Ani Ganzala: o afeto entre sapatonas pretas no muro e no papel – por Alexandra Martins

Ani Ganzala é filha de D. Lina e mãe de Lila. Nasceu em Salvador, é sapatão preta e candomblecista, também atua no grafite (assina como Kpitú) e utiliza a técnica de aquarela em suas pinturas que retratam o afeto e amor entre sapatonas pretas que tem como cenário de fundo as simbologias e signos de matrizes africanas. Ani é múltipla assim como suas obras e conversar com essa artista é sempre um aprendizado.  

Em 2015 foi quando nosso contato aconteceu, pois havia acabado de estabelecer moradia no bairro da Federação, em Salvador (Bahia). E rapidamente nos conhecemos naquela geografia e nos reconhecemos artística e politicamente. Essa intimidade criou um espaço de confiança no qual ela foi a primeira pessoa que me incentivou a mostrar meus trabalhos naquela cidade que havia acabado de chegar. Recordo ainda como a chegada nessa nova moradia dava certo medo e como as palavras de Ani sempre chegavam ao meu ouvido como um aviso pra eu chegar nesse chão devagarinho. 

Me conta um pouco sobre o início da sua carreira. Como começou e o que e/ou quem te estimulou nesse campo das artes? 

A minha careira começou quando eu tive um surto na Universidade, já no final do curso de História e simplesmente não conseguia mais dar conta da maternidade. Foi um momento que a Universidade não estava mais disponibilizando creche pra minha filha, porque ela havia completado quatro anos de idade. Então a minha carga horária ficou muito mais complicada e impossível porque eu teria que estudar só um turno, trabalhar e cuidar de minha filha e foi algo que se tornou insuportável. Então abandonei a Universidade e comecei a investir realmente na arte. Já fazia alguns grafites, estava iniciando pintura em aquarela e esse foi o momento que eu decidi ser tudo ou nada, já que eu havia desistido de uma carreira universitária onde possivelmente eu poderia ter chances de um concurso público como professora ou dar seguimento a uma carreira acadêmica. Então fui com tudo para a arte.  

Mas a gente nunca faz nada só e minha primeira ex-namorada foi quem me estimulou a ir pra rua e a colocar a arte na rua. Isso foi super libertador. E logo depois comecei a fazer pinturas em aquarela e ilustrações. As minhas amigas também me estimularam a mostrar meus trabalhos nas redes sociais e comecei a publicar, ter maior visibilidade pro meu trabalho e começar a vender. Vender em forma de postais, ímãs, blusas e isso começou a funcionar. Inclusive, agradeço muito a quem esteve nesse começo. Eu tive muitas amigas que já moravam na Federação que era um bairro universitário com pessoas de muitos lugares. Então, essas amigas sapatonas também eram artistas e a gente se entendia e se apoiava. Houve todo um movimento de apoio e valorização entre nós para que eu me sentisse mais segura para publicar minhas artes. 

Você pinta sobre o afeto e a intimidades de corpas pretas lésbicas. Como funciona seu processo criativo? O que te chama mais atenção na hora de produzir uma nova tela ou de ocupar um muro? 

Essa temática é o tema mais íntimo que tenho. Não somente sobre mim, mas também sobre minhas relações e sobre as minhas parceiras, que reflete o que eu recebo. É um transbordamento do que recebo em termos de afeto, de carinho, de companheirismo. E o que eu faço, apenas transformo em imagem. Eu coloco em imagem o que me toca e o que me atravessa. O afeto entre mulheres negras, entre sapatonas pretas é algo que realmente me toca profundamente. Nunca falta inspiração pra falar desse tema, pra falar sobre afetividade, companheiros e utopia. Nem sempre as relações são como eu pinto. Mas é parte de uma forma de utopia, de criação, de invenção, de fantasiar um desejo de algo que eu queira.

 

O cenário do grafite é muito dominado pelos homens. Quais os desafios que você mais sente para ocupar a cidade, em especial numa cidade como Salvador?

