Ani Ganzala: o afeto entre sapatonas pretas no muro e no papel – por Alexandra Martins

Ani Ganzala é filha de D. Lina e mãe de Lila. Nasceu em Salvador, é sapatão preta e candomblecista, também atua no grafite (assina como Kpitú) e utiliza a técnica de aquarela em suas pinturas que retratam o afeto e amor entre sapatonas pretas que tem como cenário de fundo as simbologias e signos de matrizes africanas. Ani é múltipla assim como suas obras e conversar com essa artista é sempre um aprendizado.  

Em 2015 foi quando nosso contato aconteceu, pois havia acabado de estabelecer moradia no bairro da Federação, em Salvador (Bahia). E rapidamente nos conhecemos naquela geografia e nos reconhecemos artística e politicamente. Essa intimidade criou um espaço de confiança no qual ela foi a primeira pessoa que me incentivou a mostrar meus trabalhos naquela cidade que havia acabado de chegar. Recordo ainda como a chegada nessa nova moradia dava certo medo e como as palavras de Ani sempre chegavam ao meu ouvido como um aviso pra eu chegar nesse chão devagarinho. 

Me conta um pouco sobre o início da sua carreira. Como começou e o que e/ou quem te estimulou nesse campo das artes? 

A minha careira começou quando eu tive um surto na Universidade, já no final do curso de História e simplesmente não conseguia mais dar conta da maternidade. Foi um momento que a Universidade não estava mais disponibilizando creche pra minha filha, porque ela havia completado quatro anos de idade. Então a minha carga horária ficou muito mais complicada e impossível porque eu teria que estudar só um turno, trabalhar e cuidar de minha filha e foi algo que se tornou insuportável. Então abandonei a Universidade e comecei a investir realmente na arte. Já fazia alguns grafites, estava iniciando pintura em aquarela e esse foi o momento que eu decidi ser tudo ou nada, já que eu havia desistido de uma carreira universitária onde possivelmente eu poderia ter chances de um concurso público como professora ou dar seguimento a uma carreira acadêmica. Então fui com tudo para a arte.  

Mas a gente nunca faz nada só e minha primeira ex-namorada foi quem me estimulou a ir pra rua e a colocar a arte na rua. Isso foi super libertador. E logo depois comecei a fazer pinturas em aquarela e ilustrações. As minhas amigas também me estimularam a mostrar meus trabalhos nas redes sociais e comecei a publicar, ter maior visibilidade pro meu trabalho e começar a vender. Vender em forma de postais, ímãs, blusas e isso começou a funcionar. Inclusive, agradeço muito a quem esteve nesse começo. Eu tive muitas amigas que já moravam na Federação que era um bairro universitário com pessoas de muitos lugares. Então, essas amigas sapatonas também eram artistas e a gente se entendia e se apoiava. Houve todo um movimento de apoio e valorização entre nós para que eu me sentisse mais segura para publicar minhas artes. 

Você pinta sobre o afeto e a intimidades de corpas pretas lésbicas. Como funciona seu processo criativo? O que te chama mais atenção na hora de produzir uma nova tela ou de ocupar um muro? 

Essa temática é o tema mais íntimo que tenho. Não somente sobre mim, mas também sobre minhas relações e sobre as minhas parceiras, que reflete o que eu recebo. É um transbordamento do que recebo em termos de afeto, de carinho, de companheirismo. E o que eu faço, apenas transformo em imagem. Eu coloco em imagem o que me toca e o que me atravessa. O afeto entre mulheres negras, entre sapatonas pretas é algo que realmente me toca profundamente. Nunca falta inspiração pra falar desse tema, pra falar sobre afetividade, companheiros e utopia. Nem sempre as relações são como eu pinto. Mas é parte de uma forma de utopia, de criação, de invenção, de fantasiar um desejo de algo que eu queira.

 

O cenário do grafite é muito dominado pelos homens. Quais os desafios que você mais sente para ocupar a cidade, em especial numa cidade como Salvador?

O maior desafio é o respeito e a visibilidade da minha existência enquanto grafiteira, porque há uma sabotagem muito grande em relação às grafiteiras negras e principalmente às sapatão. Somos invisibilizadas e estamos sujeitas a violência porque, se a rua já é um lugar que não é seguro pra gente caminhar, imagina pra quem está fazendo uma arte que ainda é considerada marginal? Estamos sujeitas a qualquer tipo de abordagem, de agressão e, principalmente, se faz uma arte com tema voltado para o amor entre mulheres, amor lésbico, amor sapatão.  

