Exposição: Frida Kahlo – conexões entre mulheres surrealistas no México

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Ontem tive o prazer de visitar uma exposição aberta aqui em Brasília (até dia 05/06/16 no Conjunto Cultural da Caixa) sobre Frida Kahlo e artistas surrealistas mexicanas e achei que era um bom pretexto para sacudir a poeira do blog. Então aqui vai:

Frida é querida de muita gente e já bastante conhecida, com um reconhecimento incomum, por sinal, quando se trata de artistas mulheres. Por isso, inclusive, fiquei muito feliz ao vê-la junto de nomes menos conhecidos como Leonora Carrington, Remedios Varo, María Izquierdo, Bridget Tichenor e Alice Rahon.

Os trabalhos de Frida realmente vão em direção outra, que não a pesquisa surrealista, embora haja ali presente um diálogo marcante. Vendo o conjunto apresentado, parece que ela pesquisava seu universo interno e o retratava de forma mais direta (mesmo que o resultado disso fosse bem estranho), enquanto que as demais artistas – nas obras de cunho mais surrealista – apresentam aspectos íntimos através de universos fantásticos, com personagens antropozoomórficos e cenários oníricos. Até aí, tudo estava mais ou menos como esperado. Contudo, dois desenhos de Frida feitos em tinta sépia sobre papel eram bem surrealistas, com personagens não humanos e tudo o mais. Entrar em contato com esses desenhos, juntamente com as fotografias, estudos e pinturas de retratos que essas artistas fizeram umas das outras, me trouxe a compreensão de que a relação visual entre suas obras não era uma questão acidental, mas fruto de trocas que ocorrem entre essas mulheres.

Para deixar essa relação mais evidente estava o seguinte texto curatorial em uma das paredes:

“As mulheres desempenharam papel fundamental na promoção da obra de outras mulheres. Natasha Gelman foi uma grande mecenas para Frida Kahlo. Inés Amor fundou a primeira galeria comercial no México, que abrigou a Exposição Internacional de Surrealismo em 1940 e ofereceu às artistas exposições individuais. María Asúnsolo criou a galeria GAMA, e Lola Álvarez Bravo fundou a Galeria de Arte Contemporânea, que abriu espaço para a primeira exposição individual de Frida Kahlo. María Izquierdo colaborou como crítica de arte para o jornal Novedades. Kati Horna, com suas reportagens para a revista Mujeres, contribuiu para difundir a obra daquelas que se destacavam no mundo das artes e da cultura.” 

Não é por acaso que a exposição traz a palavra “conexões” em seu nome.

Saí de lá com a palavra sororidade ecoando em mim…

 

Tauana M.

Saiba mais em:

http://www.cultura.gov.br/noticias-destaques/-/asset_publisher/OiKX3xlR9iTn/content/id/1335533
http://www.revistaforum.com.br/2015/11/24/alem-de-frida-kahlo-10-outras-artistas-mexicanas-importantes-engajadas/

Louise Bourgeois: O Retorno Do Desejo Proibido

Arte é uma garantia de sanidade – Louise Bourgeois

No ano passado, aproveitando uma promoção dessas de passagens aéreas, tive a oportunidade de visitar a exposição da Louise Bourgeois que ocorreu em São Paulo. Até agora não tinha escrito sobre essa exposição porque quanto mais eu admiro uma artista, mais receio de escrever eu tenho. Mas agora achei que devia aproveitar o 8 de março para criar coragem e escrever esse texto em homenagem a essa artista tão maravilhosa que é a Bourgeois.