O maior desafio é o respeito e a visibilidade da minha existência enquanto grafiteira, porque há uma sabotagem muito grande em relação às grafiteiras negras e principalmente às sapatão. Somos invisibilizadas e estamos sujeitas a violência porque, se a rua já é um lugar que não é seguro pra gente caminhar, imagina pra quem está fazendo uma arte que ainda é considerada marginal? Estamos sujeitas a qualquer tipo de abordagem, de agressão e, principalmente, se faz uma arte com tema voltado para o amor entre mulheres, amor lésbico, amor sapatão.  

O campo das artes é muito centrado na produção de homens brancos cis europeus. Essas barreiras (machistas, racistas, capacitistas, LGBTQI+ fóbicas) tem mantido um apagamento histórico nas produções artísticas de quem não faz parte desse status quo. E aí quando olho para suas artes, vejo como sua abordagem artística caminha para outro lado, porque ela vai falar daquilo que desejam que continue sendo silenciado: que é a vivência amorosa, o pacto de vida de corpas negras, lésbicas, periféricas, decoloniais, dissidentes, da fé do povo de axé. Você acredita que a repercussão da sua arte pode mudar ou sensibilizar essa estrutura tão fechada? Ainda é possível essa mudança? 

Inclusive, aqui em Salvador, onde mesmo a arte que representa a população negra, ou mesmo povo de axé, ainda é dominado e visibilizado por homens brancos como Caribé, Caymmi, Caetano Veloso e demais artistas que tem muito renome. Nisso, a gente não vê abertura para artistas negros estarem falando da sua vivência, do seu povo e sua cultura. Eu acredito muito nessa ideia de aquilombamento. A minha arte sozinha pode não fazer diferença, mas quando artistas negros estão cada dia mais empenhados em mostrar seu trabalho e abordar temas de sua própria cultura – ou como você mesmo disse invisibilizados – acredito que possa haver sim uma mudança. Inclusive, a arte brasileira é Arte Negra, né? Eu acho que a cada dia que passa mais artistas negras estão brotando e estão realmente dando nome e trazendo temáticas diversas sobre como é sentir-se negra. E eu fico muito feliz por hoje poder trazer na memória muitas referências negras das artes e de certa forma estamos refazendo essa história, recontando essa história, e de trazer a memória de muitas artistas que foram apagadas. Muitas que ainda nem conhecemos e estamos conhecendo agora porque sofreram todo esse apagamento do racismo brasileiro. 

Se não for muito incômodo, gostaria que você comentasse sobre uma obra que me toca muito desde a primeira vez que vi. É uma aquarela que me traz um misto de sentimentos toda vez que a vejo, porque tem Iemanjá recebendo flores e ao fundo (embaixo dela) tem um cemitério de crânios no mar. Eu acho uma arte muito potente e queria que você recordasse do momento que ela veio até você: dos sentimentos, da história da produção dessa imagem até o processo de criação e aparição na sua tela. 

Essa obra veio através de uma cacofonia de sentimentos e coisas que eu estava elaborando. Explicitamente é sobre Dois de Fevereiro que é um momento em que toda a cidade e turistas descem a praia do Rio Vermelho para oferendar flores a Iemanjá. E ao mesmo tempo, tem referência a uma fala da Vilma Reis que, talvez eu não saiba reproduzir corretamente, me tocou muito e me fez pensar sobre o Atlântico Negro e a travessia. Ela falou algo como: “Entre nós e a África o que nos aproxima é um grande cemitério”. Então fiquei pensando em todos os ancestrais que não conseguiram atravessar e que findaram no mar e que eu acredito que Iemanjá os acolheu e cuida deles. E sinto que todas essas flores são para eles também. E ela, como intermediadora desses processos, de receber essas oferendas e manter essa memória dos que não chegaram, dos que morreram no caminho, de todo genocídio. Então é uma memória histórica de toda luta, de todo sofrimento e de toda forma de aniquilação das pessoas negras desde essa travessia até os dias atuais. E também da força dos encantados, da força das águas em estar transformando, trazendo cura e renovando toda essa energia porque a água ela é isso: ela acolhe e ela alimenta. 

Já tem alguns anos que você tem participado de algumas residências artísticas e exposições fora do Brasil. Seus trabalhos já passaram por Cuba, Chile, Áustria, Estados Unidos, República Dominicana, França, Alemanha e Colômbia. Como foi a recepção nesses locais e em que muros do mundo você gostaria de ocupar após essa pandemia? O que você tem pensado e planejado para o futuro? 