O campo das artes é muito centrado na produção de homens brancos cis europeus. Essas barreiras (machistas, racistas, capacitistas, LGBTQI+ fóbicas) tem mantido um apagamento histórico nas produções artísticas de quem não faz parte desse status quo. E aí quando olho para suas artes, vejo como sua abordagem artística caminha para outro lado, porque ela vai falar daquilo que desejam que continue sendo silenciado: que é a vivência amorosa, o pacto de vida de corpas negras, lésbicas, periféricas, decoloniais, dissidentes, da fé do povo de axé. Você acredita que a repercussão da sua arte pode mudar ou sensibilizar essa estrutura tão fechada? Ainda é possível essa mudança? 

Inclusive, aqui em Salvador, onde mesmo a arte que representa a população negra, ou mesmo povo de axé, ainda é dominado e visibilizado por homens brancos como Caribé, Caymmi, Caetano Veloso e demais artistas que tem muito renome. Nisso, a gente não vê abertura para artistas negros estarem falando da sua vivência, do seu povo e sua cultura. Eu acredito muito nessa ideia de aquilombamento. A minha arte sozinha pode não fazer diferença, mas quando artistas negros estão cada dia mais empenhados em mostrar seu trabalho e abordar temas de sua própria cultura – ou como você mesmo disse invisibilizados – acredito que possa haver sim uma mudança. Inclusive, a arte brasileira é Arte Negra, né? Eu acho que a cada dia que passa mais artistas negras estão brotando e estão realmente dando nome e trazendo temáticas diversas sobre como é sentir-se negra. E eu fico muito feliz por hoje poder trazer na memória muitas referências negras das artes e de certa forma estamos refazendo essa história, recontando essa história, e de trazer a memória de muitas artistas que foram apagadas. Muitas que ainda nem conhecemos e estamos conhecendo agora porque sofreram todo esse apagamento do racismo brasileiro. 

Se não for muito incômodo, gostaria que você comentasse sobre uma obra que me toca muito desde a primeira vez que vi. É uma aquarela que me traz um misto de sentimentos toda vez que a vejo, porque tem Iemanjá recebendo flores e ao fundo (embaixo dela) tem um cemitério de crânios no mar. Eu acho uma arte muito potente e queria que você recordasse do momento que ela veio até você: dos sentimentos, da história da produção dessa imagem até o processo de criação e aparição na sua tela. 

Essa obra veio através de uma cacofonia de sentimentos e coisas que eu estava elaborando. Explicitamente é sobre Dois de Fevereiro que é um momento em que toda a cidade e turistas descem a praia do Rio Vermelho para oferendar flores a Iemanjá. E ao mesmo tempo, tem referência a uma fala da Vilma Reis que, talvez eu não saiba reproduzir corretamente, me tocou muito e me fez pensar sobre o Atlântico Negro e a travessia. Ela falou algo como: “Entre nós e a África o que nos aproxima é um grande cemitério”. Então fiquei pensando em todos os ancestrais que não conseguiram atravessar e que findaram no mar e que eu acredito que Iemanjá os acolheu e cuida deles. E sinto que todas essas flores são para eles também. E ela, como intermediadora desses processos, de receber essas oferendas e manter essa memória dos que não chegaram, dos que morreram no caminho, de todo genocídio. Então é uma memória histórica de toda luta, de todo sofrimento e de toda forma de aniquilação das pessoas negras desde essa travessia até os dias atuais. E também da força dos encantados, da força das águas em estar transformando, trazendo cura e renovando toda essa energia porque a água ela é isso: ela acolhe e ela alimenta. 

Já tem alguns anos que você tem participado de algumas residências artísticas e exposições fora do Brasil. Seus trabalhos já passaram por Cuba, Chile, Áustria, Estados Unidos, República Dominicana, França, Alemanha e Colômbia. Como foi a recepção nesses locais e em que muros do mundo você gostaria de ocupar após essa pandemia? O que você tem pensado e planejado para o futuro? 

Viajar para outros países tem sido a maior das minhas realizações porque eu nunca pensei que isso fosse possível. E tem sido muito interessante chegar com minha arte em outros lugares e perceber o olhar do outro, porque a minha arte é muito local e tem um olhar muito específico que em muitos lugares não faz sentindo e precisa de uma legenda para ser compreendida. Por exemplo, na Europa era um processo muito grande em relação a nudez do corpo e por mais que, para eles o corpo branco seja uma coisa aceitável, ver o corpo de mulheres negras e pessoas LGBTQI nuas causava um assombro. Acredito que isso aconteça porque não é o corpo que as pessoas querem ver nuas. Então era sempre necessário ter que justificar e fazer toda uma explicação do meu trabalho e do porquê da nudez. E mesmo para as pessoas afro-europeias que entendiam como uma sexualização do corpo negro e era sempre um processo de novamente estar explicando meu trabalho. O que eu não preciso fazer aqui, porque mesmo que tenhamos muito tabu com o corpo, a recepção do corpo nu é muito diferente pois a gente se vê nesse corpo, tem uma identificação com esse corpo e porque a gente quer que seja visto na arte de uma forma não pejorativa. Então, cada lugar é sempre um desafio diferente em relação a burocracia, em relação à própria estrutura.  