A exposição ocorreu no Instituto Tomie Othake com o nome de “Louise Bourgeois: O Retorno do Desejo Proibido”  e teve curadoria de Philip Larratt-Smith, que enfocou a relação da artista com a psicanálise. Essa escolha se deu por conta da descoberta feita por Jerry Gorovoy – que trabalhou durante vários anos como assistente de Louise – de textos da artista escritos entre 1952 e 1967, período em que  passava por intenso processo na psicanálise. O curador comenta ainda que “Os surrealistas exploraram as possibilidades plásticas do imaginário dos sonhos e os abstrato-expressionistas desejavam mergulhar na inconsciência, mas de fato é Bourgeois quem mais, dentre todos os artistas do século 20, esteve engajada com a teoria psicanalítica e sua prática. Eu acho até surpreendente que essa mostra seja a primeira a apresentar esse foco.”

Comecei a ver a exposição por uma sala com desenhos e pinturas que eu não conhecia, mas que eram coerentes com o todo da obra da artista. Porém, mesmo sendo interessantes e fortes, os trabalhos bidimensionais, no geral, possuem só uma fração do que Bourgeois traz nas instalações e esculturas. A primeira instalação que vi foi o “Quarto Vermelho”, de 1994. As paredes são feitas de portas, numa quase espiral. Vemos a cena por frestas, por um espelho, pelos cantos, nunca de frente. Os elementos vão se fazendo presentes aos poucos. Aqui um brinquedo, ali um travesseiro pequeno com “jê t’ame” [eu te amo] bordado, mais no alto uma gosma endurecida presa por um prego, do outro lado…. Os artigos são todos antigos, o que contribui para uma sensação de que ele habita algum lugar nos confins obscuros da memória, um lugar permeado por uma sensação de clausura e que, por algum motivo, ao menos para mim, também é repleto de medo e familiaridade. É como se ela trouxesse para o mundo físico alguma memória oculta no subconsciente.

Essa sensação me acompanhou também nas outras duas instalações maiores: “Acusado número II”, de 1998, que foi a primeira que me fez querer chorar, e “Aranha”, de 1997, que me deu a sensação de estar tremendo por dentro, talvez pelo turbilhão de sensações e emoções, algumas até mesmo contraditórias, que ela gerava. Cada uma delas é cheia de detalhes e cada detalhe dá margem um milhão de possibilidades de interpretação. O resultado dessa equação é que dá vontade de ficar muito tempo em um só trabalho, desvendando seus detalhes, suas possibilidades, suas provocações. Mas ainda havia muito o que ser visto.

Continuando, estavam as diversas esculturas espalhadas em salas diferentes, feitas principalmente em bronze e tecido, embora outros materiais estivessem presentes. Se as instalações forneciam um clima e um ambiente não habitado, as esculturas continham várias versões de seres vivos, habitantes desse terreno obscuro do subconsciente. Muitas figuras eram ao mesmo tempo uma e muitas, várias não tinham sexo nem gênero, outras eram o próprio sexo. Nessa terra de habitantes multifacetados, sem corpos, sem cabeça, haviam também formas orgânicas não definidas e uma espiral ascendente que se repetiu com alguma freqüência. Um caminho? Uma sensação?

Um escultura que eu conhecia por imagem e que me foi arrebatadora  ao vivo foi “O Arco da Histeria”, de 1993. Um corpo dourado sem cabeça e sem sexo arqueado para trás, como acontecia com algumas mulheres diagnosticadas como histéricas, suspenso no ar. Nessa foi difícil segurar o choro (coisa que fiz por medo de não conseguir parar). A escultura quase grita… Ver a exposição de Bourgeois não é como um passeio no parque. É ao mesmo tempo delicioso e sofrido, porque, no que parece ser uma busca pela própria verdade, ela vai fundo e mexe onde normalmente não se quer mexer. Faz todo o sentido que ela tivesse a arte como uma “garantia de sanidade”, e que o curador se surpreenda por ter sido esta a primeira exposição de Bourgeois que teve o enfoque na sua relação com a psicanálise, afinal mesmo quem vê/vivencia seus trabalhos é impulsionado/a a confrontar os próprios temores, traumas e questões.