Viajar para outros países tem sido a maior das minhas realizações porque eu nunca pensei que isso fosse possível. E tem sido muito interessante chegar com minha arte em outros lugares e perceber o olhar do outro, porque a minha arte é muito local e tem um olhar muito específico que em muitos lugares não faz sentindo e precisa de uma legenda para ser compreendida. Por exemplo, na Europa era um processo muito grande em relação a nudez do corpo e por mais que, para eles o corpo branco seja uma coisa aceitável, ver o corpo de mulheres negras e pessoas LGBTQI nuas causava um assombro. Acredito que isso aconteça porque não é o corpo que as pessoas querem ver nuas. Então era sempre necessário ter que justificar e fazer toda uma explicação do meu trabalho e do porquê da nudez. E mesmo para as pessoas afro-europeias que entendiam como uma sexualização do corpo negro e era sempre um processo de novamente estar explicando meu trabalho. O que eu não preciso fazer aqui, porque mesmo que tenhamos muito tabu com o corpo, a recepção do corpo nu é muito diferente pois a gente se vê nesse corpo, tem uma identificação com esse corpo e porque a gente quer que seja visto na arte de uma forma não pejorativa. Então, cada lugar é sempre um desafio diferente em relação a burocracia, em relação à própria estrutura.  

Mas o mais importante acabava não sendo estar expondo ou fazendo oficinas, mas poder conhecer pessoas diferentes e isso muda a forma como a gente vê o mundo, vê as pessoas, amplia nossa mentalidade. E a gente aprende muito, aprendi a lidar com muitos preconceitos, com muita ignorância. O que mais valia a pena foi estar conhecendo narrativas que não chegam até aqui, outras artistas que estão no mundo e fazendo várias coisas legais. Poder trocar, cocriar e pensar juntas. Perceber como estamos pensando algo aqui que está no mesmo fluxo de pensamento de uma pessoa que está na África do Sul. E a gente fica: caralho, como a gente está aqui pensando em algo e tem uma pessoa da África do Sul que está na mesma linha de pensamento!?  

A gente entende que está em uma grande rede energética onde estamos elaborando um futuro, elaborando formas de sobreviver a todo esse caos e nos reinventar. Reinventar para além dessa humanidade branca, buscando outro lugar que ainda não existe e a gente está inventando, tá criando, tá reciclando do que restou de memórias de histórias dos nossos ancestrais. E falando em ancestrais, eu acho que é um assunto global para as pessoas negras, racializadas, indígenas de dar a importância de resgatar essas recordações, esses saberes. Se dando conta que tudo o que os brancos criaram até agora é o que está nos destruindo. Então a gente precisa realmente buscar isso e ir lá no fundo para seguir uma outra história e outro mundo possível .

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Para mais informações sobre Ani Ganzala e seus trabalhos visite @ganzalarts

Alexandra Martins, 36 anos, lésbica. Nasceu em Brasília e já morou em Fortaleza, Juazeiro do Norte e Salvador. Artista interdisciplinar. Tem investigado memórias e identidades nas criações artística de performance, instalação, fotografia e vídeo. É mestra em Estudos de Gênero e Mulheres pela UFBA. Especialista em Estudos Contemporâneos em Dança pela mesma instituição. Especialista em Artes Visuais pelo SENAC-DF.Graduada em Comunicação, Jornalismo. De 2010 a 2012 integrou o grupo de pesquisa em performance Corpos Informáticos e fez parte da coletiva Tete a Teta. De 2015 a 2018 fez parte da Feminaria Musical, Grupo de Pesquisa em Experimentos Sonoros. 

Rita Almeida

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Rita Almeida nasceu em Brasília no dia 21 de maio de 1986, cursou artes plásticas (graduação e mestrado) na UnB e me contou que, atualmente, encontra-se em trânsito: “devo ir morar lá pras bandas do Amazonas”.

Suas composições são majoritariamente colagens que englobam diferentes materiais, mas há também alguns desenhos, impressões e escritos. Nelas, usa a precariedade a seu favor: a textura do papel levemente amassado, a fita adesiva que cola uma fotografia ou um pedaço de papel vegetal, rasuras em lápis ou caneta bic.