Mas o mais importante acabava não sendo estar expondo ou fazendo oficinas, mas poder conhecer pessoas diferentes e isso muda a forma como a gente vê o mundo, vê as pessoas, amplia nossa mentalidade. E a gente aprende muito, aprendi a lidar com muitos preconceitos, com muita ignorância. O que mais valia a pena foi estar conhecendo narrativas que não chegam até aqui, outras artistas que estão no mundo e fazendo várias coisas legais. Poder trocar, cocriar e pensar juntas. Perceber como estamos pensando algo aqui que está no mesmo fluxo de pensamento de uma pessoa que está na África do Sul. E a gente fica: caralho, como a gente está aqui pensando em algo e tem uma pessoa da África do Sul que está na mesma linha de pensamento!?  

A gente entende que está em uma grande rede energética onde estamos elaborando um futuro, elaborando formas de sobreviver a todo esse caos e nos reinventar. Reinventar para além dessa humanidade branca, buscando outro lugar que ainda não existe e a gente está inventando, tá criando, tá reciclando do que restou de memórias de histórias dos nossos ancestrais. E falando em ancestrais, eu acho que é um assunto global para as pessoas negras, racializadas, indígenas de dar a importância de resgatar essas recordações, esses saberes. Se dando conta que tudo o que os brancos criaram até agora é o que está nos destruindo. Então a gente precisa realmente buscar isso e ir lá no fundo para seguir uma outra história e outro mundo possível .

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Para mais informações sobre Ani Ganzala e seus trabalhos visite @ganzalarts

Alexandra Martins, 36 anos, lésbica. Nasceu em Brasília e já morou em Fortaleza, Juazeiro do Norte e Salvador. Artista interdisciplinar. Tem investigado memórias e identidades nas criações artística de performance, instalação, fotografia e vídeo. É mestra em Estudos de Gênero e Mulheres pela UFBA. Especialista em Estudos Contemporâneos em Dança pela mesma instituição. Especialista em Artes Visuais pelo SENAC-DF.Graduada em Comunicação, Jornalismo. De 2010 a 2012 integrou o grupo de pesquisa em performance Corpos Informáticos e fez parte da coletiva Tete a Teta. De 2015 a 2018 fez parte da Feminaria Musical, Grupo de Pesquisa em Experimentos Sonoros. 

Dendê: partilha pedagógica e poética diaspórica em processo

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Queridas,

deixo aqui o link para acessar e fazer download da minha monografia em Artes Visuais. O trabalho é sobre minha pesquisa poética, que se dá a partir da relação entre corpo negro e memória diaspórica, e as possibilidades pedagógicas que ela traz. São abordadas questões como memória, candomblé, cartografia como metodologia e estratégias de artistas negrxs na recontação de nossas histórias.

Nina Ferreira.

Entrevista com Zanele Muholi sobre exposição “fragmentos de uma nova história”

Entrevista com fotógrafa sul africana

(audio em inglês e Legenda em espanhol)

Zanele Muholi

série de fotografias da artista exposta na 29ª bienal de São Paulo.

Faces e fazes: I

Declaração da artista

Há um sentido entre Faces e Fazes e porque o projeto enfoca essas duas palavras.

Eu decidi capturar imagens da minha comunidade para contribuir para uma história homosexual sul africana mais democrática e representativa. Até 1994, nós, como lésbicas negras, eramos excluídas de participar na criação de um movimento queer formal e nossas vozes estavam faltando nas páginas das publicações gays, enquanto ativistas gays brancos dirigiam o movimento e escreviam sobre as questões e batalhas gays. Portanto, poucas de nós estavam presentes na linha de frente, mas muitas operavam às ocultas.

Eu embarquei emu ma jornada de ativismo visual para assegurar que haja visibilidade de lesbicas negras, para mostrar nossa existência e resistência nessa sociedade democrática, para apresentar imagens positivas de lesbicas negras.

Aparte da definição do dicionário do que seja uma “face” (a frente da cabeça, da testa ao queixo), a face também expressa a pessoa. Para mim, Faces significa eu, fotógrafa e trabalhadora em comunidade, estanto face a face com várias lesbicas com as quais interaji em diferentes municípios como Alexandra, Soweto, Vosloorus, Kathehong, Kagiso…

Em cada município há lésbicas vivendo abertamente independente do estigma e homofobia ligados a sua identidade lesbiana, ambas butch e femme. Na maior parte do tempo ser lésbica é visto como negativo, como destruidor da família nuclear heterosexual; para muitas lésbicas negras, o estigma da identidade queer surge do fato de a homossexualidade ser vista como não-africana. As expectativas são de que mulheres africanas têm de ter filhos e procriar com um parceiro, o chefe da família. Isso é parte da “tradição Africana”.

