Marjane Satrapi

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 Nasceu em Rasht, no Irã, em 1969; vive e trabalha na França

Marjane Satrapi, que tem como nome de nascimento Marjane Eibihamis, é ilustradora, quadrinista, escritora, roteirista e diretora de cinema, e tem como seu trabalho mais conhecido a clamada animação Persépolis. A animação é uma adaptação dos livros de História em Quadrinhos homônimo, onde a autora conta sua história desde a infância até o início da vida adulta. A mudança radical ocorrida no Irã com a queda do Xá e instauração do regime teocrático é narrada pelos olhos de uma criança que cresceu numa casa de livre pensadores e que tem conversas com deus.

Na sua adolescência, com o país em guerra, os pais acham melhor mandá-la para o exterior, onde entra em contato com uma cultura diferente e passa por diversas dificuldades, chegando até a viver nas ruas e enfrentar uma séria crise de pneumonia. Depois de alguns anos na Áustria ela retorna ao Irã, supera uma depressão, se casa, se separa e cursa artes na universidade. Durante toda a história são estampadas as questões identitárias pelas quais Marjane passa no decorrer dos anos e acabamos conhecendo um pouco dessa cultura que nos parece tão distante.

Os desenhos são minimalistas e ao mesmo tempo bastante expressivos, características que permaneceram na animação. Mais recentemente, em 2011, foi realizado uma outra produção cinematográfica em que Marjane  Satrapi escreveu o roteiro e dirigiu juntamente com Vicente Paronnaud (assim como Persepolis), chamado Frango com Ameixas. Mais uma vez um de seus livros de HQ foi transformado em cinema.

Várias das histórias da artista são auto-biográficas e carregadas de pontos de reflexão sobre identidade, sobre relações entre ocidente e oriente, sobre ser mulher e mesmo sobre o que se passa politicamente no Irã e em países europeus onde viveu ou vive, e tudo isso de forma bastante fluida.

Acredito que o pequeno livro HQ “Bordados” também mereça atenção por se tratar de uma conversa entre mulheres de diferentes gerações. Mesmo sendo mulheres que vivem numa cultura em muitos aspectos distante da nossa é possível se imaginar com facilidade tendo um momento semelhante com avós, mães, tias, primas e filhas, conversando sobre sexualidade, sobre os próprios corpos, os relacionamentos e sobre como é ser mulher.

Além dos já comentados títulos “Persépolis”, “Frango com Ameixas”, Bordados”,  é possível encontrar em português  “Os monstros não gostam da lua” e “Ajidar – O dragão da terra”, ambos infantis.

Tauana M.

Links:
http://www.imdb.com/name/nm2277869/
http://pt.wikipedia.org/wiki/Marjane_Satrapi
http://www.duplipensar.net/materias/2003-08-satrapi.html

Algumas histórias esquecidas

 

Ressurreição de Camille

A família declarou-a louca e meteu-a num manicômio.
Camille Claudel passou ali, prisioneira, os últimos trinta anos de sua vida.
Foi para o seu bem, disseram.
No manicômio, cárcere gelado, se negou a desenhar e a esculpir.
A mãe e a irmã jamais a visitaram.
Uma ou outra vez seu irmão Paul, o virtuoso, apareceu por lá.
Quando Camille, a pecadora, morreu, ninguém clamou seu corpo.
Anos levou o mundo até descobrir que Camille não tinha sido apenas a humilhada amante de Auguste Rodin.
Quase meio século depois de sua morte, suas obras renasceram e viajaram e assombraram: bronze que baila, mármore que chora, pedra que ama. Em tóquio, os cegos pediram licença para apalpar as esculturas. Puderam tocá-las. Disseram que as escultyras respiravam.

