“E a Mulher Criou Hollywood”

O documentário abaixo mostra como as mulheres desempenhavam papéis de destaque no início do cinema em hollywood, quando ainda não era considerada uma indústria ou mesmo uma atividade lucrativa. Quando esse cenário mudou, na década de 40, o espaço da produção cinematográfica foi tornando-se um espaço cada vez mais masculino e, como vemos ao longo da história, essas mulheres pioneiras, que muito contribuíram para o desenvolvimento da linguagem cinematográfica (com destaque especial para a francesa Alice Guy Blanché – que foi a primeira pessoa a criar narrativas com os filmes e a utilizar som e cor no cinema), não costumam ser conhecidas ou lembradas.

Pílula: Preta Nerd & Burnning Hell

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Idealizada pela pesquisadora nerd Anne Caroline Quiangala, e ativa desde 2014, a página Preta Nerd & Burning Hell é um espaço para falar sobre as produções visuais e audiovisuais do universo nerd e negro sob as  hashtags #nerdiandade #audiêncianegra #pretaenerd , entre outras. O que há de muito especial no blogue é que é composto por uma equipe formada majoritariamente por minas negras e que publica textos sobre diversas questões que vão desde o universo das HQ’s (história em quadrinhos, pra quem é tão novata nesse assunto quanto eu), críticas sobre a representatividade e os estereótipos sobre a comunidade negra em filmes e documentários a textos que apresentam o trabalho de pensadoras negras.


A equipe é flexível, mas hoje conta com as editoras Anne Caroline Quiangala e Camila Cerdeira e com @s colunistas Kami Jacoub, Lucas Pamplona e Tatiana Nunes.

Além da página, ainda podemos acompanhar a produção de vídeos no canal do Preta Nerd & Burning Hell no youtube.

Tirem as mulheres artistas dos depósitos

O texto abaixo é tradução da reportagem “Bring female artists out of storage” de Amanda Vickery para a versão online do jornal inglês The Guardian. O Texto faz referência a uma pesquisa feita para um programa da bbc sobre mulheres artistas na história da arte  apresentado pela autora. O link para o texto original se encontra ao final do texto. Aproveite!

Artemisia Gentileschi's Susanna and the Elders (1610)
Detalhe de Susanna e os Velhos (1610) de Artemísia Gentileschi

 

Tirem as mulheres artistas dos depósitos

Por que há tão poucas pinturas de mulheres artistas em galerias públicas? Amanda Vickery vai a uma chocante caça para desenterrar mais obras-primas.

Sexta, 16 de maio de 2014.

Revelar a história de mulheres artistas na televisão pode soar como um projeto fácil, um agradável exercício em turismo patrimonial. Já não fomos para além de um respeitável agrupamento de heroínas esquecidas, escondidas da história? Afinal de contas, a história da arte feminista tem investigado o olhar feminino desde que Linda Nochlin perguntou “Por que não há grandes artistas mulheres?” em 1971. Pesquisas e livros magistrais vieram, desde The Obstacle Race (1979) de Germaine Greer, até Old Mistresses (1991) de Griselda Pollock e Rozita Parker, possibilitando as graduações em história da arte a oferecerem cursos sobre gênero e “formas de olhar” nos últimos 20 anos aproximadamente. Engajar a TV no objeto deste debate seria fácil. Eu presumi alegremente, até que embarquei na simples mas fundamental tarefa de ver, por conta própria, arte produzida por mulheres.

A arte é masculina? A maioria das instituições nos faria pensar que sim. As disparidades são alarmantes. Em 1989 as feministas Guerrilla Girls descobriram que menos de 5% do acervo do Metropolitan Museum de Nova Iorque era de mulheres, mas 85% dos nus eram femininos. Normalmente é possivel ver trabalhos de uma ou duas mulheres em um museu inteiro, mas você pode passar horas procurando. Eu fiquei aliviada de encontrar o pequeno mas enfeitiçante Proposição (1631), de Judith Leyster e o definifor de gênero Natureza Morta com Queijo, Amêndoas e Pretzels (1621), de Clara Peters, no Hague’s Gemeentemuseum [Museu Municipal de Haia].

Até mesmo a obra prima de Artemísia Gentileschi Judith Decapitando Holofernes (1620) só foi exibido no Museu Uffizi a partir de 2000. Uma duquesa Médici baniu a cena de assassinato de Gentileschi para um corredor escuro por considerar o “sangrento trabalho” demasiado sinistro para exibição.