Ao não nos conformarmos com essas expectativas, somos percebidas como desviantes, precisando de um “estupro corretivo” para apagar nossa atitude masculina e nos tornar verdadeiras mulheres, fêmeas, mães, propriedade de homens.

As pessoas nesta série de fotografias têm diferentes posições e papéis na comunidade de lésbicas negras: jogadoras de futebol, atrizes, acadêmicas, ativistas culturais, advogadas, dançarinas, cineastas, ativistas de direitos humanos/gênero. No entanto, cada vez que somos representadas por outras pessoas, somos apenas vistas como vítimas de estupro e homofobia. Nossas vidas são sempre sensacionalizadas, raramente compreendidas. Esta é a razão para Fazes: nossas vidas não são apenas o que fazem as manchetes de jornais cada vez que somos atacadas. Nós passamos por diversos estágios, expressamos diversas identidades que se desdobram paralelamente em nossa existência.

Da perspectiva de alguém do grupo, esse projeto destina-se a comemorar e celebrar as vidas das lésbicas negras que conheci em minhas jornadas pelos municípios. Vidas e narrativas são contadas com dor e alegria, já que algumas dessas mulheres estavam passando dificuldades em suas vidas. Suas histórias me renderam noites sem dormir já que eu não sabia como lidar com as necessidades urgentes das quais era informada. Muitas delas tinham sido violentadas; eu não queria que a câmera fosse outra violação; ao invés, eu queria estabelecer relacionamentos com elas baseado em nosso entendimento mútuo do que significa ser mulher, lésbica e negra na Africa do Sul hoje.

Eu chamo esse método o nascimento do ativismo visual: eu decidi usar ele para marcar nossa resistência e existência como lésbicas negras em nosso país, porque é importante por uma face em toda e cada questão.

Faces e Fazes é sobre nossas histórias, lutas e vidas neste queer planeta mãe: nós vamos enfrentar nossas experiencias independente do que sejam, e ainda assim continuaremos seguindo em frente.

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esse texto é uma tradução de Faces & Phases: I encontrado no site da artista: http://www.zanelemuholi.com/photography.htm

Aproveite e assine a petição para pedir uma ação do governo sul africano contra “estupro corretivo”: https://secure.avaaz.org/po/stop_corrective_rape/?cl=922933207&v=8260

Claude Cahun

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Nasceu em Nantes, França, em 1894 e faleceu em 1954.

Misture as cartas. Masculino? feminino? Depende do caso. Neutro é o único gênero que me cabe. Se existisse na nossa linguagem não haveria essa ambigüidade no meu pensamento. Eu seria uma abelha trabalhadora de uma vez por todas. – Claude Cahun em avec non avenus, 1930.

Claude Cahun foi umx artista um tanto distintx, que escolheu esse nome justamente por sua ambigüidade de gênero.  Originalmente chamadx Lucy Renée Mathilde Schwob, elx passou por Claude Courlis e Daniel Douglas até escolher o nome com que ficou mais conhecidx. Exatamente por essa escolha e pela dúvida gerada em torno de sua identidade de sexual e de gênero (algumas pessoas x consideram transexual FTM  e outras a consideram uma mulher lésbica que brincava com os gêneros) que escolhi tirar desse texto as desinências de gênero, substituindo-as por x.

Filhx de uma mulher com transtornos mentais, Cahun foi criadx pela avó, Mathilde Cahun, e desde 1912, com 18 anos, trabalhou com auto-retratos em que assumia identidades distintas. No início dos anos 20, elx foi para Paris com sua parceira e quase-irmã (os pais se casaram) com a qual se relacionou durante toda a vida, Suzanne Malherbe. Suzanne colaborou com Claude em diversos trabalhos escritos, esculturas e fotomontagens, adotando o também ambíguo nome Marcel Moore. A respeito de hetero e homossexualidade Cahun diz o seguinte:

“Minha opinião sobre homossexualidade e homossexuais é exatamente a mesma que a minha opinião sobre heterossexualidade e heterossexuais. Tudo depende dos indivíduos e das circunstâncias. Eu reivindico uma liberdade geral de comportamento”. Calude Cahun, 1925.

Em 1932 Cahun entrou para a Association des Ecrivains et Artistes Révolutionnaires [Associação de Escritores e Artistas Revolucionários] onde conheceu André Breton e René Crevel e começou a se associar ao grupo surrealista. Elx participou de diversas exposições surrealistas, como London International Surrealist Exhibition [Exposição surrealista internacional de Londres] e Exposition surréaliste d’Objets [exposição surrealista de objetos], em Paris.

