Louise Bourgeois: O Retorno Do Desejo Proibido

Arte é uma garantia de sanidade – Louise Bourgeois

No ano passado, aproveitando uma promoção dessas de passagens aéreas, tive a oportunidade de visitar a exposição da Louise Bourgeois que ocorreu em São Paulo. Até agora não tinha escrito sobre essa exposição porque quanto mais eu admiro uma artista, mais receio de escrever eu tenho. Mas agora achei que devia aproveitar o 8 de março para criar coragem e escrever esse texto em homenagem a essa artista tão maravilhosa que é a Bourgeois.

A exposição ocorreu no Instituto Tomie Othake com o nome de “Louise Bourgeois: O Retorno do Desejo Proibido”  e teve curadoria de Philip Larratt-Smith, que enfocou a relação da artista com a psicanálise. Essa escolha se deu por conta da descoberta feita por Jerry Gorovoy – que trabalhou durante vários anos como assistente de Louise – de textos da artista escritos entre 1952 e 1967, período em que  passava por intenso processo na psicanálise. O curador comenta ainda que “Os surrealistas exploraram as possibilidades plásticas do imaginário dos sonhos e os abstrato-expressionistas desejavam mergulhar na inconsciência, mas de fato é Bourgeois quem mais, dentre todos os artistas do século 20, esteve engajada com a teoria psicanalítica e sua prática. Eu acho até surpreendente que essa mostra seja a primeira a apresentar esse foco.”

Comecei a ver a exposição por uma sala com desenhos e pinturas que eu não conhecia, mas que eram coerentes com o todo da obra da artista. Porém, mesmo sendo interessantes e fortes, os trabalhos bidimensionais, no geral, possuem só uma fração do que Bourgeois traz nas instalações e esculturas. A primeira instalação que vi foi o “Quarto Vermelho”, de 1994. As paredes são feitas de portas, numa quase espiral. Vemos a cena por frestas, por um espelho, pelos cantos, nunca de frente. Os elementos vão se fazendo presentes aos poucos. Aqui um brinquedo, ali um travesseiro pequeno com “jê t’ame” [eu te amo] bordado, mais no alto uma gosma endurecida presa por um prego, do outro lado…. Os artigos são todos antigos, o que contribui para uma sensação de que ele habita algum lugar nos confins obscuros da memória, um lugar permeado por uma sensação de clausura e que, por algum motivo, ao menos para mim, também é repleto de medo e familiaridade. É como se ela trouxesse para o mundo físico alguma memória oculta no subconsciente.

Essa sensação me acompanhou também nas outras duas instalações maiores: “Acusado número II”, de 1998, que foi a primeira que me fez querer chorar, e “Aranha”, de 1997, que me deu a sensação de estar tremendo por dentro, talvez pelo turbilhão de sensações e emoções, algumas até mesmo contraditórias, que ela gerava. Cada uma delas é cheia de detalhes e cada detalhe dá margem um milhão de possibilidades de interpretação. O resultado dessa equação é que dá vontade de ficar muito tempo em um só trabalho, desvendando seus detalhes, suas possibilidades, suas provocações. Mas ainda havia muito o que ser visto.

Continuando, estavam as diversas esculturas espalhadas em salas diferentes, feitas principalmente em bronze e tecido, embora outros materiais estivessem presentes. Se as instalações forneciam um clima e um ambiente não habitado, as esculturas continham várias versões de seres vivos, habitantes desse terreno obscuro do subconsciente. Muitas figuras eram ao mesmo tempo uma e muitas, várias não tinham sexo nem gênero, outras eram o próprio sexo. Nessa terra de habitantes multifacetados, sem corpos, sem cabeça, haviam também formas orgânicas não definidas e uma espiral ascendente que se repetiu com alguma freqüência. Um caminho? Uma sensação?

Um escultura que eu conhecia por imagem e que me foi arrebatadora  ao vivo foi “O Arco da Histeria”, de 1993. Um corpo dourado sem cabeça e sem sexo arqueado para trás, como acontecia com algumas mulheres diagnosticadas como histéricas, suspenso no ar. Nessa foi difícil segurar o choro (coisa que fiz por medo de não conseguir parar). A escultura quase grita… Ver a exposição de Bourgeois não é como um passeio no parque. É ao mesmo tempo delicioso e sofrido, porque, no que parece ser uma busca pela própria verdade, ela vai fundo e mexe onde normalmente não se quer mexer. Faz todo o sentido que ela tivesse a arte como uma “garantia de sanidade”, e que o curador se surpreenda por ter sido esta a primeira exposição de Bourgeois que teve o enfoque na sua relação com a psicanálise, afinal mesmo quem vê/vivencia seus trabalhos é impulsionado/a a confrontar os próprios temores, traumas e questões.