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Junto com a precariedade, a delicadeza de trabalhos que se mostram como relatos de algum momento, como a memória de um momento congelada pela materialidade da composição. O trabalho precário, assim, torna-se precioso: como a lembrança de um dia inesquecível, de um insight que anotamos num papel, perdemos e depois reencontramos.

Em Diários (data) um curto texto cheio de observações sobre o mar e a relação do mar com seu universo pessoal, com a forma de se ver, é acompanhado por uma série de fotografias simples, coloridas e em preto e branco, apresentam imagens do que foi escrito quase como uma forma de confirmar visualmente a nuvem de reflexões feitas no texto e também de compartilhar sua experiência e sua memória.

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Postais para C. é uma série de colagens e uma pequena carta, como num postal, que nos introduz às imagens – registros de uma viagem – destinada a alguém que não estava viajando junto com ela. As colagens mesclam fotografias que, contrariamente à lógica dos postais, não evidenciam qual o lugar onde estão sendo tiradas a escritos mais datilografados, desenhos e manchas coloridas, vezes feitas com tinta bem aguada, outras com giz. Apresentam, mais uma vez, uma lógica própria da lembrança: um esboço de carta, de postal, que junto à precariedade da forma como são dispostos os materiais – talvez pela urgência – trazem consigo uma sutileza própria da intimidade partilhada.

 

Para conhecer mais do seu trabalho, acessar:  http://cargocolletive.com/ritaalmeida/Rita-Almeida

 

Nina Ferreira

Dendê: partilha pedagógica e poética diaspórica em processo

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Queridas,

deixo aqui o link para acessar e fazer download da minha monografia em Artes Visuais. O trabalho é sobre minha pesquisa poética, que se dá a partir da relação entre corpo negro e memória diaspórica, e as possibilidades pedagógicas que ela traz. São abordadas questões como memória, candomblé, cartografia como metodologia e estratégias de artistas negrxs na recontação de nossas histórias.

Nina Ferreira.

Pílula: Rosa Luz

Em homenagem ao dia da visibilidade trans – 29 de janeiro – trazemos o trabalho da artista multimídia do Distrito Federal Rosa Luz com uma canção/poema e uma performance. Os vídeos estão disponíveis também em seu canal de youtube, o Barraco da Rosa, onde além de publicar trabalhos artísticos e discutir temas diversos ela fala sobre sua vivência de mulher negra, trans e da periferia.

 

 

 

Conheça mais em:
https://www.facebook.com/rosaluzoficial
https://www.youtube.com/channel/UCCX7dUMgO8_ORxWQ4PU4ISA
https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/rosa-luz-mulher-negra-trans-periferica-e-dona-de-si/

Alice Lara

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Alice Lara vive em uma chácara em Vicente Pires – DF, onde cresceu em meio a animais que contrastam com o espaço urbano. Além de pintora, Alice Lara é arte/educadora da rede pública de ensino formada em Licenciatura e Bacharelado em Artes Plásticas pela Universidade de Brasília. Sua pesquisa poética em pintura é altamente influenciada pelo ambiente em que cresceu e por referências da pintura e do cinema.

O filme Amores Brutos, de Alejandro Gonzáles Iñárritu, por exemplo, foi o gatilho para sua série Amores Perros em que a artista retrata cenas de cachorros em rinhas. A ela interessa a proposta do diretor mexicano em demonstrar nesses momentos de violência canina aspectos humanos geralmente disfarçados ou escondidos. Rachel Vallego, curadora da exposição, diz sobre a obra de Alice Lara:

“Mesmo proibidas, rinhas de cães são bastante populares por todo o mundo. Usadas pela artista como referências fotográficas, estes espetáculos de truculência criados pelo homem no qual cães competem ferozmente pela vida, transcendem de animais de estimação para personificar obscuros desejos de seus apostadores, instauram na pintura uma agressividade em expansão. As telas expõem algo da crueldade humana capaz de promover atos de brutalidade gratuita, enquanto os cachorros, reféns de olhos ausentes, manifestam que a barbárie talvez não seja intrínseca a sua natureza, mas à nossa.”alice