Claude Cahun e Marcel Moore se mudaram para Jersey em 1937 e, com a ocupação da Alemanha nazista, o casal ia para eventos militares colocando panfletos anti-guerra estrategicamente nos bolsos do oficiais, em seus acentos, carros e janelas. Esses panfletos, no geral, eram feitos a partir de relatórios da rádio BBC com as atrocidades cometidas pelos nazistas, traduzidos do alemão, recortados e montadas como poemas altamente críticos. A dupla foi presa e ambxs condenadas a morte e, embora a sentença não tenha sido executada, a saúde de Cahun ficou bem debilitada durante a prisão e elx acabou falecendo em 1954. Seu corpo está enterrado ao lado do de sua parceira.

O trabalho escrito de Cahun inclui uma série de artigos e ensaios publicados em revistas e jornais da época, além de livros como Avec non avenus” (1930), com  registros de sonhos e ensaios, ilustrado com fotomontagens , e “Heroines” (1925), que contém uma coletânea de monólogos de personagens femininos mal-compreendidos de contos-de-fada, como Judith, Sappho, Cinderela e Eva. De acordo com Cahun o “Feminismo já está nos contos-de-fada”. Moore, que era artista gráfica, fez as ilustrações desse livro, como a que se encontra ao lado.

O trabalho mais conhecido dx artista são as fotografias em que elx se retrata ora de forma andrógena,  ora mais marcadamente masculina ou feminina. Ao contrário dos outros componentes do grupo surrealista parisiense que retratavam mulheres como símbolo do erotismo, Claude explorava diversas versões do feminino, diversas formas de existir. Tratar de política, ser judia,  transitar por gêneros e possuir uma sexualidade não-normativa além de trabalhar uma poética trans parece ter lhe rendido um empurrão para fora da história da arte.

Tauana M.

Fontes:

Guerrilla Girls. The Guerrilla Girls’ Bedside Companion to the history of western art. Penguin, 1998.

http://fotoclubef508.wordpress.com/2009/03/29/claude-cahun/ (português)

http://www.all-art.org/art_20th_century/cahum1.html (inglês)

http://www.queerculturalcenter.org/Pages/Tirza/TirzaEssay1.html (inglês)

http://www.answers.com/topic/claude-cahun (inglês)

Claudia Wonder

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Diva ícone trans do Brasil: atriz, performer, cantora, escritora e ativista LGBT+ .Wonder foi vocalista de banda punk, aprensentando-se no lendário clube underground Madame Satã, com o show “Vômito do Mito”. Neste, ficava nua, usando apenas uma máscara diabólica em uma banheira de groselha e a espirrava no público. O show e a performance habitam o imaginário e a memória do underground paulistano até hoje.
Lançou o livro “Olhares de Claudia Wonder”, reunião de textos seus na revista G Magazine e o CD “FUNKYDISCOFASHION” com os Laptop Boys. Recentemente foi também lançado o documentário “Meu Amigo Cláudia” de Dácio Pinheiro* que conta a trajetória de Wonder em paralelo à abertura política que se deu no país na década de 80.


Chegamos eu e um amigo no hotel em que estava hospedada, por conta da participação no evento “Stonewall 40 mais o que no Brasil?”. Ela nos recebeu gentilmente e nos ofereceu alguma coisa para beber, estava tomando energético para se preparar para o seu show logo mais. No quarto de hotel sentamos em duas cadeiras. Sobre a mesa: batons, rímel, espelho e outros produtos de beleza. Começamos a conversar, falei um pouco de como surgiu a idéia blogue* e qual a proposta dele. Cláudia me perguntou se era algo como um blogue queer, ao que respondi que sim, dizendo que é também feminista.

Começamos a entrevista, enquanto falava comigo maquiava-se, vez ou outra parando o que estava fazendo de forma a olhar direto para mim, de modo firme e penetrante. Seu tom enfático e seus gestos colaboram para a impressão que tive dela: forte, convicta, acessível e admirável. Parecia tão presente que eu quase não podia deixar de olhá-la nos olhos. Emocionou-se ao relembrar a sua trajetória e me respondeu com gosto e paciência. Antes de irmos, ela nos mostrou a boneca de barro que comprou, toda feliz. Mais feliz saí eu dali.

Fissura: Você é atriz, performer, cantora, escritora, enfim, artista multimídia, militante, atua em diversas áreas.

Claudia Wonder: Total!

F: Tem alguma de sua preferência?

CW: Se eu tenho preferência? Tenho. Eu gosto mais de fazer cinema. Eu tenho algumas experiências com cinema, eu gosto do clima, da direção, da própria espera do cinema, do resultado do cinema. O cinema é um lugar mágico. Você entra na história mesmo e é como se você estivesse dentro de uma caixa de ilusão, né?E tudo que envolve, todo o resto: a première o glamour…Acho fantástico.

F: Em que está trabalhando no momento?

