Sophie Calle

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Sophie Calle, artista plástica nascida em Paris no ano de 1953, despediu-se, ainda nova, da terra natal para conhecer o mundo. Sua jornada de 7 anos, além de experiências, rendeu-lhe um vício pelo imprevisível e a perda da sensação de pertencimento à cidade de partida. Não sabendo mais como agir de maneira parisiense, comer de maneira parisiense, pensar de maneira parisiense, ela se pôs a seguir pessoas aleatórias na grande cidade fotografando e fazendo anotações que a ajudassem a reaprender o jeito de ser parisiense. Essa obsessão por se apropriar de trechos da vida dos outros para construir novas histórias, juntamente com um quê de voyer e jogos que incorporam pessoas desconhecidas e momentos imprevisíveis, constituem algumas das características mais marcantes de seu trabalho.

Na obra The Notebook, por exemplo, Calle procura o máximo de informações que consegue sobre um homem cuja caderneta de telefones ela encontrou na rua. Depois de aproximadamente um mês fazendo investigações sobre esse homem e publicando seu relatório no jornal Libération, a vítima mandou em resposta uma foto de Sophie calle nua, que ele diz ter conseguido pelos mesmos métodos que ela, e publicou no mesmo jornal.

Ainda nessa linha, a artista produziu a obra Suíte Venitienne, que começou quando ela foi apresentada a um homem em uma festa e, ao descobrir que ele viajaria em breve para Veneza, resolveu persegui-lo. Sempre fazendo registros e, apenas com a intenção de encontrá-lo e seguir seus passos sem que ele a visse, Calle cria um percurso labiríntico de contatos e informações e consegue, depois de 8 dias, localizá-lo. Ela então o segue, tira fotos dos mesmos pontos que ele tirou, anota os horários que entrou e que saiu do hotel, enfim, passa a viver em seus rastros. E é aí que entra o mais interessante: todos deixamos rastros que nos afirmam como seres vivos. Ter os seus rastros apagados por outro significa uma anulação de sua existência, assim como viver nos rastros do outro representa uma abdicação dos próprios rastros e, portanto, da própria identidade/existência. A artista cria, assim, uma dupla ausência onde, paradoxalmente, um se afirma na ausência do outro.

Em inúmeros outros trabalhos, Sophie Calle se utiliza do que “não está lá” para nos mostrar o que já esteve como quem prova a si e aos outros que a vida acontece e como parte dela acontece, mesmo que não faça diferença alguma. Naquela cama esteve alguém, naquele lugar, ás 15h37, havia um homem que coçou o nariz… São como pequenas investigações que aparentemente não levam a lugar algum, mas que, Segundo Baudrillard, permitem que ela, ao mesmo tempo, viva outras vidas e se desprenda da sua. Por isso, mesmo depois que as anotações e fotos tiradas são transformadas em um livro e expostas em galerias, não podemos desconsiderar o resto do processo. Daí a dificuldade que se tem em classificar sua arte dentro de uma linguagem específica, afinal, sua arte e sua vida se confundem a todo momento.

Tauana M.

Visite também:

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Francesca Woodman

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Nasceu em 1958, em Denver, Estados Unidos e faleceu em 1981.

Francesca Woodman produz suas imagens no contexto das lutas feministas norte-americanas e trabalhos artísticos realizados por mulheres como Judy Chicago e Hannah Wilke, que discutiam e questionavam as representações do corpo feminino e a condição da mulher na sociedade.

A auto-representação por meio do nu não necessariamente erotizado aliada às questões de intimidade e memória marcam a obra da artista. Francesca expõe seu corpo enquanto artista e sujeito do próprio trabalho, e contrariando a tradição da “mulher nua-objeto-erotizado sujeito do olhar masculino”.

Trabalhou principalmente com a fotografia em preto-e-branco de médio formato. Os inúmeros auto-retratos performativos marcam sua obra. A escolha de si como sujeito – na maior parte de seus trabalhos, já informa a escolha da fotografia enquanto movimento do íntimo – olhar não direcionado aos outros – distante de qualquer sensação de voyerismo na sua auto-representação. Captura-se o “eu” e não o “outro” pelo “meu” olhar, sem a distância habitual criada entre quem fotografa e quem é fotografado.

