Back to simplicity – exposição de Marina Abramovic

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Back to simplicity. De volta a simplicidade. Esse é o nome da exposição, embora eu ainda não soubesse disso ao entrar na galeria. Só o nome da artista estava na minha cabeça: Marina Abramovic. Sabe aquelas pessoas cujo trabalho você admira e respeita tanto que nem parece que elas existem de verdade? Que é como se alguém tivesse inventado que existem, como alguma personagem mítica? Marina Abramovic era dessa forma para mim, e ao passar pelo portal que divide o mundo externo da galeria entrei num estado misto de descrença na realidade, expectativa, admiração e curiosidade. O primeiro trabalho que vemos é um vídeo da artista vestida de branco deitada ao pé de uma grande árvore. Por ser um vídeo, esperamos que algo aconteça. Esperamos… e de repente é isso. Nossa espera e ela lá, sendo, estando.

No andar debaixo estão uma série de fotografias realizadas esse ano, após a performance A artista está presente, em que Abramovic ficou três meses sentada numa galeria apenas encarando os olhos de espectadorxs que se sentavam à sua frente. Em entrevista publicada no catálogo da exposição, ela diz que depois de se conectar com tantas pessoas pelo olhar ela “tinha que voltar à natureza: estar sob uma árvore, segurar um carneirinho durante dois dias, em total felicidade, e Back to simplicity é isso”.

Nessa série de fotografias da artista se relacionando com elementos da natureza, há duas imagens em que a artista segura uma margarida, uma com olhos fechados, outra com olhos abertos, a exemplo da citação acima: ela se emociona com uma coisa tão simples quanto uma margarida. Segurá-la, sabê-la basta. Em outra, Looking at the mountais [olhando para as montanhas], a artista contempla a terra, a natureza, o universo e em Holding the Lamb [segurando o carneiro] parece fazer uma oferenda para essa terra. As imagens são todas muito fortes. Não no sentido de mexer fisicamente com quem as vê, como é comum com as performances dessa artista, mas com uma força outra, que não sei bem descrever.

No andar superior estão vídeos e fotografias de performances realizadas desde a década de 70 até 2009. Nelas a tranqüilidade raramente aparece, dando lugar a ações simples, porém que testam limites físicos e emocionais da artista, levando quem observa a entrar em contato consigo, com o próprio corpo, com o presente. Os trabalhos não são de consumo rápido, eles atravessam a pele. As possíveis elaborações vêm depois..

O primeiro que vi, AAA-AAA, estava num corredor, de forma que só era possível ficar bem perto da televisão. Nesta performance ela e Ulay gritam até a exaustão. Os gritos começam mais estáveis e num volume mais baixo e progressivamente aumentam. Mas não são só gritos… os rostos mudam, se deformam. O som se deforma. E os gritos, agora sim, mexem com o físico de quem vê, no meu caso revirando o estômago, arrancando lágrimas e deixando a sensação de um nó na garganta. O vídeo dura 15 minutos. 15 minutos bem longos.

Uma sala nesse mesmo andar continha uma série de trabalhos chamados The Kitchen/Homenage to Saint Therese [A cozinha.homenagem à Santa Tereza]. O vídeo que mais chama atenção dessa série é um em que a artista aparece com um vestido preto, flutuando de braços abertos em uma cozinha antiga. A primeira vista, essa imagem me remeteu às bruxas medievais, ou seja, à mulheres que possuíam conhecimentos considerados ameaçadores para quem detinha o poder e que foram queimadas, torturadas, enforcadas durante a inquisição. É aquela história de que fala Foucault, dentre outras pessoas, sobre a relação entre saber e poder: quem detém o poder de fala, de escolha do conhecimento válido, ao mesmo tempo que produz verdades, mantém sua posição de prestígio. A perseguição às mulheres e o conhecimento que possuíam na idade média é uma parte da nossa história que não me parece totalmente superada… e o vídeo parece resgatar essa história, numa espécie de afirmação desse conhecimento intimamente ligado à comida, às ervas, aos temperos, e também à terra e a energia de cada coisa/ser. A informação do título deixa claro que é uma referência e homenagem à Santa Tereza de Ávila e (pela entrevista) as freiras da Ordem dos Cartuchos, locação do vídeo, que cozinhavam para oito mil órfãos, e a infância da própria artista, bastante ligada à cozinha.

Adiante, encontrávamos fotografias e vídeos de performances como Rest energy [energia de repouso], Art must be beautiful [Arte deve ser bonita]e Seven easy pieces/lips os Thomas [sete peças fáceis/lábios de Thomas]. Na primeira, a artista segura um arco e um homem segura a flecha e corda tensionada do arco, ambos em contra-peso, equilibrando-se. A flecha está apontada para o coração da artista. Na segunda, ela escova os cabelos repetindo a frase “A arte deve ser bonita” até ferir o couro cabeludo e começar a sangrar. Na última, um ritual com diversos passos, no qual ela, aos poucos, come um quilo de mel, bebe um litro de vinho, corta uma estrela em sua barriga, deita sobre uma cruz de gelo, se chicoteia, coloca botas e chapéu de militar e canta uma música sobre a guerra… tudo feito repetidamente por 7 horas. Tensão, dor, exaustão…

Saldo da exposição: Chorei litros, senti meu corpo vibrar de forma diferente, me abalei, sofri, sorri, e saí numa espécie de ressaca dessa intensa experiência ao mesmo tempo dolorida e deliciosa.

Tauana M.

A exposição fica em cartaz até o dia 29/01/2011 na Galeria Luciana Brito em São Paulo.

veja mais sobre a exposição em http://lucianabritogaleria.com.br/node/1536

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/831250-leia-a-entrevista-de-marina-abramovic-na-integra.shtml

e sobre a artista: http://bravonline.abril.com.br/conteudo/artesplasticas/marina-abramovic-performances-609221.shtml