Tauana M.
Materia da folha com entrevista feita com o curador da exposição:   http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/938294-exposicao-mostra-como-psicanalise-transformou-louise-bourgeois.shtml

Marjane Satrapi

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 Nasceu em Rasht, no Irã, em 1969; vive e trabalha na França

Marjane Satrapi, que tem como nome de nascimento Marjane Eibihamis, é ilustradora, quadrinista, escritora, roteirista e diretora de cinema, e tem como seu trabalho mais conhecido a clamada animação Persépolis. A animação é uma adaptação dos livros de História em Quadrinhos homônimo, onde a autora conta sua história desde a infância até o início da vida adulta. A mudança radical ocorrida no Irã com a queda do Xá e instauração do regime teocrático é narrada pelos olhos de uma criança que cresceu numa casa de livre pensadores e que tem conversas com deus.

Na sua adolescência, com o país em guerra, os pais acham melhor mandá-la para o exterior, onde entra em contato com uma cultura diferente e passa por diversas dificuldades, chegando até a viver nas ruas e enfrentar uma séria crise de pneumonia. Depois de alguns anos na Áustria ela retorna ao Irã, supera uma depressão, se casa, se separa e cursa artes na universidade. Durante toda a história são estampadas as questões identitárias pelas quais Marjane passa no decorrer dos anos e acabamos conhecendo um pouco dessa cultura que nos parece tão distante.

Os desenhos são minimalistas e ao mesmo tempo bastante expressivos, características que permaneceram na animação. Mais recentemente, em 2011, foi realizado uma outra produção cinematográfica em que Marjane  Satrapi escreveu o roteiro e dirigiu juntamente com Vicente Paronnaud (assim como Persepolis), chamado Frango com Ameixas. Mais uma vez um de seus livros de HQ foi transformado em cinema.

Várias das histórias da artista são auto-biográficas e carregadas de pontos de reflexão sobre identidade, sobre relações entre ocidente e oriente, sobre ser mulher e mesmo sobre o que se passa politicamente no Irã e em países europeus onde viveu ou vive, e tudo isso de forma bastante fluida.

Acredito que o pequeno livro HQ “Bordados” também mereça atenção por se tratar de uma conversa entre mulheres de diferentes gerações. Mesmo sendo mulheres que vivem numa cultura em muitos aspectos distante da nossa é possível se imaginar com facilidade tendo um momento semelhante com avós, mães, tias, primas e filhas, conversando sobre sexualidade, sobre os próprios corpos, os relacionamentos e sobre como é ser mulher.

Além dos já comentados títulos “Persépolis”, “Frango com Ameixas”, Bordados”,  é possível encontrar em português  “Os monstros não gostam da lua” e “Ajidar – O dragão da terra”, ambos infantis.

Tauana M.

Links:
http://www.imdb.com/name/nm2277869/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Marjane_Satrapi
http://www.duplipensar.net/materias/2003-08-satrapi.html

Sophie Calle

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Sophie Calle, artista plástica nascida em Paris no ano de 1953, despediu-se, ainda nova, da terra natal para conhecer o mundo. Sua jornada de 7 anos, além de experiências, rendeu-lhe um vício pelo imprevisível e a perda da sensação de pertencimento à cidade de partida. Não sabendo mais como agir de maneira parisiense, comer de maneira parisiense, pensar de maneira parisiense, ela se pôs a seguir pessoas aleatórias na grande cidade fotografando e fazendo anotações que a ajudassem a reaprender o jeito de ser parisiense. Essa obsessão por se apropriar de trechos da vida dos outros para construir novas histórias, juntamente com um quê de voyer e jogos que incorporam pessoas desconhecidas e momentos imprevisíveis, constituem algumas das características mais marcantes de seu trabalho.

Na obra The Notebook, por exemplo, Calle procura o máximo de informações que consegue sobre um homem cuja caderneta de telefones ela encontrou na rua. Depois de aproximadamente um mês fazendo investigações sobre esse homem e publicando seu relatório no jornal Libération, a vítima mandou em resposta uma foto de Sophie calle nua, que ele diz ter conseguido pelos mesmos métodos que ela, e publicou no mesmo jornal.