Desalmadas

Aristótoles sabia o que dizia:
A fêmea é como um macho deformado. Falta-lhe um elemento essencial: a alma.
As Artes plásticas eram um reino proibido aos seres sem alma.
No século XVI, havia em Bolonha 524 pintores e uma pintora.
No século XVII, na Academia de Paris, havia 435 pintores e quinze pintoras, todas esposas ou filhas dos pintores.
No século XIX, Suzanne Valadon foi verdureira, acrobata de circo, modelo de Toulouse-Lautrec. Usava espartilhos feitos de cenouras e dividia o estúdio com uma cabra. Ninguém se surpreendeu que ela fosse a primeira artista a se atraver a pintar homens nus. Tinha de ser uma doida.
Erasmo de Rotterdam sabia o que dizia:
– Uma mulher é sempre mulher, quer dizer: louca.

Eles são elas

Em 1847, três romances comoveram os leitores ingleses.
O morro dos ventos uivantes, de Ellis Bell, conta uma devastadora história de amor e vingança. Agnes Grey, de Acton Bell, despe a hipocrisia da instiuição familiar. Jane Eyre, de Currer Bell, exalta a coragem de uma mulher independente.
Ninguém sabe que os autores são autoras. Os irmãos Bell são as irmãs Brontë.
Essas frágeis virgens, Emily, Anne, Charlotte, aliviam a solidão escrevendo poemas e romances num povoado perdido nos páramos de Yorkshire. Intrusas no masculino reino da literatura, puseram máscaras de homens para que os críticos perdoem seu atrevimento, mas os críticos maltratam suas obras rudes, cruas, grosseiras, selvagens, brutais, libertinas…

Noites de Harém

A escritora Fátima Mernissi viu, nos museus de Paris, as Odaliscas turcas pintadas por Henri Matisse.
Eram carne de harém: voluptuosas, indolentes, obedientes.
Fátima olhou a data dos quadros, comparou, comprovou: enquanto Matisse as pintava assim, nos anos 20 e 30, as mulheres turcas se tornavam cidadãs, entravam na universidade e no Parlamento, conquistavam o divórcio e arrancavam os véus.
O harém, prisão de mulheres, havia sido proibido na Turquia, mas não na imaginação européia. Os virtuosos cavalheiros, monógamos na vigília e polígamos no sonho, tinham entrada livre naquele exótico paraíso, onde as fêmeas, bobas, mudas, ficavam felizes ao dar prazer ao macho carcereiro. Qualquer burocrata medíocre fechava os olhos e se transformava, no ato, em um poderoso califa, acariciando a multidão de virgens nuas que, dançando a dança do ventre, suplicavam a graça de uma noite ao lado de seu dono e senhor.
Fátima tinha nascido e crescido num harém.

Proibido Cantar

Desde o ano 1234, a religião católica proibiu que as mulheres cantassem em igrejas.
As mulheres, impuras por herança de Eva, sujavam a música sagrada, que só podia ser entoada por meninos varões ou homens castrados.
A pena de silêncio regeu, durante sete séculos, até princípios do século XX.
Poucos anos antes que lhes fechassem a boca, lá pelo século XII, as monjas do convento de Bingen, nas margens do Reno, ainda podiam cantar livremente a glória do Paraíso. Para boa sorte dos nossos ouvidos, a música litúrgica criada pela abadessa Hildegarda, nascida para elevar-se em vozes de mulher, sobreviveu sem que o tempo a tenha gasto nem um pouquinho.
Em seu convento de Bingen, e em outros onde pregou, Hildegarda não fez só música: foi mística, visionária, poeta e médica estudiosa da personalidade das plantas e das virtudes curativas da água. E também foi a milagrosa fundadora de espaços de liberdade para suas monjas, contra o monopólio masculino da fé.

 

 

 

As histórias transcritas aqui foram retiradas do livro “Espelhos: uma história quase universal” escrito por Eduardo Galeano, publicado no Brasil pela editora L&PM. O livro conta diversas histórias apagadas ou silenciadas pela História Oficial. Para quem se interessar, é um ótimo livro!

 

Claude Cahun

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Nasceu em Nantes, França, em 1894 e faleceu em 1954.

Misture as cartas. Masculino? feminino? Depende do caso. Neutro é o único gênero que me cabe. Se existisse na nossa linguagem não haveria essa ambigüidade no meu pensamento. Eu seria uma abelha trabalhadora de uma vez por todas. – Claude Cahun em avec non avenus, 1930.