CW: Hoje eu estou aqui trabalhando. Amanhã tenho que ir embora cedinho, porquê vou trabalhar, vou participar de uma palestra. Também vou estar trabalhando. Eu dou consultoria para atores e atrizes quando vão representar transexuais ou travestis. Inclusive, a última foi a Carolina Ferraz, que está se preparando para um filme aonde ela vai fazer uma transexual. Recebi um convite agora da Letícia Spiller que vai fazer uma travesti. Tudo isso é trabalho, né?

CW: Você assistiu ao meu filme?

F: Claro.

CW: Então, a Europa me deu uma renda, então financeiramente eu tenho uma renda com que eu posso viver, não com muitos gastos, mas tranquila. Esse é o meu trabalho. Não dá pra falar “com o que eu trabalho agora”. Sou multimídia. Aí me chamam pra fazer uma ponta no cinema, eu vou lá. O último foi agora a sequência do Bandido da Luz Vermelha, de direção da Helena Ignez. Enfim, eu vou fazendo…Escrevo, e me chamam pra escrever para um site, ou para uma revista feminina pra escrever um artigo sobre transexuais e etc.Então é assim, não tenho um trabalho certo, estou trabalhando mas nunca sei direito aonde vou atuar, digamos assim.Eu fiquei quase dois anos no Centro de Referência da Diversidade e depois fiquei mais alguns meses numa ONG chamada Casarão Brasil, lá em São Paulo. Acho que não é a minha.. A minha realmente é o palco, estar atuando, escrevendo, falando…O que eu sempre fiz, na minha vida inteira, né? Se você quer saber assim qual a minha fonte de renda, eu tenho essa “aposentadoria”.

Fora isso eu sou a síndica do meu prédio e sou remunerada pra isso. Assim a gente vai levando, né? Mas muito bem, sou uma pessoa feliz nesse sentido. Tenho CD, tenho livro aí está sempre pingando no banco. Espero que isso continue!(risos)

F: Quais artistas (artes visuais, música, artes cênicas e etc) você admira ou que de alguma forma te influenciaram/inspiraram em seus diversos trabalhos ou te inspiraram ao longo da vida?

CW: Isso aí vai mudando de acordo com a época. Quando você é adolescente, você tem alguns ícones, né? Por exemplo, quando eu era adolescente era a Rogéria, que como travesti era o meu ideal: artista, bem sucedida, enfim, bacana. A Rogéria é bacana. Depois nas minhas apresentações teve Marilyn Monroe, Judy Garland, Liza Minnelli, que era a minha fase do transformismo, em que eu fazia aquelas imitações então elas eram os meus ícones. Carmen Miranda também. Acho que tudo isso passa pela cultura gay. Depois as coisas vão mudando, né? Aí tem… Ai, Clarice Lispector. Ao longo da vida você vai amadurecendo e vai conhecendo outras coisas.

F: Como seu trabalho mudou também, seu trabalho musical foi do punk rock pra essa mistura de estilos do último CD, não é?

CW: Sim. Aí depois teve a fase do rock, tinha a Patti Smith, o Lou Reed. Nao é que “tinha”, todo esse pessoal continua no meu cenário, na minha
ideologia, em algum lugar eles estão ali, na minha fantasia. Eles não desapareceram, porque eles me ajudaram a criar essa personalidade, essa identidade, essa pessoa que eu sou.

F: O seu trabalho é extremamente político, essa é uma pergunta que não poderia faltar: Como você vê a relação entre arte e militância?

CW: Infelizmente eu vejo muito distante, o que devia ser muito mais próximo. Na questão GLBT eu acho muito distante, na cultura. E é pela cultura que eu acredito que a gente pode mudar a consciência de uma sociedade, de um povo. Pela educação, pela vivência. Não adianta você criar uma lei, aquela lei pode ser respeitada, mas em casa, será que o cara, o pai que respeita a lei na rua vai estar dando o mesmo exemplo? Ou em casa ele vai falar: viado, entendenu? Sapatão. No entanto se você pegar essa pessoa e colocar ele por exemplo no teatro do oprimido com certeza ele vai mudar. Fazer ele vivenciar um travesti, fazer ele vivenciar com a carga dramática, sentindo na pele. Aí ele vai mudar. Então eu acho que é só a cultura e a educação realmente que podem mudar. Não adianta só fazer leis. E infelizmente a arte está bem distante do movimento. Haja visto os editais de cultura GLBT, foi mínima, foi inexpressiva a quantidade de pessoas que inscreveram projetos, né?

F: Você pode contar um pouco de como foi a experiência de ter um filme feito sobre a sua história, o “Meu Amigo Cláudia”? 

CW: Em que sentido?

F: Nos mais diversos possíveis.  Ele (o diretor) passou anos recolhendo materiais, fotos, vídeos. Como é que foi ver o material todo editado, tudo prontinho?