Ainda nessa linha, a artista produziu a obra Suíte Venitienne, que começou quando ela foi apresentada a um homem em uma festa e, ao descobrir que ele viajaria em breve para Veneza, resolveu persegui-lo. Sempre fazendo registros e, apenas com a intenção de encontrá-lo e seguir seus passos sem que ele a visse, Calle cria um percurso labiríntico de contatos e informações e consegue, depois de 8 dias, localizá-lo. Ela então o segue, tira fotos dos mesmos pontos que ele tirou, anota os horários que entrou e que saiu do hotel, enfim, passa a viver em seus rastros. E é aí que entra o mais interessante: todos deixamos rastros que nos afirmam como seres vivos. Ter os seus rastros apagados por outro significa uma anulação de sua existência, assim como viver nos rastros do outro representa uma abdicação dos próprios rastros e, portanto, da própria identidade/existência. A artista cria, assim, uma dupla ausência onde, paradoxalmente, um se afirma na ausência do outro.

Em inúmeros outros trabalhos, Sophie Calle se utiliza do que “não está lá” para nos mostrar o que já esteve como quem prova a si e aos outros que a vida acontece e como parte dela acontece, mesmo que não faça diferença alguma. Naquela cama esteve alguém, naquele lugar, ás 15h37, havia um homem que coçou o nariz… São como pequenas investigações que aparentemente não levam a lugar algum, mas que, Segundo Baudrillard, permitem que ela, ao mesmo tempo, viva outras vidas e se desprenda da sua. Por isso, mesmo depois que as anotações e fotos tiradas são transformadas em um livro e expostas em galerias, não podemos desconsiderar o resto do processo. Daí a dificuldade que se tem em classificar sua arte dentro de uma linguagem específica, afinal, sua arte e sua vida se confundem a todo momento.

Tauana M.

Visite também:

http://blog.sophiecalle.com.br/

http://www.sophiecalle.com.br/

https://fissuraa.wordpress.com/videos/

 

 

 

IRINA IONESCO – Espelhos de Luz e Sombra

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A exposição de fotografias da artista parisiense está em exibição no Conjunto Cultural da Caixa de Brasília até dia 11 de julho de 2010.

A exposição irá, em seguida, para a Caixa Cultural de Salvador durante o período de 22 de julho até 22 de agosto de 2010.

Texto de apresentação da exposição:

As fontes de inspiração de Irina Ionesco são pinturas simbolistas, filmes hollywoodianos, tragédias gregas, poesia decadente, o kitsch sublimado e o sublime consagrado. Em sua obra, a fotografa cria paraísos artificiais, expõe a magia do falso luxo, fabrica jogos a partir de múltiplos espelhos imaginários.

Em templos de excesso de imagens, a obra desta fotógrafa francesa de origem romena, em itinerância pela primeira vez no Brasil, suspende o tempo e abre espaço para vivências e fantasias imemoriais.

Irina Ionesco nasceu em Paris em 1935. Perda do espelho: aos quatro anos de idade, é separada da mãe, de quem se distancia até os 16 anos. Adolescente, começa uma trajetória de mulher-espetáculo: encantadora de cobras em numero de coreografia que exige concentração e nervos de aço, dançarina acrobática, alvo vivo de um lançador de facas. Um grave acidente interrompe seus passos na dança. Começa, então, a desenhar e a treinar o olhar. Com a pintura aprende a enquadrar e a penetrar o espelho. No natal de 1964, ganha de um amigo uma máquina Nikon. Em 1970, faz sua primeira exposição individual como fotografa. “se eu desenhei era para reproduzir minha mãe. Se fotografo é para eternamente reencontrar esta mãe.”

As mulheres fotografadas por Irina são, ao mesmo tempo, disponíveis e impenetráveis. Elas podem ser voluptuosas, sensuais, mas não são objetos de consumo. Só podem ser contempladas, jamais devoradas.

“As mulheres que posam para mim podem ser de qualquer tipo. Elas estão ligadas por um denominador comum que surge do meu estilo e da minha maneira de olhá-las.  As mulheres que fotografo podem ser encontradas no teatro, mas raramente no cotidiano. Elas nada têm a ver com uma determinada forma de realidade banal.”

Véus, plumas, rendas e sedas, objetos ilusórios entrelaçam-se em uma oferenda para a contemplação. Os fragmentos dessa obra ora apresentados, mais do que recriação de um tempo passado, alimentam imaginários futuros por sua condição de reminiscências concretas de mundos, técnicas e sensibilidades ameaçadas de soterramento.

A obra de Irina Ionesco arremessa o espectador para a dimensão da cumplicidade, entorpece distanciamentos críticos. O gozo se dá atravez do olhar que percorre, aprecia, desfruta, fixa, atravessa, sente. Se as mulheres sempre foram para a artista a busca de um espelho, nesta mostra as imagens exibem novos personagens, expressões de uma fantasia em movimento.

Betch Cleinman