Semanas de negociação e um contato italiano me levaram ao corredor Vasari para filmar. Essa passarela quilométrica serpenteia do Palazzo Vecchio até o Pitti Palace, atravessando o rio Arno pela Ponte Vecchio. Construído em 1564, ela permitiu aos Medici transitar entre seu palácio e os escritórios governamentais sem serem importunados. A passarela é ladeada por autorretratos de artistas, um panteão da história da arte do século XVI em diante. Mas dos 1.700 autorretratos apenas 7% são de mulheres.

Still Life with Cheeses, Artichoke, and Cherries by Clara Peeters.
Natureza Morta com Queijo, Alcachofra e Cerejas de Clara Peeters

As mulheres não pintavam, esculpiam ou produziam artesanato? Ou o esforço feminino era de tão pouca qualidade que elas não conquistaram um espaço na parede? A ausência de um celebrado panteão feminino contrasta enormemente com o sucesso das mulheres na literatura. Porém, os requerimentos de autoria eram bem mais fáceis de completar que as demandas da arte. Escrever requeria apenas letramento, acesso a uma biblioteca e uma mesa. Mesmo a arriscada exposição de uma publicação poderia ser compensada pelo anonimato. Por contraste, a arte demandava um complexo treinamento, produção pública e estava enredada em uma bem-guardada infra-estrutura. Preconceitos sociais inflexíveis, proibições de acesso ao treinamento formal e restrições legais ao comércio feminino prejudicavam as mulheres artistas.

 

Eu estava preparada para a caça, mas mesmo assim a quase invisibilidade das mulheres na arte foi chocante: fui forçada a ir para espaços de armazenamento e porões. A Advancing Women Artists Foundation [Fundação de Promoção de Mulheres Artistas] estima que 1.500 trabalhos de mulheres artistas estão atualmente armazenados em variados depósitos de Florença, a maioria dos quais não foi visto pelo público em séculos. Para a questão “São todos esses trabalhos de alto padrão artístico?” Jane Fortune, diretora da fundação responde: “Nunca saberemos a menos que eles sejam vistos”.

Galerias públicas parecem tacitamente endossar a visão conservadora, exemplificada pela afirmação de Brian Sewell de que “apenas homens são capazes de grandeza estética”. Mas pintores e escultores eram artesãos trabalhando dentro de oficinas familiares, como os alfaiates, serralheiros, ourives e marceneiros. Arte era um ofício. Poucas pinturas eram produto de uma única mão – apenas o rosto e as mãos podem ser o trabalho de um “mestre”. A marca do artista masculino era uma ficção. Marietta Tintoretto trabalhou ao lado de seu pai em Veneza, Barbara Longhi ao lado de seu irmão em Ravenna, sendo seu trabalho um vital componente da economia familiar, porém não reconhecido fora da oficina.

Uma crença profunda na impossibilidade do gênio feminino está em ação. Muitas das telas

Judith Leyster's The Proposition
A Proposta de Judith Leyster

ensolaradas de Leyster que celebravam a vida social da época de ouro holandesa eram tão habilidosas que foram atribuídas a Frans Hals, apesar de sua assinatura.
A Bolonhesa Elisabetta Sirani produziu mais de 200 peças em uma carreira de 13 anos, conquistando prestígio internacional por sua polida arte religiosa. Ela dirigiu a oficina familiar que incluia suas irmãs, sustentou seu pai quando ele já não podia pintar e fundou uma escola de arte para meninas. O próprio desempenho, rapidez e fluência de sua arte, entretanto, a puseram frente à acusação de que ela não a poderia ter criado – um homem devia tê-la ajudado – uma acusação que Sirani combateu fazendo demonstrações ao vivo de sua pintura.