Tauana M.
Materia da folha com entrevista feita com o curador da exposição:   http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/938294-exposicao-mostra-como-psicanalise-transformou-louise-bourgeois.shtml

Tomie Othake: Pintura as cegas

Programa sobre a exposição da artista Tomie Othake de pinturas feitas de olhos vendados

Marina Abramovic – Back to Simplicity

Entrevista feita pelo Canal Contemporâneo com a artista Marina Abramovic durante a exposição “Back to Simplicity” realizada na Luciana Brito Galeria cá no Brasil, em novembro de 2010.

Anjos da Anarquia: mulheres artistas e surrealismo

Este vídeo é uma conversa entre a curadora de uma exposição ocorrida em 2009 sobre mulheres artistas surrealistas e a escritora inglesa Jeanette Winterson. O vídeo está em inglês e sua tradução segue no texto abaixo. Por enquanto não foi possível incluir legendas no vídeo, mas esperamos poder fazer isso num futuro próximo.

Anjos da anarquia: Mulheres artistas e surrealismo

Jeanette Winterson em conversa com a curadora de Anjos da Anarquia, Dr. Patricia Allmer.

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P.A – Oi, meu nome é Patrícia Allmer. Eu sou curadora de Anjos da Anarquia: mulheres artistas e surrealismo, na Galeria de arte Manchester. A exposição irá abrir dia 26 de setembro.
Eu estou aqui com Jeanette Winterson.
O que você achou da exposição?

J.W. – É uma exposição fantástica! Completamente inesperada. Eu não sabia o que iria encontrar. Eu sabia sobre Lee Miller, eu sabia sobre Frida Khalo, eu sabia sobre Leonora Carrington. E eu acho que muita gente vai reconhecer a xícara e pires peludos de Meret Oppenheim, porque é uma imagem icônica do surrealismo .
Mas eu não tinha idéia de que tantas mulheres haviam trabalhado dentro do movimento surrealista durante tantas décadas.
E, de fato, sendo inteiramente perdidas para nós. E é somente o feminismo nos anos 70, não é? Que nos trouxe essas mulheres de volta, e agora podemos ver a qualidade e variedade de seu trabalho, que é extraordinária.
Não é que não sabemos sobre essas mulheres porque elas não são boas, é porque, como sempre, a história masculina desse período na arte as descartou.

P.A. – Sim, eu acho que é muito importante mostrar que essas são grandes artistas do século XX e é muito importante trazê-las de volta para o conhecimento público. Também é muito importante porque vários dos trabalhos artísticos estão começando a se desintegrar e estamos próximos de perder essa história.

J.W. – Esse tem sido um problema com vários trabalhos de mulheres, está quase se auto-desaparecendo, de forma que as mulheres são retiradas dos livros de história mas seu trabalho também desaparece.

P.A. – Então há um verdadeiro perigo aqui de perder a história, a história que é nossa história enquanto sociedade, mas também é uma história de nós enquanto mulheres, e isso é muito importante.

J.W. – E eu acho que ainda há um mito comum, não é?
Enquanto as mulheres são mais aceitas agora como escritoras, como artistas visuais, escultoras, artistas que trabalham com instalação, ainda são vistas como um pouco incomuns, como se as mulheres não fossem boas o bastante para entrar nestas esferas masculinas, aonde o verdadeiro trabalho criativo está acontecendo.

P.A. – Você acha que isso mudou nos últimos anos ou últimos tempos, que está mais fácil para mulheres artistas ou escritoras?