A artista não faz uso da nudez de seu corpo enquanto espetáculo no processo de auto-conhecimento pela auto-exposição. O corpo da mulher é mostrado enquanto corpo presente, sem a necessidade de imeditada vinculação à sexualidade e ao erotismo. A nudez aparecendo como apresentação crua do ser. A mulher nua e crua, sujeito de sua experiência estética. Dessa maneira, cria auto-retratos em termos psicológicos que não que objetivam o físico estritamente.

A obra de artista inevitavelmente remete às questões do tempo e da memória. Isso se dá pela escolha de cenários abandonados, casas, ruas e paredes marcadas pelo tempo. O movimento do ser mostrado enquanto efêmero, não-congelado. Sua imagem é difusa e evanescente, pela sua escolha em utilizar-se de tempos de exposição longos para a movimentação que desenvolve em frente à câmera.

Essa escolha por esse efeito ocasionado pelos tempos de exposição é importantíssima para se pensar a sua poética. Woodman cria fantasmas. Um fantasma é o ausente que se faz presente, o oculto, a lembrança, que se apresenta, no caso das fotografias de Francesca, numa particular materialidade quase transparente, ausência e presença sobrepostas.

A artista constrói cenas surrealistas em seu trabalho, em termos de realidade construída – real re(a)presentado de forma não-realista e não-convencional. Em muitas de suas fotografias o rosto aparece coberto, desfocado ou não-enquadrado.

Ana C.

Associação de Mulheres de Itamatiua

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A comunidade quilombola de Itamatatiua, localizada no município de Alcântara, no Maranhão,  é repleta de mulheres maravilhosas e fortíssimas que, sem exagero, são quem move a comunidade. Tive o privilégio de conhecer algumas dessas mulheres que receberam a mim e um grupo de amigos de braços abertos e nos ensinaram com suas falas, gestos, ações e sorrisos muito mais do que várias aulas e livros poderiam. Escrevo com saudades daquela comunidade e principalmente de suas mulheres – Dona Heloísa, Dona Maria de Lourdes, Dona Domingas, Alexandrina e aquelas cujos nomes não me lembro. – feministas no melhor e mais real sentido da palavra.

Nesta comunidade de mais de 300 anos formada inicialmente por pessoas tanto de origem  africana quanto indígena , existe, desde 1989, a  Associação de Mulheres de Itamatatiua, anteriormente chamada de Associação de Mães. Esse grupo, em que participam alguns homens, embora seja sempre liderado por mulheres,  se organiza para resolver questões da própria comunidade, para o trabalho na roça e a produção de peças em cerâmica.

Como é possível ver nas imagens, as peças de cerâmica se dividem em utilitárias – como potes, panelas, xícaras, etc. – e esculturas figurativas – como as peças de mulheres, sapos, cabeças, criaturas por elas inventadas etc.. A técnica que utilizam para as peças circulares de um modo geral, impressiona por não utilizarem nenhum tipo de torno. Em nossa breve estadia, podemos assistir a Dona Domingas fazendo algumas peças e é impressionante a habilidade e velocidade em que trabalha, sem ajuda de qualquer instrumento a não ser um graveto e um pouco de água.

As esculturas em barro retratam principalmente mulheres como elas mesmas em ações cotidianas, embora também ajam outras criaturas e formas em seu repertório. Cada uma tem um estilo próprio e suas peças geralmente são assinadas.

Portanto, da próxima vez que estiver viajando pelo Maranhão não deixe de dar uma passadinha em Itamatatiua e conhecer essas mulheres maravilhosas e sua produção!

Tauana M.

ANNA BELLA GEIGER – Fotografia além da fotografia

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Exposição da Brasileira que nasceu e trabalha no Rio de Janeiro com visitação até dia 4 de julho no Conjunto Cultural da Caixa de Caixa de Brasília.

Os trabalhos da artista, em sua maioria, giraram em torno de reflexões sobre os espaços geográfico, simbólico e político e suas representações. A fotografia, presente em todos os trabalhos da exposição, não se apresenta necessariamente como linguagem, mas mais como elemento, como suporte, como referência nesses trabalhos que apontam para além do que trazem as fotografias.