CW: A primeira vez que eles me mostraram eu chorei o dia inteiro. Eu e um amigo meu. Não sabia direito porque tanta emoção, né? Depois estreou, teve a première mundial em São Francisco e foi assim, sensacional lá nos Estados Unidos…Um acolhimento, uma coisa maravilhosa! Aí quando começam a fazer perguntas sobre a sua vida a partir do filme e você começa a prestar atenção no teu sofrimento a partir da experiência das outras pessoas, você começa a ver teu próprio sofrimento de outra maneira. Por que às vezes você sofre e não acha que aquilo te abalou tanto, que aquele acontecimento mexeu tanto com você e no entanto ele mexeu bastante. Com outras pessoas poderia ser muito pior, entendeu? Aí eu tive uma depressão, quando eu comecei a ver por esse ângulo ou a sentir o quanto eu já tinha passado, o quanto podia ser diferente, né? E depois é só satisfação, porque, principalmente os jovens chegam dizendo: nossa, você me deu um gás pra continuar, para eu me assumir, pra eu tomar uma decisao na minha vida. Isso tanto gays como não gays. Ai isso é uma satisfação muito grande.

Ana C. – Entrevista e Edição de Imagem.

Referências/+Informações:

*Mais informações em “Sobre nós”.

My Space de Cláudia Wonder & The Laptop Boys

Trailer de “Meu Amigo Cláudia

Clipe da música “Atendimento”

Agradecimentos

Caio Sá Telles – Fotografia

Tess Chamusca

Rodrigo de Araujo

Frida Kahlo

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Lembrança

Eu sorria. De repente, porém, eu soube

Na profundeza do meu silêncio

Que ele me seguia. Como minha sombra, leve e sem culpa.

Na noite uma canção soluçou…

Os índios se estendiam, como serpentes, pelas vielas da cidade.

Uma harpa e uma jarana eram a música, e as morenas sorridentes

Eram a felicidade.

Ao fundo, atrás do “Zólaco”, o rio cintilava

e escurecia, como

os momentos de minha vida.

Ele me seguia.

Acabei chorando, isolada no pórtico da

Igreja paroquial,

Protegida por meu xale de bolita, encharcado por minhas lágrimas.

(Frida Kahlo. Poema publicado por El Universal Ilustrado)

     Frida Kahlo nasceu no México, no dia 6 de julho de 1907 (Muito embora, por forte identificação com a Revolução Mexicana, sempre tenha afirmado ter nascido em 1910).

    Com diversos problemas de saúde, teve de lidar com o sofrimento desde muito cedo e, por causa de um acidente de trem, teve de ficar acamada durante um longo tempo, submeter-se a várias cirurgias e usar coletes  que percorriam toda sua coluna.

    Foi durante o período em que esteve acamada que começou a pintar com freqüência, utilizando o material de seu pai, um cavalete que foi feito para se adaptar à cama e aproveitando-se do espelho que sua mãe instalara sobre sua cama.
Assim sendo, Frida começou pintando auto-retratos: “Pinto-me por que estou muitas vezes sozinha e por que sou o assunto que conheço melhor”. E esse processo, de pintar a si, se mantém como uma coluna vertebral em suas obras.

     Aos 22 anos, na mesma época em que aproxima-se do Partido Comunista, casa-se com o pintor Diego Rivera, o qual aparecerá em diversos momentos em suas pinturas. Viajou para diversos países acompanhando Diego e convivendo com vários intelectuais e artistas.      Conhece André Breton e em novembro de 1938 realiza sua primeira exposição individual na Juien Levy Gallery, em Nova York. Depois de conhecer seu trabalho André Breton o reconheceu como surrealista, mas Frida não concordava: “Pensaram que eu era surrealista mas nunca fui. Nunca pintei sonhos, só pintei a minha própria realidade”. E também não se afeiçoou aos surrealistas que conheceu no meio artístico parisiense, como escreve a Nickolas Muray: “São tão desprezivelmente ‘intelectuais’ e podres que já não os consigo suportar.”.  Atrás de um desenho intitulado “Fantasia (I)”, escreveu: “Surrealismo é a surpresa mágica de encontrar um leão num guarda-roupa, onde tínhamos a certeza que encontraríamos camisas”.

     Em abril de 1953 realiza sua única exposição individual no México na Galería Del Arte Contemporáneo, para a qual vai literalmente “de cama” (carregada até a galeria) como o recomendado pelo médico, uma vez que já estava fisicamente muito debilitada e no mesmo ano tem a perna direita amputada por conta de uma gangrena. No ano seguinte é hospitalizada com broncopneumonia e falece no dia 2 de Julho.