J.W. – Eu acho que está melhorando. Quando você olha para “a cama” ou “a tenda” de Tracey Emin, ou para a escultura “Casa” de Rachel Whiteread, que foi demolida no dia em que ganhou o prêmio Turner, uma história extraordinária..
Você pensa que essas mulheres, Tracey e Rachel, elas estão saindo desse espaço. As mulheres aqui, os trabalhos de mulheres surrealistas aqui, tornaram possível para as mulheres agora de nossa geração realmente terem o tipo de reconhecimento, o tipo de  estatus verdadeiro, que elas devem ter.
Mas mesmo aí as pessoas ainda dizem “ah sabe, Tracey Emin, talvez ela seja uma farsa, será que ela é pra valer?”
E acho que tem muita misoginia nesse tipo de comentário, que é certamente o tipo de comentário que as mulheres surrealistas tinham que agüentar, não é?
E elas de alguma forma não eram tão criativas, seu trabalho era muito menos importante, elas não mereciam ter escritos sobre elas. E eu acho que é só nos anos 70, não é? que nós realmente redescobrimos essas mulheres.
Eu estava olhando para essas imagens fantásticas de corpos femininos e de mulheres se fotografando e fotografando outras mulheres. Tão bonito e também tão subversivo, e tão provocativo. E agora estamos num mundo em que uma menina comum, uma menina de 16 anos, vai sair na rua e vê milhares de imagens todos os dias, imagens distorcidas, retocadas e transformadadas de si mesma e de como ela deve ser.
Então uma exposição com essa retoma as questões de como nos vemos, como somos vistas e como nos representamos no mundo.

P.A. – Sim. Eu acho uma pegada bem interessante, por exemplo, nessa galeria onde mulheres artistas representam outras mulheres artistas, como é diferente da representação de musas icônicas do século XX. Então temos mulheres sendo mostradas com seus trabalhos artísticos, mulheres fortes, como por exemplo com a representação de Frida Kahlo. Kahlo é tão freqüentemente representada como um vítima sofredora, sempre apaixonada por Diego [Rivera], perdida….

J.W. – Que era o verdadeiro artista.

P.A. – E que era o verdadeiro artista, sim. E quando você olha para as fotografias de Lou Albarus Beowulf (?) de Frida Kahlo, essa mulher não está sofrendo, essa é uma mulher muito forte. E eu acho, mais uma vez, que a forma como as mulheres surrealistas estão se representando umas as outras, mostra bastante esse lado forte e esse lado de mulheres fortes.

J.W. – Sim, você está certa, mostra. Digo, elas são vistas como co-criadoras, não é?

P.A. – É.

J.W. – Elas se respeitam umas as outras.

P.A. – Há muito respeito com os trabalhos artísticos uma das outras. E mais uma vez, elas conheciam o trabalho artístico uma das outras. Não sabemos muito, mesmo, sobre o quanto cada artista conhecia as outras. Por que não? Por que não pesquisamos isso até agora? é muito, muito importante. Por que estamos sempre tão fixados em saber se Carrington era a namorada de Marx Ernst ou.., sabe, essas coisas de relacionamento sempre vem para primeiro plano, de como mulheres artistas de relacionam com homens artistas? Você só precisa ver as biografias das mulheres artistas. Tem sempre “oh, ela estava num relacionamento com outra pessoa”, enquanto se você olha para uma biografia de homem artista elas são sobre arte e os períodos pelos quais passaram.

J.W. – Certamente isso não mudou. Você ainda encontra todo o interesse, quando uma mulher está fazendo um trabalho criativo agora é entrevistada ou se escreve sobre ela, está sempre em com elas estão fazendo sexo, quem é o macho em cena.
Eu adoro aqui também como temos várias imagens de anjos. Temos o “Anjo da Anarquia” ao entrar pela porta, temos o “Anjo da Misericória”, que não parece muito misericordioso para mim, ao fim da exposição. Temos o “prisioneiro celestial” o anjo na gaiola, outros anjos nas fotografias. Acho que isso é fascinante, porque estava pensando no ensaio de Virgínia Wolf “O anjo da casa”, no início do século XX, vindo da idéia representacional masculina dos anjos presidindo delicadeza, e esse é um anjo confinado, apertado, açucarado. E aqui você tem anjos explodindo, na forma verdadeira, no que se chama de anjos como mensageiros, anjos se movendo entre dois mundos. Isso parece ser para mim o que essas mulheres surrealistas estão fazendo. Elas estão se movendo de forma tão hábil, veloz, leve, inteligente, divertida, bruxa entre dois mundos: o mundo do olhar masculino, e também elas se percebem como mulheres e criadoras. É uma exposição questionadora, porque penso que as mulheres, não apenas como indivíduos, mas como gênero, estamos ainda em transição. Nós não sabemos como nos ver, não sabemos realmente como nos representar, nós não sabemos nem quem somos. Não está acabado por um longo caminho.

