María Izquierdo

 

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Nasceu em 1902, San Juan de Los Lagos, Jalisto – México, e faleceu em 1955, na Cidade do México – México.

mizquierdoMaría Cenobia Izquierdo Gutiérrez casou-se ainda adolescente com o militar Candido Posadas, com quem teve três filhos. Em 1923, já divorciada, muda-se para a Cidade do México, onde vive com a fotógrafa  Lola Alvarez Bravo (1907-1993) e, em 1928, matricula-se na Escuela Nacional de Bellas Artes. Nesse período, o movimento muralista mexicano estava em pleno vapor, e o então diretor da escola, artista Diego Rivera, se encantou com o trabalho de Izquierdo, o qual passou a incentivar juntamente com o pintor Rufino Tamayo, com quem a artista dividiu ateliê entre 1929 e 1933.  Ambos, Izquierdo e Tamayo rejeitavam o academicismo em prol da liberdade estilística e se distanciavam do realismo social presente no muralismo. Contudo, como foi possível perceber em toda a América Latina, o olhar voltado para as raízes culturais e povos tradicionais esteve presente na produção desses artistas.

María trabalhou também como professora de desenho e pintura e diferentes instituições, deu palestras e integrou, a partir de 1932, a LEAR (Liga de Escritores y Artistas Revolucionarios), para a qual escreveu ativamente.

Em 1929 a artista fez sua primeira exposição individual na Galeria de Arte Moderno da Cidade do México e, no ano seguinte, expôs no Art Center de Nova York, tornando-se a primeira mulher mexicana a fazer uma exposição individual nos EUA. A introdução do catálogo foi escrita por Rivera, que a descreveu como uma das melhores artistas da academia. No entanto, em 1945, ao ser comissionada para pintar um mural de 200m quadrados foi sabotada pelo próprio Rivera e por David Alfaro Siqueiros, que se opuseram ao projeto, o qual acabou sendo interrompido. Esse evento foi um baque para Izquierdo, que além de perder a confiança em Rivera passou a sofrer fortes críticas por parte da imprensa e da comunidade.

f72d5faa-bd08-405b-90ba-540b7d93dcb9_570Izquierdo passou a ter frequentes pesadelos e a dormir mal. Um desses sonhos a levou a produzir a obra sonho e pressentimento, de 1947. Neste, ela segura sua cabeça decapitada pela janela, enquanto o corpo fragmentado caminha para longe. No ano seguinte, de certa forma sua previsão se confirmou, quando a artista sofreu um embolismo que a deixou parcialmente paralisada: a cabeça desconectada do corpo. Aos poucos ela conseguiu se treinar para pintar com a mão esquerda, mas não com a mesma habilidade anterior.

Seu trabalho com formas robustas e cores fortes mostra um universo que mistura cotidiano e ancestralidade, cenas bucólicas e surreais, melancolia e força. Essa artista, que viveu um período em que já não era fácil ser mulher, muito menos mãe solo e artista, batalhou para abrir caminho e ocupar espaços que estavam destinados unicamente aos homens. Não só ela conquistou esse espaço, como teve grande reconhecimento por seu trabalho, sendo, inclusive, nomeada “Mulher Ilustre” pelo governo mexicano em 2012, tendo seus ossos enterrados ao lado de Diego Rivera e David Siqueiros.

es delito ser mujer e tener talento
María Izquierdo

 

Referências:

http://lasabuelitas.com/2015/06/29/artistas-que-voce-tem-que-conhecer-maria-izquierdo/ (em português)

http://www.vanguardia.com.mx/fuemariaizquierdoautoradeunapinturaespontaneaeinquietante-1894345.html (em espanhol)

http://www.wikimexico.com/articulo/maria-izquierdo (em espanhol)

http://www.explorandomexico.com.mx/about-mexico/5/239/ (em espanhol)

http://www.jornada.unam.mx/2013/10/06/sem-germaine.html (em espanhol)

http://faculty.hope.edu/andre/artistPages/izquierdo_bio.html (em inglês)

http://clara.nmwa.org/index.php?g=entity_detail_print&entity_id=3933 (em inglês)

HILLSTROM, Laurie; HILLSTROM, Kevin (ed.). Contemporary women artists. 1999.

*As informações encontradas sobre a biografia da artista divergem em alguns pontos, portanto procurei apresentar aquelas que se repetiam em mais de uma fonte.

Tauana M.

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Exposição: Frida Kahlo – conexões entre mulheres surrealistas no México

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Ontem tive o prazer de visitar uma exposição aberta aqui em Brasília (até dia 05/06/16 no Conjunto Cultural da Caixa) sobre Frida Kahlo e artistas surrealistas mexicanas e achei que era um bom pretexto para sacudir a poeira do blog. Então aqui vai:

Frida é querida de muita gente e já bastante conhecida, com um reconhecimento incomum, por sinal, quando se trata de artistas mulheres. Por isso, inclusive, fiquei muito feliz ao vê-la junto de nomes menos conhecidos como Leonora Carrington, Remedios Varo, María Izquierdo, Bridget Tichenor e Alice Rahon.

