Kara Walker

Este slideshow necessita de JavaScript.

Nasceu em Stockton, EUA em 1969, vive e trabalha em Rhode Island, EUA.

Silhuetas cortadas de papel preto em contraste com a parede branca mostram cenas que podem parecer ao mesmo tempo violentas, engraçadas e até românticas entre personagens de vestuário vitoriano. A artista plástica estadunidense e afro-descendente Kara Walker, autora desses polêmicos trabalhos, cria imagens caricaturescas que proporcionam, para que quem as vê, sentimentos contraditórios em relação as situações apresentadas, o que não acontece por acaso. A artista afirma em entrevista que seus trabalhos possuem parte da sua experiência em relação a raça na qual ela já quis ao mesmo tempo ser a heroína e matar a heroína. O nome de uma de suas exposições, “Meu complemento, meu inimigo, meu opressor, meu amor”, ilustra bem esse conflito interno em relação a si e ao outro.

Em seu país, diferente daqui, houve um longo período de desigualdade jurídica, e o racismo, ideologia que sustenta a opressão por distinção de raças (compreendidas no sentido sociológico e não biológico), lá, se manifesta explicitamente, especialmente no sul do país, para onde a artista se mudou aos 13 anos. Tal ideologia, no Brasil, possui traços muito específicos, sendo constantemente camuflada e/ou diluída em questões de classe, embora não menos cruel. Essas especificidades podem fazer toda a diferença na interpretação do trabalho de Kara Walker, já que raça, racismo e opressão são alguns de seus temas constantes. Sendo assim, o/a espectador/a brasileiro/a corre o risco de perceber sua obra como a confirmação do mito de que o racismo é uma coisa estrangeira e que  não nos diz respeito, ou em outras palavras, uma confirmação do mito da igualdade racial.

Sobre essa questão a artista se manifestou brevemente em uma entrevista que deu em passagem por São Paulo, quando seu trabalho foi exposto na 25a Bienal, dizendo que ao conhecer Salvador, em 1990, ficou impressionada por perceber como as pessoas negras na cidade mais negra da America Latina eram marginalizadas. O nosso racismo foi evidente para olhos não anestesiados pelo mito. Há um fator em seu trabalho que traduz bem a relação que temos com o racismo no aqui: as silhuetas indicam a dificuldade de se olhar para o assunto, de se encarar essas agressões…

Em “They Waz Nice Folks While They Lasted” (says one Gal to another), de 2001, a artista, além de apontar a dificuldade de encarar o problema inclui necessariamente, por meio de projeções nas paredes onde estão as silhuetas, a sombra do/a espectador/a na história. É como se estivesse dizendo “olha, mesmo que você não queira ver, você é parte dessa história, você é parte dessa violência”.

Já na série de impressões feitas em ilustrações antigas da guerra civil estudunidense chamada Harper’s Pictorical History of Civil War (annotated), de 2005, Walker faz uma espécie de anotação imagética que inclui as pessoas negras na História através de suas silhuetas ou sombras, como quem reivindica um espaço negado na memória de um povo.

As situações apresentadas nas imagens que Walker produz misturam violência, sangue, sexo, fezes, urina, leite, corpos; corpos que se violentam dentro de uma rede opressora sem fim, onde o desejo, prazer, opressão e dor se confundem, sendo que cada pessoa nesta rede transita por papéis de agressor/a ou agredido/a, independente do grupo no qual seja encaixada. E não é assim que nos organizamos e nos relacionamos?

Tauana M.

Links

EUA mostram trabalho sobre escravidão na 25ª Bienal de SP. http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u20514.shtml

Kara e o x acto http://desenhoarq.wordpress.com/2009/02/25/kara-e-o-x-acto/

An Explosion of Color, in Black and White. http://nymag.com/print/?/art/reviews/40277/

Making the Cut. www.villagevoice.com/content/printversion/196311

http://en.wikipedia.org/wiki/Kara_Walker

Francesca Woodman

Este slideshow necessita de JavaScript.

Nasceu em 1958, em Denver, Estados Unidos e faleceu em 1981.

Francesca Woodman produz suas imagens no contexto das lutas feministas norte-americanas e trabalhos artísticos realizados por mulheres como Judy Chicago e Hannah Wilke, que discutiam e questionavam as representações do corpo feminino e a condição da mulher na sociedade.

A auto-representação por meio do nu não necessariamente erotizado aliada às questões de intimidade e memória marcam a obra da artista. Francesca expõe seu corpo enquanto artista e sujeito do próprio trabalho, e contrariando a tradição da “mulher nua-objeto-erotizado sujeito do olhar masculino”.

Trabalhou principalmente com a fotografia em preto-e-branco de médio formato. Os inúmeros auto-retratos performativos marcam sua obra. A escolha de si como sujeito – na maior parte de seus trabalhos, já informa a escolha da fotografia enquanto movimento do íntimo – olhar não direcionado aos outros – distante de qualquer sensação de voyerismo na sua auto-representação. Captura-se o “eu” e não o “outro” pelo “meu” olhar, sem a distância habitual criada entre quem fotografa e quem é fotografado.

A artista não faz uso da nudez de seu corpo enquanto espetáculo no processo de auto-conhecimento pela auto-exposição. O corpo da mulher é mostrado enquanto corpo presente, sem a necessidade de imeditada vinculação à sexualidade e ao erotismo. A nudez aparecendo como apresentação crua do ser. A mulher nua e crua, sujeito de sua experiência estética. Dessa maneira, cria auto-retratos em termos psicológicos que não que objetivam o físico estritamente.

A obra de artista inevitavelmente remete às questões do tempo e da memória. Isso se dá pela escolha de cenários abandonados, casas, ruas e paredes marcadas pelo tempo. O movimento do ser mostrado enquanto efêmero, não-congelado. Sua imagem é difusa e evanescente, pela sua escolha em utilizar-se de tempos de exposição longos para a movimentação que desenvolve em frente à câmera.

Essa escolha por esse efeito ocasionado pelos tempos de exposição é importantíssima para se pensar a sua poética. Woodman cria fantasmas. Um fantasma é o ausente que se faz presente, o oculto, a lembrança, que se apresenta, no caso das fotografias de Francesca, numa particular materialidade quase transparente, ausência e presença sobrepostas.

A artista constrói cenas surrealistas em seu trabalho, em termos de realidade construída – real re(a)presentado de forma não-realista e não-convencional. Em muitas de suas fotografias o rosto aparece coberto, desfocado ou não-enquadrado.

Ana C.