P.A. – Não. E isso é bom. É brilhante que não sabemos…

J.W. – Eu acho que sim.

P.A. –  …e que temos que explorar.

J.W. – Então acho que o eu instável que tem sempre sido um problema para as mulheres pode ser também uma força, porque nessa instabilidade surgem muitas possibilidades  contanto que não sejamos imediatamente travadas pelas idéias da sociedade masculinista de como devemos ser ou como somos. Então o que encontramos aqui não é tanto uma filosofia de vida, mas uma série de perguntas que me permite questionar além: onde estamos agora em 2009, em nosso mundo, como mulheres?

P.A. – É. E o que você acha? Onde estamos nós, em 2009, como mulheres?

J.W. – Esse é o momento em que devemos lutar novamente. Esse não é o momento de descansar. Sabe, tem muita bobagem sendo dita sobre como o feminismo está acabado e que não precisamos mais dele. Então vemos uma exposição como essa e saímos e vemos o bombardeio de imagens de mulheres em todo o lugar, em revistas femininas, e a infinita distorção e retoques, e mulheres lutando para fazer suas marcas criadoras e você pensa “não, não, realmente cem anos não é suficiente. Vamos precisar dos milhares de anos que os homens artistas aproveitaram antes de ter certeza de quem realmente somos e o que queremos dizer sobre nós mesmas”.

P.A. – Muito obrigada!

Para saber mais sobre essa exposição visite: http://www.manchestergalleries.org/angelsofanarchy/

Back to simplicity – exposição de Marina Abramovic

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Back to simplicity. De volta a simplicidade. Esse é o nome da exposição, embora eu ainda não soubesse disso ao entrar na galeria. Só o nome da artista estava na minha cabeça: Marina Abramovic. Sabe aquelas pessoas cujo trabalho você admira e respeita tanto que nem parece que elas existem de verdade? Que é como se alguém tivesse inventado que existem, como alguma personagem mítica? Marina Abramovic era dessa forma para mim, e ao passar pelo portal que divide o mundo externo da galeria entrei num estado misto de descrença na realidade, expectativa, admiração e curiosidade. O primeiro trabalho que vemos é um vídeo da artista vestida de branco deitada ao pé de uma grande árvore. Por ser um vídeo, esperamos que algo aconteça. Esperamos… e de repente é isso. Nossa espera e ela lá, sendo, estando.

No andar debaixo estão uma série de fotografias realizadas esse ano, após a performance A artista está presente, em que Abramovic ficou três meses sentada numa galeria apenas encarando os olhos de espectadorxs que se sentavam à sua frente. Em entrevista publicada no catálogo da exposição, ela diz que depois de se conectar com tantas pessoas pelo olhar ela “tinha que voltar à natureza: estar sob uma árvore, segurar um carneirinho durante dois dias, em total felicidade, e Back to simplicity é isso”.

Nessa série de fotografias da artista se relacionando com elementos da natureza, há duas imagens em que a artista segura uma margarida, uma com olhos fechados, outra com olhos abertos, a exemplo da citação acima: ela se emociona com uma coisa tão simples quanto uma margarida. Segurá-la, sabê-la basta. Em outra, Looking at the mountais [olhando para as montanhas], a artista contempla a terra, a natureza, o universo e em Holding the Lamb [segurando o carneiro] parece fazer uma oferenda para essa terra. As imagens são todas muito fortes. Não no sentido de mexer fisicamente com quem as vê, como é comum com as performances dessa artista, mas com uma força outra, que não sei bem descrever.