Gentileschi poderia se igualar aos homens da arte de contra-reforma, mas optou por dramatizar as lutas das mulheres. Ela retratou as mesmas heroínas, até mesmo repetindo as cenas de seu pai Orazio, mas ela carregou as suas com uma crítica pungente à posse masculina de mulheres. A violência do voyeurismo é palpável em Susana e os Anciãos (1610), quando a mulher encolhida é vítima do olhar lascivo de dois velhos. Eles vão acusá-la do crime capital de adultério, a menos que ela concorde em dormir com eles. Seu forte corpo torcido é exibido, mas seu horror é superior, e seus braços são levantados em resistência. “O que VOCÊ está olhando?” A pintura nos diz. Compare isso com a versão excitante de Tintoretto em que Susanna parece saber que está sendo vigiada e exibe sua nudez branca em uma constrangida e suave performance. O episódio se torna um pretexto para o erotismo, e, como a mulher é cúmplice em sua própria subjugação, a sujeira da opressão sexual é acobertada. Gentileschi não terá nada disso.

Não é meu propósito sugerir que ainda temos que descobrir uma mulher Michelangelo, mas é enganoso olhar para o passado apenas através dos olhos de homens. O que as mulheres viram foi diferente. Vamos nos lembrar disso.

 

Reportagem original em:

https://www.theguardian.com/artanddesign/2014/may/16/bring-women-artists-out-of-storage

Tradução Tauana M.

Pílula: Voluspa Jarpa

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Voluspa Jarpa é uma artista visual chilena que participou da 8ª Bienal do Mercosul. Seus trabalhos de pintura, intalação e objetos frequentemente abordam a história da história do chile, com o foco nos apagamentos. 

Em entrevista ela comenta:

“En el año 1999 el gobierno de Estados Unidos anunció  la desclasificación de documentos de sus servicios secretos sobre la historia reciente de Chile. Recuerdo haber vivido esta noticia con cierta conmoción expectante y haber pensado y sentido que esto iba a producir un gran revuelo histórico nacional. Sin embargo, no sucedió en la contingencia -hasta la fecha solamente algunos libros recogen esta información, dos en Chile y uno publicado en Estados Unidos-, pero para mí se transformó en una interrogante simbólica.

Los archivos desclasificados estuvieron a disposición del público a través de un sitio oficial difundido por Internet. Al bajar algunos de estos archivos, tuve una primera impresión en relación directa con el hecho mismo de la desclasificación de los documentos, así mismo, sufrí un segundo impacto debido a que muchos de estos documentos están tachados -párrafos y páginas completas borradas con líneas y bloques negros-. Me conmoví por esa información borrada y, a su vez,  por la Historia de Chile, aquella que sentí pequeña e insignificante desde esa borradura y pensé en el abismo que había entre los hechos sucedidos en Chile y esas tachas.

Al verlos, me ocurrió una cosa, por decirlo de alguna forma curiosa, ya no me interesó tanto la información que contenían sino la imagen latente que portaban. ¿Qué podía hacer yo como artista con esto?, tal vez nada o tal vez no era necesario, pero ya no podría borrar aquellas imágenes de las tachas de mi memoria visual y tampoco podría dejar de conmoverme por ellas.

Por otro lado, la característica material de los documentos desclasificados de la CIA tienen otro mensaje implícito: la borradura. El derecho no es pleno y es curioso como esto es públicamente exhibido, el derecho a saber su historia y el derecho a borrarles (nuevamente) su historia. O visto de otro modo, el derecho a mantener en calidad de secreto dichos documentos, para luego, al sacarlos a la luz,  sean tachados, borrados.

En las negociaciones para convencer a Clinton de desclasificar los archivos aparecieron opiniones significativas: “Enjuiciar a Pinochet, dijo un antiguo funcionario de inteligencia al New York Times, equivalía a abrir la “caja de Pandora” de la historia”.

Estos documentos debieran por lo menos enseñarnos a mirar y a construir nuestra historia, recordarnos de que no podemos simbolizar o escribir nuestra historia, sin antes considerar ¿qué somos o quiénes somos?.

veja a entrevista completa em: http://bienalmercosul.art.br/blog/entrevista-voluspa-jarpa/

Algumas histórias esquecidas

 

Ressurreição de Camille

A família declarou-a louca e meteu-a num manicômio.
Camille Claudel passou ali, prisioneira, os últimos trinta anos de sua vida.
Foi para o seu bem, disseram.
No manicômio, cárcere gelado, se negou a desenhar e a esculpir.
A mãe e a irmã jamais a visitaram.
Uma ou outra vez seu irmão Paul, o virtuoso, apareceu por lá.
Quando Camille, a pecadora, morreu, ninguém clamou seu corpo.
Anos levou o mundo até descobrir que Camille não tinha sido apenas a humilhada amante de Auguste Rodin.
Quase meio século depois de sua morte, suas obras renasceram e viajaram e assombraram: bronze que baila, mármore que chora, pedra que ama. Em tóquio, os cegos pediram licença para apalpar as esculturas. Puderam tocá-las. Disseram que as escultyras respiravam.