Trecho das notas de montagem do curador:

(…) a exposição pretende mapear uma produção inserida na poética múltipla da artista, em que o elemento fotográfico tem um alto grau de presença e se transforma em diferentes registros e suportes, numa função contaminante e translatícia. Ao mesmo tempo, essa freqüência imagética da fotografia provoca enfrentamentos diferentes com a natureza da imagem. Daí surge a diversidade de campos de trabalho, tais como fotogravuras, fotomontagens, fotografia objectual, digital, gráfica….

Adolfo Montejo Navas

IRINA IONESCO – Espelhos de Luz e Sombra

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A exposição de fotografias da artista parisiense está em exibição no Conjunto Cultural da Caixa de Brasília até dia 11 de julho de 2010.

A exposição irá, em seguida, para a Caixa Cultural de Salvador durante o período de 22 de julho até 22 de agosto de 2010.

Texto de apresentação da exposição:

As fontes de inspiração de Irina Ionesco são pinturas simbolistas, filmes hollywoodianos, tragédias gregas, poesia decadente, o kitsch sublimado e o sublime consagrado. Em sua obra, a fotografa cria paraísos artificiais, expõe a magia do falso luxo, fabrica jogos a partir de múltiplos espelhos imaginários.

Em templos de excesso de imagens, a obra desta fotógrafa francesa de origem romena, em itinerância pela primeira vez no Brasil, suspende o tempo e abre espaço para vivências e fantasias imemoriais.

Irina Ionesco nasceu em Paris em 1935. Perda do espelho: aos quatro anos de idade, é separada da mãe, de quem se distancia até os 16 anos. Adolescente, começa uma trajetória de mulher-espetáculo: encantadora de cobras em numero de coreografia que exige concentração e nervos de aço, dançarina acrobática, alvo vivo de um lançador de facas. Um grave acidente interrompe seus passos na dança. Começa, então, a desenhar e a treinar o olhar. Com a pintura aprende a enquadrar e a penetrar o espelho. No natal de 1964, ganha de um amigo uma máquina Nikon. Em 1970, faz sua primeira exposição individual como fotografa. “se eu desenhei era para reproduzir minha mãe. Se fotografo é para eternamente reencontrar esta mãe.”

As mulheres fotografadas por Irina são, ao mesmo tempo, disponíveis e impenetráveis. Elas podem ser voluptuosas, sensuais, mas não são objetos de consumo. Só podem ser contempladas, jamais devoradas.

“As mulheres que posam para mim podem ser de qualquer tipo. Elas estão ligadas por um denominador comum que surge do meu estilo e da minha maneira de olhá-las.  As mulheres que fotografo podem ser encontradas no teatro, mas raramente no cotidiano. Elas nada têm a ver com uma determinada forma de realidade banal.”

Véus, plumas, rendas e sedas, objetos ilusórios entrelaçam-se em uma oferenda para a contemplação. Os fragmentos dessa obra ora apresentados, mais do que recriação de um tempo passado, alimentam imaginários futuros por sua condição de reminiscências concretas de mundos, técnicas e sensibilidades ameaçadas de soterramento.

A obra de Irina Ionesco arremessa o espectador para a dimensão da cumplicidade, entorpece distanciamentos críticos. O gozo se dá atravez do olhar que percorre, aprecia, desfruta, fixa, atravessa, sente. Se as mulheres sempre foram para a artista a busca de um espelho, nesta mostra as imagens exibem novos personagens, expressões de uma fantasia em movimento.

Betch Cleinman

Sylvie Fleury

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Nasceu em 1961, em Genebra, Suíça, onde vive e trabalha.