Claude Cahun foi umx artista um tanto distintx, que escolheu esse nome justamente por sua ambigüidade de gênero.  Originalmente chamadx Lucy Renée Mathilde Schwob, elx passou por Claude Courlis e Daniel Douglas até escolher o nome com que ficou mais conhecidx. Exatamente por essa escolha e pela dúvida gerada em torno de sua identidade de sexual e de gênero (algumas pessoas x consideram transexual FTM  e outras a consideram uma mulher lésbica que brincava com os gêneros) que escolhi tirar desse texto as desinências de gênero, substituindo-as por x.

Filhx de uma mulher com transtornos mentais, Cahun foi criadx pela avó, Mathilde Cahun, e desde 1912, com 18 anos, trabalhou com auto-retratos em que assumia identidades distintas. No início dos anos 20, elx foi para Paris com sua parceira e quase-irmã (os pais se casaram) com a qual se relacionou durante toda a vida, Suzanne Malherbe. Suzanne colaborou com Claude em diversos trabalhos escritos, esculturas e fotomontagens, adotando o também ambíguo nome Marcel Moore. A respeito de hetero e homossexualidade Cahun diz o seguinte:

“Minha opinião sobre homossexualidade e homossexuais é exatamente a mesma que a minha opinião sobre heterossexualidade e heterossexuais. Tudo depende dos indivíduos e das circunstâncias. Eu reivindico uma liberdade geral de comportamento”. Calude Cahun, 1925.

Em 1932 Cahun entrou para a Association des Ecrivains et Artistes Révolutionnaires [Associação de Escritores e Artistas Revolucionários] onde conheceu André Breton e René Crevel e começou a se associar ao grupo surrealista. Elx participou de diversas exposições surrealistas, como London International Surrealist Exhibition [Exposição surrealista internacional de Londres] e Exposition surréaliste d’Objets [exposição surrealista de objetos], em Paris.

Claude Cahun e Marcel Moore se mudaram para Jersey em 1937 e, com a ocupação da Alemanha nazista, o casal ia para eventos militares colocando panfletos anti-guerra estrategicamente nos bolsos do oficiais, em seus acentos, carros e janelas. Esses panfletos, no geral, eram feitos a partir de relatórios da rádio BBC com as atrocidades cometidas pelos nazistas, traduzidos do alemão, recortados e montadas como poemas altamente críticos. A dupla foi presa e ambxs condenadas a morte e, embora a sentença não tenha sido executada, a saúde de Cahun ficou bem debilitada durante a prisão e elx acabou falecendo em 1954. Seu corpo está enterrado ao lado do de sua parceira.

O trabalho escrito de Cahun inclui uma série de artigos e ensaios publicados em revistas e jornais da época, além de livros como Avec non avenus” (1930), com  registros de sonhos e ensaios, ilustrado com fotomontagens , e “Heroines” (1925), que contém uma coletânea de monólogos de personagens femininos mal-compreendidos de contos-de-fada, como Judith, Sappho, Cinderela e Eva. De acordo com Cahun o “Feminismo já está nos contos-de-fada”. Moore, que era artista gráfica, fez as ilustrações desse livro, como a que se encontra ao lado.

O trabalho mais conhecido dx artista são as fotografias em que elx se retrata ora de forma andrógena,  ora mais marcadamente masculina ou feminina. Ao contrário dos outros componentes do grupo surrealista parisiense que retratavam mulheres como símbolo do erotismo, Claude explorava diversas versões do feminino, diversas formas de existir. Tratar de política, ser judia,  transitar por gêneros e possuir uma sexualidade não-normativa além de trabalhar uma poética trans parece ter lhe rendido um empurrão para fora da história da arte.

Tauana M.

Fontes:

Guerrilla Girls. The Guerrilla Girls’ Bedside Companion to the history of western art. Penguin, 1998.

http://fotoclubef508.wordpress.com/2009/03/29/claude-cahun/ (português)

http://www.all-art.org/art_20th_century/cahum1.html (inglês)

http://www.queerculturalcenter.org/Pages/Tirza/TirzaEssay1.html (inglês)

http://www.answers.com/topic/claude-cahun (inglês)