Desalmadas

Aristótoles sabia o que dizia:
A fêmea é como um macho deformado. Falta-lhe um elemento essencial: a alma.
As Artes plásticas eram um reino proibido aos seres sem alma.
No século XVI, havia em Bolonha 524 pintores e uma pintora.
No século XVII, na Academia de Paris, havia 435 pintores e quinze pintoras, todas esposas ou filhas dos pintores.
No século XIX, Suzanne Valadon foi verdureira, acrobata de circo, modelo de Toulouse-Lautrec. Usava espartilhos feitos de cenouras e dividia o estúdio com uma cabra. Ninguém se surpreendeu que ela fosse a primeira artista a se atraver a pintar homens nus. Tinha de ser uma doida.
Erasmo de Rotterdam sabia o que dizia:
– Uma mulher é sempre mulher, quer dizer: louca.

Eles são elas

Em 1847, três romances comoveram os leitores ingleses.
O morro dos ventos uivantes, de Ellis Bell, conta uma devastadora história de amor e vingança. Agnes Grey, de Acton Bell, despe a hipocrisia da instiuição familiar. Jane Eyre, de Currer Bell, exalta a coragem de uma mulher independente.
Ninguém sabe que os autores são autoras. Os irmãos Bell são as irmãs Brontë.
Essas frágeis virgens, Emily, Anne, Charlotte, aliviam a solidão escrevendo poemas e romances num povoado perdido nos páramos de Yorkshire. Intrusas no masculino reino da literatura, puseram máscaras de homens para que os críticos perdoem seu atrevimento, mas os críticos maltratam suas obras rudes, cruas, grosseiras, selvagens, brutais, libertinas…

Noites de Harém

A escritora Fátima Mernissi viu, nos museus de Paris, as Odaliscas turcas pintadas por Henri Matisse.
Eram carne de harém: voluptuosas, indolentes, obedientes.
Fátima olhou a data dos quadros, comparou, comprovou: enquanto Matisse as pintava assim, nos anos 20 e 30, as mulheres turcas se tornavam cidadãs, entravam na universidade e no Parlamento, conquistavam o divórcio e arrancavam os véus.
O harém, prisão de mulheres, havia sido proibido na Turquia, mas não na imaginação européia. Os virtuosos cavalheiros, monógamos na vigília e polígamos no sonho, tinham entrada livre naquele exótico paraíso, onde as fêmeas, bobas, mudas, ficavam felizes ao dar prazer ao macho carcereiro. Qualquer burocrata medíocre fechava os olhos e se transformava, no ato, em um poderoso califa, acariciando a multidão de virgens nuas que, dançando a dança do ventre, suplicavam a graça de uma noite ao lado de seu dono e senhor.
Fátima tinha nascido e crescido num harém.

Proibido Cantar

Desde o ano 1234, a religião católica proibiu que as mulheres cantassem em igrejas.
As mulheres, impuras por herança de Eva, sujavam a música sagrada, que só podia ser entoada por meninos varões ou homens castrados.
A pena de silêncio regeu, durante sete séculos, até princípios do século XX.
Poucos anos antes que lhes fechassem a boca, lá pelo século XII, as monjas do convento de Bingen, nas margens do Reno, ainda podiam cantar livremente a glória do Paraíso. Para boa sorte dos nossos ouvidos, a música litúrgica criada pela abadessa Hildegarda, nascida para elevar-se em vozes de mulher, sobreviveu sem que o tempo a tenha gasto nem um pouquinho.
Em seu convento de Bingen, e em outros onde pregou, Hildegarda não fez só música: foi mística, visionária, poeta e médica estudiosa da personalidade das plantas e das virtudes curativas da água. E também foi a milagrosa fundadora de espaços de liberdade para suas monjas, contra o monopólio masculino da fé.

 

 

 

As histórias transcritas aqui foram retiradas do livro “Espelhos: uma história quase universal” escrito por Eduardo Galeano, publicado no Brasil pela editora L&PM. O livro conta diversas histórias apagadas ou silenciadas pela História Oficial. Para quem se interessar, é um ótimo livro!