Bella Geiger.
Brasil, 1974, 10min.

De forma geral, no entanto,  parece que os registros são uma forma de se ter contato com aquele trabalho por vias indiretas. De forma distinta, a videoperformance é pensada em relação ao vídeo, sendo este tão importante quanto a presença do corpo em si. O produto final, neste caso, não pode ser separado do vídeo, não existe sem ele.

A relação entre vídeo e performance vem de longa data, tendo sido muitas vezes o único mediador entre o trabalho e o público. Por todo o mundo houve diversas performances feitas em ateliês ou outros espaços reservados, com presença de poucas ou nenhuma pessoa (MELIN, 2008). No Brasil, essa prática foi bastante intensa a partir da década de 70, uma vez que o país se encontrava sob uma ditadura militar que reprimia severamente manifestações artísticas e de outras ordens. O vídeo foi, dessa forma, uma saída para que performers brasileiros continuassem produzindo seu trabalho. A prática do vídeo costumava, nesse primeiro momento, mostrar as ações de forma ininterrupta, permitindo um acesso mais próximo ao que seria a observação da performance em si. Com o passar do tempo, acabada a ditadura, as edições ficaram cada vez mais fragmentadas e dinâmicas, e as características da linguagem do vídeo foram cada vez mais exploradas (MELLO, 2008).

Tauana M.

(Texto retirado da monografia de graduação em bacharelado em artes plásticas)

Referências:
MELIM, Regina. Performance na artes visuais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
MELLO, Christiane. Extremidades do Vídeo. São Paulo: SENAC, 2008.
PHELAN, Peggy. The unmarked: the politics of performance. Londres: Routledge, 1993.
POISSANT, Louise. New Media Dictionary: Part II: Video. In Leonardo, v. 34 n. 1, fev. 2001. p. 41-44. Disponível em: http://muse.jhu.edu/journals/leonardo/v034/34.1dictionary.html

Para saber mais sobre o trabalho de Letícia Parente visite http://www.leticiaparente.net/

Vídeo de Passagens no. 1 de Anna Bella Geiger: http://www.youtube.com/watch?v=QfOU3UBImpg

Carta de Lygia Clark para Hélio Oiticica

Paris, 6.2.1964

Meu muito querido,

Chegando hoje de Stuttgart, fui direto à Embaixada (exausta – meu pé cresceu já uns dois pontos – será elefantíase?) para buscar a carta que havia chegado para mim – Era sua! Valeu todo o meu cansaço pois cheguei pisando como uma velha de 80 anos… Você nem imagina a alegria que senti pois uma carta é sempre um pedaço da pessoa, e a gente lê uma, duas, trêz vezes tal a fome, que é a saudade, que a gente sente dos amigos! Acho que virei até antropófaga. Tenho vontade de comer todo mundo que amo e que se ache aí… coitado do Peter quando chegar! Bom, vamos moderar esta voracidade senão… bem passarei o resto da minha vida na cadeia como Genet, como devoradora de machos (o meu signo é escorpião, lembra-se)

Fui de trem para o vernissage. Frau Walter e Herr Bense me escreveram dizendo que, se eu quisesse montar a exposição, eu deveria chegar na véspera à tarde ou no dia 4 de manhã. Achei que não daria tempo para grandes arrumações e escrevi que confiava na Frau Walter para montá-la sozinha. Diz o ditado que a gente deve confiar desconfiando, o que eu fiz na minha burrice à la Lacerda, que você já conhece, não fiz.

Ah! Nunca mais! Pois ao chegar lá vi os Bichos quase todos dependurados pela sala por meio de fios de nylon, como os móbiles de Calder!… Estava exausta pois não havia dormido desde a véspera e havia viajado durante oito horas até lá. Evidentemente protestei imediatamente e, sob grandes protestos do Herr Bense e, posteriormente, da Frau Walter (que foi chamada pelo Bense para que me impedisse de retirar os Bichos pendurados), peguei uma tesoura e cortei todos os nylons do teto. Um Casulo que Bense não queria que ficasse na parede, eu o pendurei, e o grande Contra-relevo que era na diagonal (eles o haviam posto sob a forma de quadrado), eu o fiz pendurar certo. O argumento de Bense era: “Está tão bonito! deixe desta maneira!” (…)