Os trabalhos de Frida realmente vão em direção outra, que não a pesquisa surrealista, embora haja ali presente um diálogo marcante. Vendo o conjunto apresentado, parece que ela pesquisava seu universo interno e o retratava de forma mais direta (mesmo que o resultado disso fosse bem estranho), enquanto que as demais artistas – nas obras de cunho mais surrealista – apresentam aspectos íntimos através de universos fantásticos, com personagens antropozoomórficos e cenários oníricos. Até aí, tudo estava mais ou menos como esperado. Contudo, dois desenhos de Frida feitos em tinta sépia sobre papel eram bem surrealistas, com personagens não humanos e tudo o mais. Entrar em contato com esses desenhos, juntamente com as fotografias, estudos e pinturas de retratos que essas artistas fizeram umas das outras, me trouxe a compreensão de que a relação visual entre suas obras não era uma questão acidental, mas fruto de trocas que ocorrem entre essas mulheres.

Para deixar essa relação mais evidente estava o seguinte texto curatorial em uma das paredes:

“As mulheres desempenharam papel fundamental na promoção da obra de outras mulheres. Natasha Gelman foi uma grande mecenas para Frida Kahlo. Inés Amor fundou a primeira galeria comercial no México, que abrigou a Exposição Internacional de Surrealismo em 1940 e ofereceu às artistas exposições individuais. María Asúnsolo criou a galeria GAMA, e Lola Álvarez Bravo fundou a Galeria de Arte Contemporânea, que abriu espaço para a primeira exposição individual de Frida Kahlo. María Izquierdo colaborou como crítica de arte para o jornal Novedades. Kati Horna, com suas reportagens para a revista Mujeres, contribuiu para difundir a obra daquelas que se destacavam no mundo das artes e da cultura.” 

Não é por acaso que a exposição traz a palavra “conexões” em seu nome.

Saí de lá com a palavra sororidade ecoando em mim…

 

Tauana M.

Saiba mais em:

http://www.cultura.gov.br/noticias-destaques/-/asset_publisher/OiKX3xlR9iTn/content/id/1335533
http://www.revistaforum.com.br/2015/11/24/alem-de-frida-kahlo-10-outras-artistas-mexicanas-importantes-engajadas/

Anjos da Anarquia: mulheres artistas e surrealismo

Este vídeo é uma conversa entre a curadora de uma exposição ocorrida em 2009 sobre mulheres artistas surrealistas e a escritora inglesa Jeanette Winterson. O vídeo está em inglês e sua tradução segue no texto abaixo. Por enquanto não foi possível incluir legendas no vídeo, mas esperamos poder fazer isso num futuro próximo.

Anjos da anarquia: Mulheres artistas e surrealismo

Jeanette Winterson em conversa com a curadora de Anjos da Anarquia, Dr. Patricia Allmer.

————–

P.A – Oi, meu nome é Patrícia Allmer. Eu sou curadora de Anjos da Anarquia: mulheres artistas e surrealismo, na Galeria de arte Manchester. A exposição irá abrir dia 26 de setembro.
Eu estou aqui com Jeanette Winterson.
O que você achou da exposição?

J.W. – É uma exposição fantástica! Completamente inesperada. Eu não sabia o que iria encontrar. Eu sabia sobre Lee Miller, eu sabia sobre Frida Khalo, eu sabia sobre Leonora Carrington. E eu acho que muita gente vai reconhecer a xícara e pires peludos de Meret Oppenheim, porque é uma imagem icônica do surrealismo .
Mas eu não tinha idéia de que tantas mulheres haviam trabalhado dentro do movimento surrealista durante tantas décadas.
E, de fato, sendo inteiramente perdidas para nós. E é somente o feminismo nos anos 70, não é? Que nos trouxe essas mulheres de volta, e agora podemos ver a qualidade e variedade de seu trabalho, que é extraordinária.
Não é que não sabemos sobre essas mulheres porque elas não são boas, é porque, como sempre, a história masculina desse período na arte as descartou.

P.A. – Sim, eu acho que é muito importante mostrar que essas são grandes artistas do século XX e é muito importante trazê-las de volta para o conhecimento público. Também é muito importante porque vários dos trabalhos artísticos estão começando a se desintegrar e estamos próximos de perder essa história.

J.W. – Esse tem sido um problema com vários trabalhos de mulheres, está quase se auto-desaparecendo, de forma que as mulheres são retiradas dos livros de história mas seu trabalho também desaparece.

P.A. – Então há um verdadeiro perigo aqui de perder a história, a história que é nossa história enquanto sociedade, mas também é uma história de nós enquanto mulheres, e isso é muito importante.

J.W. – E eu acho que ainda há um mito comum, não é?
Enquanto as mulheres são mais aceitas agora como escritoras, como artistas visuais, escultoras, artistas que trabalham com instalação, ainda são vistas como um pouco incomuns, como se as mulheres não fossem boas o bastante para entrar nestas esferas masculinas, aonde o verdadeiro trabalho criativo está acontecendo.

P.A. – Você acha que isso mudou nos últimos anos ou últimos tempos, que está mais fácil para mulheres artistas ou escritoras?

J.W. – Eu acho que está melhorando. