Pílula: Rosa Luz

Em homenagem ao dia da visibilidade trans – 29 de janeiro – trazemos o trabalho da artista multimídia do Distrito Federal Rosa Luz com uma canção/poema e uma performance. Os vídeos estão disponíveis também em seu canal de youtube, o Barraco da Rosa, onde além de publicar trabalhos artísticos e discutir temas diversos ela fala sobre sua vivência de mulher negra, trans e da periferia.

 

 

 

Conheça mais em:
https://www.facebook.com/rosaluzoficial
https://www.youtube.com/channel/UCCX7dUMgO8_ORxWQ4PU4ISA
https://catracalivre.com.br/geral/cidadania/indicacao/rosa-luz-mulher-negra-trans-periferica-e-dona-de-si/

Rosana Paulino

Rosana Paulino é artista plástica e educadora brasileira, investigando em sua obra questões ligadas a gênero e raça, especialmente com o tema da mulher negra no Brasil.  A artista costuma utilizar técnicas e objetos tradicionalmente ligados ao universo feminino das artes aplicadas, vistas como domésticas e, portanto, femininas, tais como costura e o bordado.

Rosana comenta a respeito de seu trabalho:

“[…]Olhar no espelho e me localizar em um mundo que muitas vezes se mostra preconceituoso e hostil é um desafio diário. Aceitar as regras impostas por um padrão de beleza ou de comportamento que traz muito preconceito, velado ou não, ou discutir esses padrões, eis a questão.
Dentro desse pensar, faz parte do meu fazer artístico apropriar-me de objetos do cotidiano ou elementos pouco valorizados para produzir meus trabalhos. Objetos banais, sem importância. utilizar-me de objetos do domínio quase exclusivo das mulheres. Utilizar-me de tecidos e linhas. Linhas que modificam o sentido, costurando novos significados, transformando um objeto banal, ridículo, alterando-o, tornando-o um elemento de violência, de repressão. O fio que torce, puxa, modifica o formato do rosto, produzindo bocas que não gritam, dando nós na garganta. Olhos costurados, fechados para o mundo e, principalmente, para sua condição de mundo. […] Gritar, mesmo que por outras bocas estampadas no tecido ou outros nomes na parede. Ele tem sido meu fazer, meu desafio, minha busca.”

Série "Bastidores" (1997)A artista, com seus trabalhos em pequena escala, tece uma política de dimensão íntima.

Na obra “Bastidores”(1997),  a violência simbólica aparece nas linhas que costuram as bocas e gargantas. Os bastidores, essa espécie de armação de madeira circular em que se prega o que se quer bordar, forma a moldura de uma condição: figuras de mulheres negras estampadas,  sem voz.  Esse ofício ligado a um corpo feminino silenciado, lugar de opressão.

Na obra “Sem título (da série As três Graças)” de 1998, o cabelo crespo é colocado lado a lado com um feixe de cabelo loiro e liso, confrontando uma  mentalidade colonialista e embranquecedora corrente no Brasil.

Série "As Três Graças"

A artista tece essas tramas simbólicas em seus bordados e costuras evidenciando enredamento do corpo da mulher negra em estereótipos perversos e coerções estéticas em que memórias pessoais esboçam um cenário político de opressão no país. E é no cotidiano e em seus objetos habituais que a artista trata a partir da sua própria condição, da violência histórica que assola a população negra.

Ana C.

 + inf.:

http://rosanapaulino.blogspot.com.br/

http://www.galeriavirgilio.com.br/artistas/rpaulino.html

Kara Walker

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Nasceu em Stockton, EUA em 1969, vive e trabalha em Rhode Island, EUA.

Silhuetas cortadas de papel preto em contraste com a parede branca mostram cenas que podem parecer ao mesmo tempo violentas, engraçadas e até românticas entre personagens de vestuário vitoriano. A artista plástica estadunidense e afro-descendente Kara Walker, autora desses polêmicos trabalhos, cria imagens caricaturescas que proporcionam, para que quem as vê, sentimentos contraditórios em relação as situações apresentadas, o que não acontece por acaso. A artista afirma em entrevista que seus trabalhos possuem parte da sua experiência em relação a raça na qual ela já quis ao mesmo tempo ser a heroína e matar a heroína. O nome de uma de suas exposições, “Meu complemento, meu inimigo, meu opressor, meu amor”, ilustra bem esse conflito interno em relação a si e ao outro.

Em seu país, diferente daqui, houve um longo período de desigualdade jurídica, e o racismo, ideologia que sustenta a opressão por distinção de raças (compreendidas no sentido sociológico e não biológico), lá, se manifesta explicitamente, especialmente no sul do país, para onde a artista se mudou aos 13 anos. Tal ideologia, no Brasil, possui traços muito específicos, sendo constantemente camuflada e/ou diluída em questões de classe, embora não menos cruel. Essas especificidades podem fazer toda a diferença na interpretação do trabalho de Kara Walker, já que raça, racismo e opressão são alguns de seus temas constantes. Sendo assim, o/a espectador/a brasileiro/a corre o risco de perceber sua obra como a confirmação do mito de que o racismo é uma coisa estrangeira e que  não nos diz respeito, ou em outras palavras, uma confirmação do mito da igualdade racial.

Sobre essa questão a artista se manifestou brevemente em uma entrevista que deu em passagem por São Paulo, quando seu trabalho foi exposto na 25a Bienal, dizendo que ao conhecer Salvador, em 1990, ficou impressionada por perceber como as pessoas negras na cidade mais negra da America Latina eram marginalizadas. O nosso racismo foi evidente para olhos não anestesiados pelo mito. Há um fator em seu trabalho que traduz bem a relação que temos com o racismo no aqui: as silhuetas indicam a dificuldade de se olhar para o assunto, de se encarar essas agressões…

Em “They Waz Nice Folks While They Lasted” (says one Gal to another), de 2001, a artista, além de apontar a dificuldade de encarar o problema inclui necessariamente, por meio de projeções nas paredes onde estão as silhuetas, a sombra do/a espectador/a na história. É como se estivesse dizendo “olha, mesmo que você não queira ver, você é parte dessa história, você é parte dessa violência”.

Já na série de impressões feitas em ilustrações antigas da guerra civil estudunidense chamada Harper’s Pictorical History of Civil War (annotated), de 2005, Walker faz uma espécie de anotação imagética que inclui as pessoas negras na História através de suas silhuetas ou sombras, como quem reivindica um espaço negado na memória de um povo.

As situações apresentadas nas imagens que Walker produz misturam violência, sangue, sexo, fezes, urina, leite, corpos; corpos que se violentam dentro de uma rede opressora sem fim, onde o desejo, prazer, opressão e dor se confundem, sendo que cada pessoa nesta rede transita por papéis de agressor/a ou agredido/a, independente do grupo no qual seja encaixada. E não é assim que nos organizamos e nos relacionamos?

Tauana M.

Links

EUA mostram trabalho sobre escravidão na 25ª Bienal de SP. http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u20514.shtml

Kara e o x acto http://desenhoarq.wordpress.com/2009/02/25/kara-e-o-x-acto/

An Explosion of Color, in Black and White. http://nymag.com/print/?/art/reviews/40277/

Making the Cut. www.villagevoice.com/content/printversion/196311

http://en.wikipedia.org/wiki/Kara_Walker