Não é preciso dizer que foi criado um clima de guerra aberta. Fui delicada, disse palavras horríveis (longe do Herr e da Frau), mas com eles eu expliquei que isto desvirtuava totalmente o meu trabalho e que eu não podia de maneira nenhuma fazer concessão desta ordem. Pois bem, na hora da vernissage, eu quase desmaiada de fome, exaustão e nervosia, pedi a um brasileiro que me traduzisse o que Herr Bense estava dizendo –  começou ele dizendo que quando eu cheguei eu desarrumei todo o seu arranjo, que a respondabilidade do atual era só minha e que ele teve que respeitar a minha opinião de que a importância da minha exposição era da participação do expectador, etc., etc. Todo mundo morreu de rir e quando ele acabou de falar foi um sucesso total – todos sem exceção mexiam sem parar nos Bichos. Foi Lindo! Matemáticos, arquitetos, encantadíssimos com a exposição (que foi a mais merdífera feita por mim em toda a minha vida). Não me deram o salão grande, pois houve qualquer coisa entre o reitor e o Herr Bense, de modo que a exposição foi muito incompleta (perto da do MAM). Bases diminutas e os Bichos pareciam pousados num pé só como as aves fazem. Botei tudo no chão com raras exceções pois salvei ainda, improvisando, algumas bases. Não expuseram as fotos (caríssimas) das Arquiteturas fantásticas, nem os Abrigos, nem a Casa, tampouco o Caminhando – falta de espaço. Foi televisionada, muitos repórteres, críticos e intelectuais. Mais de dez pessoas me perguntando o preço – O lá lá!… Bense acha que venderei ao menos uns três trabalhos. Depois fomos comer juntos num restaurante. (…) Nesta hora os ânimos estavam ótimos, o Herr Bense, entusiasmado com o sucesso da exposição, Frau Walter, idem, e riam muito, quando admoestei o Bense, dizendo que na próxima vez que ele se propusesse a me atacar que o fizesse em francês, pois assim eu teria a chance de revidar à altura. No dia seguinte, a Frau me convidou para almoçar chez elle e o ambiente foi francamente ótimo. O Bense escreveu um artigo sobre Lygia Clark e Gertrude Stein – diz ele que vai me mandar – e vai escrever outro sobre a minha obra para uma ótima revista alemã. Pediu que eu expusesse (para o ano) na galeria de um amigo seu que é imprtantíssimo pois tem a melhor publicação de arte na Alemnha. Ficou radiante quando disse que, quando voltasse para o Brasil, deixaria com ele em Stuttgart uns seis Bichos emprestados. Dei-lhe um Casulo que ele escolheu e para a filha da Frau Walter uma maquete, pois eu gosto dessa Frau! O catálogo ficou bem bonito – vou mandar o do Mário e guardo um para você. (…) Vou terminar aqui pois a carta está enorme. Telefone Soninha (gosto pra burro dela), diga-lhe que já escrevi a ela sim, mas que a carta saiu tão triste e repelente que rasguei – vou amanha mesmo lhe escrever outra. Que ela não fique triste ou zangada, porque eu escrevi, isto eu juro!

Mil abraços para os nossos – (que incluem os seus).

Milhões de beijos

Lygia Clark

ps: Diga ao Eduardo que eu escrevi para ele duas cartas e ele não me respondeu ainda, […].
Diga a Ana que vou responder amanhã sua carta.
Adorei!

Texto retirado do livro “Lygia Clark . Hélio Oiticica: Cartas (1964-1974)”, organizado por Luciano Figueiredo e publicado pela editora UFRJ.

Nem tudo/todas são flores

“Foi no bojo das manifestações pela redução da jornada de trabalho que 129 tecelãs da Fábrica de Tecidos Cotton, em Nova Iorque, cruzaram os braços e paralisaram os trabalhos pelo direito a uma jornada de 10 horas, na primeira greve norte-americana conduzida unicamente por mulheres. Violentamente reprimidas pela polícia, as operárias, acuadas, refugiaram-se nas dependências da fábrica. No dia 8 de março de 1857, os patrões e a polícia trancaram as portas da fábrica e atearam fogo. Asfixiadas, dentro de um local em chamas, as tecelãs morreram carbonizadas.

Durante a II Conferência Internacional de Mulheres, realizada em 1910 na Dinamarca, a famosa ativista pelos direitos femininos, Clara Zetkin, propôs que o 8 de março fosse declarado como o Dia Internacional da Mulher, homenageando as tecelãs de Nova Iorque. Em 1911, mais de um milhão de mulheres se manifestaram na Europa. A partir daí, essa data começou a ser comemorada no mundo inteiro.”

Texto extraído de “8 de março, Dia Internacional da Mulher – Uma data e muitas histórias”, de Carmen Lucia Evangelho Lopes.. CEDIM-SP/Centro de Memória Sindical.

