Tirem as mulheres artistas dos depósitos

O texto abaixo é tradução da reportagem “Bring female artists out of storage” de Amanda Vickery para a versão online do jornal inglês The Guardian. O Texto faz referência a uma pesquisa feita para um programa da bbc sobre mulheres artistas na história da arte  apresentado pela autora. O link para o texto original se encontra ao final do texto. Aproveite!

Artemisia Gentileschi's Susanna and the Elders (1610)
Detalhe de Susanna e os Velhos (1610) de Artemísia Gentileschi

 

Tirem as mulheres artistas dos depósitos

Por que há tão poucas pinturas de mulheres artistas em galerias públicas? Amanda Vickery vai a uma chocante caça para desenterrar mais obras-primas.

Sexta, 16 de maio de 2014.

Revelar a história de mulheres artistas na televisão pode soar como um projeto fácil, um agradável exercício em turismo patrimonial. Já não fomos para além de um respeitável agrupamento de heroínas esquecidas, escondidas da história? Afinal de contas, a história da arte feminista tem investigado o olhar feminino desde que Linda Nochlin perguntou “Por que não há grandes artistas mulheres?” em 1971. Pesquisas e livros magistrais vieram, desde The Obstacle Race (1979) de Germaine Greer, até Old Mistresses (1991) de Griselda Pollock e Rozita Parker, possibilitando as graduações em história da arte a oferecerem cursos sobre gênero e “formas de olhar” nos últimos 20 anos aproximadamente. Engajar a TV no objeto deste debate seria fácil. Eu presumi alegremente, até que embarquei na simples mas fundamental tarefa de ver, por conta própria, arte produzida por mulheres.

A arte é masculina? A maioria das instituições nos faria pensar que sim. As disparidades são alarmantes. Em 1989 as feministas Guerrilla Girls descobriram que menos de 5% do acervo do Metropolitan Museum de Nova Iorque era de mulheres, mas 85% dos nus eram femininos. Normalmente é possivel ver trabalhos de uma ou duas mulheres em um museu inteiro, mas você pode passar horas procurando. Eu fiquei aliviada de encontrar o pequeno mas enfeitiçante Proposição (1631), de Judith Leyster e o definifor de gênero Natureza Morta com Queijo, Amêndoas e Pretzels (1621), de Clara Peters, no Hague’s Gemeentemuseum [Museu Municipal de Haia].

Até mesmo a obra prima de Artemísia Gentileschi Judith Decapitando Holofernes (1620) só foi exibido no Museu Uffizi a partir de 2000. Uma duquesa Médici baniu a cena de assassinato de Gentileschi para um corredor escuro por considerar o “sangrento trabalho” demasiado sinistro para exibição.

Semanas de negociação e um contato italiano me levaram ao corredor Vasari para filmar. Essa passarela quilométrica serpenteia do Palazzo Vecchio até o Pitti Palace, atravessando o rio Arno pela Ponte Vecchio. Construído em 1564, ela permitiu aos Medici transitar entre seu palácio e os escritórios governamentais sem serem importunados. A passarela é ladeada por autorretratos de artistas, um panteão da história da arte do século XVI em diante. Mas dos 1.700 autorretratos apenas 7% são de mulheres.

Still Life with Cheeses, Artichoke, and Cherries by Clara Peeters.
Natureza Morta com Queijo, Alcachofra e Cerejas de Clara Peeters

As mulheres não pintavam, esculpiam ou produziam artesanato? Ou o esforço feminino era de tão pouca qualidade que elas não conquistaram um espaço na parede? A ausência de um celebrado panteão feminino contrasta enormemente com o sucesso das mulheres na literatura. Porém, os requerimentos de autoria eram bem mais fáceis de completar que as demandas da arte. Escrever requeria apenas letramento, acesso a uma biblioteca e uma mesa. Mesmo a arriscada exposição de uma publicação poderia ser compensada pelo anonimato. Por contraste, a arte demandava um complexo treinamento, produção pública e estava enredada em uma bem-guardada infra-estrutura. Preconceitos sociais inflexíveis, proibições de acesso ao treinamento formal e restrições legais ao comércio feminino prejudicavam as mulheres artistas.

 

Eu estava preparada para a caça, mas mesmo assim a quase invisibilidade das mulheres na arte foi chocante: fui forçada a ir para espaços de armazenamento e porões. A Advancing Women Artists Foundation [Fundação de Promoção de Mulheres Artistas] estima que 1.500 trabalhos de mulheres artistas estão atualmente armazenados em variados depósitos de Florença, a maioria dos quais não foi visto pelo público em séculos. Para a questão “São todos esses trabalhos de alto padrão artístico?” Jane Fortune, diretora da fundação responde: “Nunca saberemos a menos que eles sejam vistos”.