Portanto, mesmo sem necessariamente nos vermos representados enquanto espécie, nos deparamos com elementos que nos são bem conhecidos: a violência, o medo, o isolamento…  São imagens empáticas, que servem de ponte para uma aproximação emotiva com os animais como um todo, mas, principalmente, com aqueles que vivem em espaços urbanos, que habitam o território modificado e, de certa forma, ditado por nós. Esse encontro animal/humano e natureza/cultura que nos desafia enquanto seres viventes, participantes do planeta, ao mesmo tempo parte da natureza e produtores de cultura, capazes de compaixão e violência, criação e destruição, parece subjazer à obra de Alice. Suas pinturas de cores fortes e composições surpreendentes, afinal, nos mostram como serzinhos complicados que tem muito a aprender com as outras espécies com quem compartilhamos a vida nesse planeta.

Tauana M.

Para conhecer mais sobre o trabalho dessa artista viste:

http://alicelara.com.br

http://arteseanp.blogspot.com.br/2014/08/conversando-sobre-arte-entrevistada.html

http://www.correiobraziliense.com.br/app/noticia/diversao-e-arte/2012/11/05/interna_diversao_arte,331928/alice-lara-e-miriam-araujo-destacam-se-ao-aprofundar-processos-criativos.shtml

Videoperformance


Letícia Parente
“Marca registrada”1975, 9min.
Câmera: Jom Tob Azulay

O vídeo é uma linguagem desde o início impura, híbrida, que opera  diversas vezes em cruzamentos com outras linguagens (MELLO, 2008). Uma dessa enorme gama de possibilidades foi chamada videoperformance, linguagem que o Dicionário de Novas Mídias define da seguinte forma: “Performance em que o artista incorpora uma filmadora ou equipamento de vídeo, e em que é dada à tecnologia uma posição tão proeminente quanto o corpo humano, como um complemento dele” (POISSANT, 2001 p.43-44).

Para Christine Mello (2008), a relação que se cria entre o/a performer e a câmera gera um terceiro corpo, meio máquina meio gente, de cuja síntese se tem a videoperformance. A partir daí pode-se pensar em uma possível diferença entre a videoperformance e o registro de performance, já que a primeira cria uma relação íntima do vídeo com o/a performer e a segunda pode ser feita mesmo sem seu conhecimento.

O registro seria, então, um mediador, um veículo para que se tenha acesso à ação, mesmo que de forma limitada, sem a amplitude toda do espaço, sem os cheiros, sem as energias presentes. A performance, nesse caso, seria o que aconteceu na frente da câmera.

A única vida da performance é no presente. A performance não pode ser salva, gravada, documentada, ou participar de outra forma na circulação de representações de representações: uma vez que o faz, ela se torna algo que não uma performance (PHELAN, 1993 p. 146) 

De acordo com a definição de Louise Poussant, os casos de performances em telepresença poderiam ser classificadas como videoperformances, mas, se forem pensadas enquanto performances, servem para bagunçar um pouco a posição de Peggy Phelan.

Passagens nº 1 – Anna Bella Geiger.
Brasil, 1974, 10min.

De forma geral, no entanto,  parece que os registros são uma forma de se ter contato com aquele trabalho por vias indiretas. De forma distinta, a videoperformance é pensada em relação ao vídeo, sendo este tão importante quanto a presença do corpo em si. O produto final, neste caso, não pode ser separado do vídeo, não existe sem ele.

A relação entre vídeo e performance vem de longa data, tendo sido muitas vezes o único mediador entre o trabalho e o público. Por todo o mundo houve diversas performances feitas em ateliês ou outros espaços reservados, com presença de poucas ou nenhuma pessoa (MELIN, 2008). No Brasil, essa prática foi bastante intensa a partir da década de 70, uma vez que o país se encontrava sob uma ditadura militar que reprimia severamente manifestações artísticas e de outras ordens. O vídeo foi, dessa forma, uma saída para que performers brasileiros continuassem produzindo seu trabalho. A prática do vídeo costumava, nesse primeiro momento, mostrar as ações de forma ininterrupta, permitindo um acesso mais próximo ao que seria a observação da performance em si. Com o passar do tempo, acabada a ditadura, as edições ficaram cada vez mais fragmentadas e dinâmicas, e as características da linguagem do vídeo foram cada vez mais exploradas (MELLO, 2008).