Esse texto nos conta que o 8 de março é uma data sobretudo política, uma data de valorização da luta em prol dos direitos e da valorização das mulheres. Há quem diga que o movimento feminista não precisa mais existir e que a igualdade de direitos já está garantida, porém basta uma olhadela aos jornais, um passeio na rua, ou uma conversa com vizinhas, amigas ou parentes para perceber que não é bem assim. O senado recentemente aprovou a cobrança de multa para empresas que pagam menos a mulheres que exercem a mesma função que homens. Isso quer dizer que a lei pode existir para tornar obrigatório o salário equitativo, mas o que ocorre na prática é outra coisa. Por isso é necessária uma punição para que a lei seja obedecida. Daí também a necessidade da lei Maria da Penha.  Os exemplos são inúmeros, mas o que queremos trazer é uma reflexão sobre a forma celebrativa-comercial com toques de romantismo que o Dia Internacional da Mulher parace tomar em diversos lugares. Que celebremos sim, mas sem deixar de lado as reflexões sobre as desigualdades que ainda enfrentamos, e os direitos pelos quais ainda podemos lutar.

2011

A exposição “Mulheres, Artistas e Brasileiras” ficou aberta para a visitação de data no Palácio do Planalto há exatamente um ano e aconteceu por um pedido pessoal da presidenta Dilma Rousseff para comemorar o Mês da Mulher. Ela mesma articulou a vinda da obra de arte mais comentada, o Abaporu (1928) de Tarsila do Amaral, que está sob os cuidados de um colecionador particular.

O tom escolhido pela curadoria da exposição, feita pela FAAP,  para pintar o ambiente foi o rosa bebê. A tipografia utilizada na identidade visual para escrever o “Mulheres” era daquelas que se assemelham a uma caligrafia dita “feminina”. Por essa palavra entenda: delicada, adornada e de inspiração rococó.

A identidade visual, que apelava para um conceito tradicional de feminilidade, relacionado com delicadeza, fragilidade etc., não fazia juz a obra das artistas, que sequer traziam elementos tai quais borboletas, adornos, delicados arabescos, bibelôs, flores, tons rosas… Djanira, Anita Malfati, Georgina de Albuquerque, Noêmia Mourão, Collete Pujol, Lygia Pape, Mira Schendel, Tomie Ohtake, Edith Behring e Renina Katz, cada uma com um trabalho tão distinto e pessoal, foram apresentadas com essas referencias teoricamente femininas, mas que não lhes diz respeito. Porque a persistencia desses elementos?

É bom que a exposição tenha ocorrido, e que venham várias outras, não só em comemorações do 8 de março, mas se a questão da feminilidade for um foco, então que este seja compreendido de forma mais ampla e menos estereotipada.

2012

Em Brasília nesse ano está ocorrendo de 5 a 11 de março a mostra “Mulheres Alucinadas”  http://www.sc.df.gov.br/index.php?option=com_content&view=article&id=414:mostra&catid=31:general&Itemid=46

Em uma olhadela detectei que a tônica era a de filmes que não eram feitos por mulheres diretoras (surpresa), mas que eram filmes em geral conhecidos de renomados diretores como Hitchcock e Almodóvar ou filmes notáveis por suas atrizes protagonistas como Jane Fonda, Elizabeth Taylor e Penélope Cruz. Dei-me então ao trabalho de checar aqueles filmes de que não conhecia xs diretorxs pra ter a certeza de que não havia absolutamente nenhum dirigido por uma mulher. E, de fato, não havia.

Temos mulheres no papel de protagonistas e as respectivas atrizes que as interpretam. As mulheres atuam, mas e a produção de filmes? As atrizes protagonizam representações de mulheres, e esse espaço está garantido há bastante tempo.  O espaço que se mostra a alcançar é outro, ainda tido como masculino: a cadeira de cineasta. Essas são as protagonistas que nos faltam. Melhor: essas são as protagonistas que nos faltam visibilizar, porque elas existem.

Por analogia, em Artes Visuais, seria o mesmo que uma exposicão sobre as mulheres em que as mesmas apenas fossem retratadas. Veem-se Barbarella, Vera Fischer doida demais, e outras tantas, essas mulheres alucinadas, descontroladas, não-lúcidas…com um possível toque de loucura histérica na destacada adjetivação e, consequentemente, na concepção da mostra.

Seriam detalhes sem importância esses que aponto? Acredito que não.

Ao analisar essas iniciativas culturais fiquei a me perguntar: que mulheres são essas que percebi nessas associações imagéticas e simbólicas? São as mulheres do 8 de março?

Tauana M. e Ana C.