Galerias públicas parecem tacitamente endossar a visão conservadora, exemplificada pela afirmação de Brian Sewell de que “apenas homens são capazes de grandeza estética”. Mas pintores e escultores eram artesãos trabalhando dentro de oficinas familiares, como os alfaiates, serralheiros, ourives e marceneiros. Arte era um ofício. Poucas pinturas eram produto de uma única mão – apenas o rosto e as mãos podem ser o trabalho de um “mestre”. A marca do artista masculino era uma ficção. Marietta Tintoretto trabalhou ao lado de seu pai em Veneza, Barbara Longhi ao lado de seu irmão em Ravenna, sendo seu trabalho um vital componente da economia familiar, porém não reconhecido fora da oficina.

Uma crença profunda na impossibilidade do gênio feminino está em ação. Muitas das telas

Judith Leyster's The Proposition
A Proposta de Judith Leyster

ensolaradas de Leyster que celebravam a vida social da época de ouro holandesa eram tão habilidosas que foram atribuídas a Frans Hals, apesar de sua assinatura.
A Bolonhesa Elisabetta Sirani produziu mais de 200 peças em uma carreira de 13 anos, conquistando prestígio internacional por sua polida arte religiosa. Ela dirigiu a oficina familiar que incluia suas irmãs, sustentou seu pai quando ele já não podia pintar e fundou uma escola de arte para meninas. O próprio desempenho, rapidez e fluência de sua arte, entretanto, a puseram frente à acusação de que ela não a poderia ter criado – um homem devia tê-la ajudado – uma acusação que Sirani combateu fazendo demonstrações ao vivo de sua pintura.

Gentileschi poderia se igualar aos homens da arte de contra-reforma, mas optou por dramatizar as lutas das mulheres. Ela retratou as mesmas heroínas, até mesmo repetindo as cenas de seu pai Orazio, mas ela carregou as suas com uma crítica pungente à posse masculina de mulheres. A violência do voyeurismo é palpável em Susana e os Anciãos (1610), quando a mulher encolhida é vítima do olhar lascivo de dois velhos. Eles vão acusá-la do crime capital de adultério, a menos que ela concorde em dormir com eles. Seu forte corpo torcido é exibido, mas seu horror é superior, e seus braços são levantados em resistência. “O que VOCÊ está olhando?” A pintura nos diz. Compare isso com a versão excitante de Tintoretto em que Susanna parece saber que está sendo vigiada e exibe sua nudez branca em uma constrangida e suave performance. O episódio se torna um pretexto para o erotismo, e, como a mulher é cúmplice em sua própria subjugação, a sujeira da opressão sexual é acobertada. Gentileschi não terá nada disso.

Não é meu propósito sugerir que ainda temos que descobrir uma mulher Michelangelo, mas é enganoso olhar para o passado apenas através dos olhos de homens. O que as mulheres viram foi diferente. Vamos nos lembrar disso.

 

Reportagem original em:

https://www.theguardian.com/artanddesign/2014/may/16/bring-women-artists-out-of-storage

Tradução Tauana M.

Artemísia Gentileschi

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Nasceu em 1593 em Roma, Itália, e faleceu por volta de 1652 em Nápoles, Itália.

Artemísia Gentileshi é uma pintora que se destaca em alguns aspectos, sendo um deles o fato de, na Europa do século XVII, conseguir viver financeiramente independente e através de um ofício muito raramente realizado por mulheres. Além disso, suas pinturas retratavam cenas mitológicas ou bíblicas e eram, no geral, bastante violentas, o que não era considerado muito apropriado para uma mulher. Ainda assim, ela impressionou vários colegas da categoria (muito embora houvessem aqueles que rejeitassem seu trabalho simplesmente por pensarem que mulheres não devessem se dedicar a essa tarefa) e nobres que encomendavam seu trabalho com freqüência. Ela viajou bastante tendo morado por períodos de tempo em Roma, Florença, Veneza, Nápoles e Londres, onde trabalhou na corte do rei Carlos I.

Um fato bastante comentado e documentado de sua história é o estupro que sofreu aos 17 anos de idade por seu professor de perspectiva, Agostino Tassi, que, a propósito, foi acusado de encomendar o assassinato de sua esposa. Ele trabalhava junto de seu pai Orazio Gentileschi, também pintor e com quem Artemísia aprendeu a pintar. A maior parte das artistas mulheres de períodos anteriores ao modernismo ou eram filhas de pintores, como Artemísia, ou tiveram uma carreira como modelo vivo e daí conseguiram entrar nos ateliês e aprender o que queriam.