Tauana M.

(Texto retirado da monografia de graduação em bacharelado em artes plásticas)

Referências:
MELIM, Regina. Performance na artes visuais. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.
MELLO, Christiane. Extremidades do Vídeo. São Paulo: SENAC, 2008.
PHELAN, Peggy. The unmarked: the politics of performance. Londres: Routledge, 1993.
POISSANT, Louise. New Media Dictionary: Part II: Video. In Leonardo, v. 34 n. 1, fev. 2001. p. 41-44. Disponível em: http://muse.jhu.edu/journals/leonardo/v034/34.1dictionary.html

Para saber mais sobre o trabalho de Letícia Parente visite http://www.leticiaparente.net/

Vídeo de Passagens no. 1 de Anna Bella Geiger: http://www.youtube.com/watch?v=QfOU3UBImpg

Pílula: Lúcia Koch

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Lúcia Koch é uma artista  que tem trabalhado com fotografia de fundos de caixas feitas de tal forma que ganham um aspecto arquitetônico.
A artista natural de Porto Alegre que vive e trabalha em São Paulo. É mestra em artes visuais pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutora em poéticas visuais pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo.

 

Site da artista: http://www.luciakoch.com/

Rosana Paulino

Rosana Paulino é artista plástica e educadora brasileira, investigando em sua obra questões ligadas a gênero e raça, especialmente com o tema da mulher negra no Brasil.  A artista costuma utilizar técnicas e objetos tradicionalmente ligados ao universo feminino das artes aplicadas, vistas como domésticas e, portanto, femininas, tais como costura e o bordado.

Rosana comenta a respeito de seu trabalho:

“[…]Olhar no espelho e me localizar em um mundo que muitas vezes se mostra preconceituoso e hostil é um desafio diário. Aceitar as regras impostas por um padrão de beleza ou de comportamento que traz muito preconceito, velado ou não, ou discutir esses padrões, eis a questão.
Dentro desse pensar, faz parte do meu fazer artístico apropriar-me de objetos do cotidiano ou elementos pouco valorizados para produzir meus trabalhos. Objetos banais, sem importância. utilizar-me de objetos do domínio quase exclusivo das mulheres. Utilizar-me de tecidos e linhas. Linhas que modificam o sentido, costurando novos significados, transformando um objeto banal, ridículo, alterando-o, tornando-o um elemento de violência, de repressão. O fio que torce, puxa, modifica o formato do rosto, produzindo bocas que não gritam, dando nós na garganta. Olhos costurados, fechados para o mundo e, principalmente, para sua condição de mundo. […] Gritar, mesmo que por outras bocas estampadas no tecido ou outros nomes na parede. Ele tem sido meu fazer, meu desafio, minha busca.”

Série "Bastidores" (1997)A artista, com seus trabalhos em pequena escala, tece uma política de dimensão íntima.

Na obra “Bastidores”(1997),  a violência simbólica aparece nas linhas que costuram as bocas e gargantas. Os bastidores, essa espécie de armação de madeira circular em que se prega o que se quer bordar, forma a moldura de uma condição: figuras de mulheres negras estampadas,  sem voz.  Esse ofício ligado a um corpo feminino silenciado, lugar de opressão.

Na obra “Sem título (da série As três Graças)” de 1998, o cabelo crespo é colocado lado a lado com um feixe de cabelo loiro e liso, confrontando uma  mentalidade colonialista e embranquecedora corrente no Brasil.

Série "As Três Graças"

A artista tece essas tramas simbólicas em seus bordados e costuras evidenciando enredamento do corpo da mulher negra em estereótipos perversos e coerções estéticas em que memórias pessoais esboçam um cenário político de opressão no país. E é no cotidiano e em seus objetos habituais que a artista trata a partir da sua própria condição, da violência histórica que assola a população negra.

Ana C.

 + inf.:

http://rosanapaulino.blogspot.com.br/

http://www.galeriavirgilio.com.br/artistas/rpaulino.html