No andar superior estão vídeos e fotografias de performances realizadas desde a década de 70 até 2009. Nelas a tranqüilidade raramente aparece, dando lugar a ações simples, porém que testam limites físicos e emocionais da artista, levando quem observa a entrar em contato consigo, com o próprio corpo, com o presente. Os trabalhos não são de consumo rápido, eles atravessam a pele. As possíveis elaborações vêm depois..

O primeiro que vi, AAA-AAA, estava num corredor, de forma que só era possível ficar bem perto da televisão. Nesta performance ela e Ulay gritam até a exaustão. Os gritos começam mais estáveis e num volume mais baixo e progressivamente aumentam. Mas não são só gritos… os rostos mudam, se deformam. O som se deforma. E os gritos, agora sim, mexem com o físico de quem vê, no meu caso revirando o estômago, arrancando lágrimas e deixando a sensação de um nó na garganta. O vídeo dura 15 minutos. 15 minutos bem longos.

Uma sala nesse mesmo andar continha uma série de trabalhos chamados The Kitchen/Homenage to Saint Therese [A cozinha.homenagem à Santa Tereza]. O vídeo que mais chama atenção dessa série é um em que a artista aparece com um vestido preto, flutuando de braços abertos em uma cozinha antiga. A primeira vista, essa imagem me remeteu às bruxas medievais, ou seja, à mulheres que possuíam conhecimentos considerados ameaçadores para quem detinha o poder e que foram queimadas, torturadas, enforcadas durante a inquisição. É aquela história de que fala Foucault, dentre outras pessoas, sobre a relação entre saber e poder: quem detém o poder de fala, de escolha do conhecimento válido, ao mesmo tempo que produz verdades, mantém sua posição de prestígio. A perseguição às mulheres e o conhecimento que possuíam na idade média é uma parte da nossa história que não me parece totalmente superada… e o vídeo parece resgatar essa história, numa espécie de afirmação desse conhecimento intimamente ligado à comida, às ervas, aos temperos, e também à terra e a energia de cada coisa/ser. A informação do título deixa claro que é uma referência e homenagem à Santa Tereza de Ávila e (pela entrevista) as freiras da Ordem dos Cartuchos, locação do vídeo, que cozinhavam para oito mil órfãos, e a infância da própria artista, bastante ligada à cozinha.

Adiante, encontrávamos fotografias e vídeos de performances como Rest energy [energia de repouso], Art must be beautiful [Arte deve ser bonita]e Seven easy pieces/lips os Thomas [sete peças fáceis/lábios de Thomas]. Na primeira, a artista segura um arco e um homem segura a flecha e corda tensionada do arco, ambos em contra-peso, equilibrando-se. A flecha está apontada para o coração da artista. Na segunda, ela escova os cabelos repetindo a frase “A arte deve ser bonita” até ferir o couro cabeludo e começar a sangrar. Na última, um ritual com diversos passos, no qual ela, aos poucos, come um quilo de mel, bebe um litro de vinho, corta uma estrela em sua barriga, deita sobre uma cruz de gelo, se chicoteia, coloca botas e chapéu de militar e canta uma música sobre a guerra… tudo feito repetidamente por 7 horas. Tensão, dor, exaustão…

Saldo da exposição: Chorei litros, senti meu corpo vibrar de forma diferente, me abalei, sofri, sorri, e saí numa espécie de ressaca dessa intensa experiência ao mesmo tempo dolorida e deliciosa.

Tauana M.

A exposição fica em cartaz até o dia 29/01/2011 na Galeria Luciana Brito em São Paulo.

veja mais sobre a exposição em http://lucianabritogaleria.com.br/node/1536

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/831250-leia-a-entrevista-de-marina-abramovic-na-integra.shtml

e sobre a artista: http://bravonline.abril.com.br/conteudo/artesplasticas/marina-abramovic-performances-609221.shtml

ANNA BELLA GEIGER – Fotografia além da fotografia

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Exposição da Brasileira que nasceu e trabalha no Rio de Janeiro com visitação até dia 4 de julho no Conjunto Cultural da Caixa de Caixa de Brasília.