O pai de Artemísia, Orazio, levou o caso do estupro para julgamento e no processo o tribunal da inquisição torturou a artista para descobrir se ela não era uma prostituta, o que, para esse tribunal, significaria que o ocorrido era culpa dela ao invés do agressor (qualquer semelhança com a mentalidade atual a respeito de violência sexual contra mulheres não é mera coincidência). A tortura feriu seus dedos, mas ela continuou pintando. Apesar de considerada inocente, a reputação de Artemísia ficou marcada para sempre como uma mulher fácil. O agressor foi condenado, mas absolvido depois de 18 meses preso. Logo em seguida ao julgamento a artista se casou com Pietro Antonio di Vicenzo Stiattesi com quem mais tarde teve uma filha chamada Palmira.

As pinturas de Artemísia têm forte influência de Caravaggio, de quem o pai foi seguidor em termos de estilo, e possuem como traço marcante a ênfase nos dilemas psicológicos vividos pelos personagens representados. Os nus femininos, bastante presentes em sua obra, foram uma estratégia interessante utilizada pela artista, que, por ser mulher, tinha a possibilidade de trabalhar com modelos nuas e estudar melhor a anatomia feminina, representando-a de forma mais realista.

Outras mulheres pintavam no mesmo período, mas não como Artemísia Gentileschi. Elas normalmente pintavam flores ou crianças, temas considerados apropriados para mulheres, e não entravam numa academia de arte (em 1616 Artemísia foi a primeira mulher a ser admitida na Academia del Disegno de Florença) ou recebiam encomendas de nobres por seus trabalhos. Já ela, tão guerreira como suas protagonistas, abriu caminho para que outras pudessem também trabalhar com temas diversos e pudessem exercer a pintura como profissão. Felizmente, após um grande período no esquecimento (muitas de suas pinturas, inclusive, tinham sido atribuídas ao pai), seu trabalho chegou ao nosso conhecimento.

Tauana M.

Fonte:
Harris, Ann Southerland; Nochlin, Linda. Women Artists 1550 – 1950

Links (todos em postuguês):
http://pt.wikipedia.org/wiki/Artemisia_Gentileschi

http://sededeque.com.br/2010/09/782/
http://www.etudogentemorta.com/2010/04/artemisia-gentileschi/

http://veja.abril.com.br/noticia/celebridades/a-mulher-que-transcendeu-o-seculo-xvii-atraves-da-arte

Postagem do Viva la Vulva que comenta um de seus trabalhos e sua história:
https://fissuraa.wordpress.com/2011/06/18/violencia-sexual/

Violência sexual

Artemísia Gentileschi (1653-1653), pintora barroca italiana, foi estuprada aos 18 anos de idade por seu professor de perpectiva Agostino Tassi. O pai de Artemísia, o também pintor Orazio Gentileschi levou o caso pra julgamento e adivinha o que aconteceu durante o comentadíssimo julgamento? Ela (isso mesmo, ELA) foi torturada durante interrogatório e acusada ser uma prostituta (ou seja, se ela trabalhasse como prostituta o estrupro não contava como agressão…). O agressor foi acusado, mas depois absolvido. Mesmo depois de acabado todo esse processo, as pessoas que sabiam do julgamento trataram de infernizar a vida de Artemísia por muito tempo, considerando-a puta.

Essa história é bem antiga e de outro lugar e, no entanto, a semelhança com o que acontece hoje é perturbadora. Mulheres são acusadas o tempo todo de terem de certa forma “provocado” a agressão sexual que sofreram e pelos órgãos e instituições que deveriam protegê-las. Não é por qualquer coisa que milhares de pessoas por todo o mundo estão se organizando para se manifestar contra a violencia sexual dirigida às mulheres e essa mentalidade de que a responsabilidade sobre o ocorrido seja da vítima e não do agressor. Além disso, o fato de uma mulher sair com muitos homens, se vestir de forma sexy ou trabalhar como prostituta não significa que os homens tenham direito sobre seu corpo. Melhor dizendo, nada justifica a agressão.

A pintura acima, “Susana e os Velhos” (1610), de Artemísia, mostra uma jovem se esquivando de dois homens mais velhos. Um deles parecia sussurar no seu ouvido alguns momentos antes… A tensão da moça e o olhar dos homens sugere um desfecho cruel, afinal eles continam se projetando em direção à garota e nem parecem notar sua expressão de incômodo. entretanto, por mais que não ocorra um estupro, a violência já está ali: na intenção dos homens, na forma como a estão tratando, no sussuro… assim como abordagens na rua frequentemente são violentas.

Por essas e outras, nós do vvv estaremos também na manifestação que vai ocorrer hoje (18/06) com o nome de Marcha da vadias, em Brasília, protestando contra essa mentalidade medieval. A concentração será na frente do conjunto nacional, as 12h. Compareça!