    Um ano após sua morte, Rivera legou a Casa Azul (onde viveram) ao Estado do México para se tornar um museu, inaugurado como Museo Frida Kahlo em 1958.

    As obras de Frida têm um caráter existencial e autobiográfico, evidenciado não apenas pela maioria de auto-retratos, mas pela forte presença de imagens relacionadas à questão identitária mexicana: motivos  da cultura tradicional, papagaios, macacos, a familiaridade com a morte constantemente presentes.

Ela se utiliza de cores fortes e vívidas e também opacas e terrosas como no “Retrato de Luther Burbank” (ao lado).  A conexão de Frida com a terra é muito explícita e seu diálogo com esta e com a morte é constante .  Além da própria realidade, interna e externa, um forte tema de seu trabalho é Diego Rivera, retratado diversas vezes como um bebê que ela segura amorosa e possessivamente nos braços, demonstrando a complicada relação de dependência que Frida traçara com ele. O aborto também é tema do trabalho da artista (que sofreu um aborto espontâneo e nunca teve filhxs). Também o cão Itzcuintli ( o cão mítico mexicano que guarda o reino dos mortos) aparece em seu trabalho ( “Auto-Retrato com o Cão Itzcuintli” e “O Abraço Amoroso entre o Universo, a Terra (México), Eu, o Diego, e o Sr. Xólotl” – abaixo).

Algo de muito marcante nas imagens de Frida é que, embora a carga emocional seja muito presente, as personagens retratadas raramente têm uma expressão facial que não a da placidez diante da realidade.

     Ao observar os trabalhos e a biografia da artista,  é possível perceber uma produção intrincada com seu universo psíquico e com toda sua herança cultural.

Nina Ferreira.

Fontes:
ZAMORA,Martha : Cartas Apaixonadas de Frida Kahlo
KETTENMANN, Andrea: Frida Kahlo 1907-1954 Dor e Paixão
http://www.fkahlo.com/ (espanhol).

Romaine Brooks

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Nasceu em Roma, em 1º de maio de 1874, e faleceu em Nice, em 1970.

A infância de Romaine Brooks não foi das mais tranquilas,  em grande parte por conta de sua excêntrica mãe, que a abandou aos 6 ou 7 anos em Nova Iorque, onde foi acolhida pela lavadeira que trabalha para sua família. Com ela Brooks viveu em pobreza até que fosse apanhada pela secretária que trabalhava para seu avô. Foi por conta dessa conturbada infância que ela começou a desenhar, possivelmente como uma válvula de escape.

Após estudar em escolas de diferentes cidades, foi para Paris estudar voz e, em 1896-97, foi para Roma estudar artes. Lá, Brooks tinha seu próprio estúdio e participava do Circulo Artístico e da Scuola Nazionale, onde era a única mulher dentre os estudantes e uma das primeiras a poder desenhar nus masculinos com modelo vivo.

Após a morte de seu irmão e sua mãe, a artista ganhou uma enorme herança e casou-se com John Ellingham Brooks, conhecidamente homossexual, com quem a artista ficou por pouco mais de um ano, quando ele não aceitou que ela cortasse o cabelo e usasse roupas masculinas (como em seu auto-retrato ao lado). Ela foi então para Inglaterra onde integrou e retratou a elite homossexual da época, incluindo a escritora Natalie Clifford Barney, com quem Brooks foi casada por cerca de quarenta anos.

A pintura de Brooks é marcada principalmente pelo uso do preto, o branco e os tons de cinza, além das influências da art nouveau e simbolismo. Os retratos foram muito bem recebidos em sua primeira exposição solo em 1910, com suas figuras andrógenas e elegantes.

Seus desenhos produzidos na década de 30, com linhas precisas e contínuas, são expressões da infância da artista que continuava pesando sobre seus ombros. As figuras de pessoas, monstros e seres alados são frequentemente representados de forma interligada, numa espécie de massa onde agressores e agredidos se misturam. Em The Impeders, por exemplo, vemos uma espécie de cavalo alado misturado com uma mulher tentar alçar vôo ao mesmo tempo em que  duas figuras humanas (sua mãe e seu irmão?) os seguram no chão.

Brooks parou de produzir após a Segunda Guerra, quando foi ficando cada vez mais reclusa e recebendo vistas apenas de Barney por um bom tempo, até, por fim, não receber mais ninguém. Neste período, já paranóica, ela acreditava que estariam roubando seus desenhos, que o choffeur queria envenená-la e que as plantas lhe sugariam toda a energia. Brooks morreu aos 96 anos de idade.

Tauana M.

Fontes:

http://www.answers.com/topic/romaine-brooks (em inglês)

http://www.romainebrooks.com/ (em inglês)

HARRIS, Ann Sutherland; NOCHLIN, Linda. Women artists: 1550-1850. Los Angeles County Museum os Art: Nova Iorque, 1977.