Quando se fala de obra de arte, no contexto atual, falas-se de uma forma de mercadoria bastante abstrata, com seu valor financeiro determinado por fatores menos relacionados ao tempo e esforço empenhados em seu processo de confecção que ao nome do/a artista ou seus contatos sociais. Tendo tudo aquilo que é determinado como arte um status elevadíssimo para nossa sociedade em oposição às produções industriais para consumo em massa, é interessante perceber como, desde os ready-made (objetos prontos, industriais apresentados como obras de arte) de Duchamp, diversos artistas têm se ocupado em brincar com o cruzamento entre essas categorias. Sylvie Fleury é uma desses/as artistas plásticos/as contemporâneos/as que se ocupam dessas questões, e cujos trabalhos mais conhecidos incluem carros amassados pintados com cores de esmalte, sacolas de compras colocadas num canto da galeria , e textos em neon em paredes com mensagens como “Faster, Bigger, Better”, “Egoïste” ou “Yes to all”.

Em umas de suas obras, sem-título, 2000, em que Fleury pendura um vestido com estampa semelhante a um quadro da série “Composição” de Mondrian em uma galeria, ela afirma que um objeto feito em larga escala possa ser considerado arte, questionando a consagração da tela que originou a estampa além de transformá-la em algo conhecido como feminino. É como se, utilizando os clichês de feminino e masculino, a artista reclamasse um espaço em territórios onde homens são mais bem aceitos que mulheres, e um desses territórios, já sabemos, é a arte. O feminino vem associado, também, aquilo que tem menor valor comercial: um vestido é bem mais barato e fácil de ser adquirido do que uma tela do Mondrian. O feminino é mostrado como desvalorizado frente ao masculino, como baixa cultura, como algo menos intelectual, e não é esse o espaço ocupado pelas mulheres em nossa sociedade? A dificuldade aqui é que ao mesmo tempo em que uma obra põe em evidência algumas questões ela corre o risco de ser compreendida como uma afirmação, ou seja, a diferença entre crítica e reafirmação de uma realidade vai estar nos olhos de quem vê. Uma questão que acho complicada nesse no trabalho de Fleury, por exemplo, é o fato de tratar do masculino e do feminino, especialmente, com base naquilo que costuma ser consumido por cada um desses grupos. Algo como dizer “você é o que você compra”, o que acredito ser totalmente falso. Por outro lado, se esse fator for encarado como uma crítica à forma como estamos construindo nossas identidades, então se torna válido.

Tauana M.

Fontes:

FLEURY, Sylvie. Sylvie Fleury with Peter Halley. [2002]. Index Magazine. Entrevista concedida a Peter Halley, disponível em: http://www.indexmagazine.com/interviews/sylvie_fleury.shtml. Acesso em 3/12/2009.

GROSENICK, Uta (Org.). Mujeres Artistas de Los Siglos XX y XXI. Taschen.

Apresentação

As Guerrila Girls, grupo de artistas norte-americanas, em seu trabalho entitulado “Do women have to be naked to get into the U.S. museums?(As mulheres devem estar nuas para entrar nos museus dos Estados Unidos?), apontam  o fato de que menos de 3% de todos os trabalhos artísticos expostos no Metropolitan Museum são de mulheres, ao passo que 83% dos nus retratam corpos de mulheres. A realidade de outros museus, incluindo os brasileiros, não é muito diferente.

Em toda a história da arte a mulher foi representada enquanto objeto por artistas homens. Sendo apenas objeto, no domínio artístico e não artístico, não era sujeito da experiência estética. No decorrer do tempo esse espaço foi sendo conquistado, chegando à atualidade com um grande número de mulheres artistas, que apresentam suas leituras dos fatos e de si mesmas. Hoje, sabe-se que diversos nomes foram apagados da História por não se adequarem à moral daqueles que a escreveram, uma moral que não admite uma figura femina em posições de prestígio e que prefere se referir à grande parte das mulheres pela sua relação com homens, também artistas ou que sejam renomados de alguma forma, ao invés de pelo seu trabalho artístico – como é o caso de Camille Claudel, Maria Martins e tantas outras.

Por esses nomes esquecidos ou deixados em segundo plano, resolvemos dar visibilidade ao trabalho de mulheres artistas de áreas diversificadas, catalogando seus trabalhos de forma a também disponibilizar material para a utilização pedagógica em ambientes formais e informais.

Mais sobre nós: https://fissuraa.wordpress.com/sobrenos

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