Os trabalhos da artista, em sua maioria, giraram em torno de reflexões sobre os espaços geográfico, simbólico e político e suas representações. A fotografia, presente em todos os trabalhos da exposição, não se apresenta necessariamente como linguagem, mas mais como elemento, como suporte, como referência nesses trabalhos que apontam para além do que trazem as fotografias.

Trecho das notas de montagem do curador:

(…) a exposição pretende mapear uma produção inserida na poética múltipla da artista, em que o elemento fotográfico tem um alto grau de presença e se transforma em diferentes registros e suportes, numa função contaminante e translatícia. Ao mesmo tempo, essa freqüência imagética da fotografia provoca enfrentamentos diferentes com a natureza da imagem. Daí surge a diversidade de campos de trabalho, tais como fotogravuras, fotomontagens, fotografia objectual, digital, gráfica….

Adolfo Montejo Navas

IRINA IONESCO – Espelhos de Luz e Sombra

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A exposição de fotografias da artista parisiense está em exibição no Conjunto Cultural da Caixa de Brasília até dia 11 de julho de 2010.

A exposição irá, em seguida, para a Caixa Cultural de Salvador durante o período de 22 de julho até 22 de agosto de 2010.

Texto de apresentação da exposição:

As fontes de inspiração de Irina Ionesco são pinturas simbolistas, filmes hollywoodianos, tragédias gregas, poesia decadente, o kitsch sublimado e o sublime consagrado. Em sua obra, a fotografa cria paraísos artificiais, expõe a magia do falso luxo, fabrica jogos a partir de múltiplos espelhos imaginários.

Em templos de excesso de imagens, a obra desta fotógrafa francesa de origem romena, em itinerância pela primeira vez no Brasil, suspende o tempo e abre espaço para vivências e fantasias imemoriais.

Irina Ionesco nasceu em Paris em 1935. Perda do espelho: aos quatro anos de idade, é separada da mãe, de quem se distancia até os 16 anos. Adolescente, começa uma trajetória de mulher-espetáculo: encantadora de cobras em numero de coreografia que exige concentração e nervos de aço, dançarina acrobática, alvo vivo de um lançador de facas. Um grave acidente interrompe seus passos na dança. Começa, então, a desenhar e a treinar o olhar. Com a pintura aprende a enquadrar e a penetrar o espelho. No natal de 1964, ganha de um amigo uma máquina Nikon. Em 1970, faz sua primeira exposição individual como fotografa. “se eu desenhei era para reproduzir minha mãe. Se fotografo é para eternamente reencontrar esta mãe.”

As mulheres fotografadas por Irina são, ao mesmo tempo, disponíveis e impenetráveis. Elas podem ser voluptuosas, sensuais, mas não são objetos de consumo. Só podem ser contempladas, jamais devoradas.

“As mulheres que posam para mim podem ser de qualquer tipo. Elas estão ligadas por um denominador comum que surge do meu estilo e da minha maneira de olhá-las.  As mulheres que fotografo podem ser encontradas no teatro, mas raramente no cotidiano. Elas nada têm a ver com uma determinada forma de realidade banal.”

Véus, plumas, rendas e sedas, objetos ilusórios entrelaçam-se em uma oferenda para a contemplação. Os fragmentos dessa obra ora apresentados, mais do que recriação de um tempo passado, alimentam imaginários futuros por sua condição de reminiscências concretas de mundos, técnicas e sensibilidades ameaçadas de soterramento.

A obra de Irina Ionesco arremessa o espectador para a dimensão da cumplicidade, entorpece distanciamentos críticos. O gozo se dá atravez do olhar que percorre, aprecia, desfruta, fixa, atravessa, sente. Se as mulheres sempre foram para a artista a busca de um espelho, nesta mostra as imagens exibem novos personagens, expressões de uma fantasia em movimento.

Betch Cleinman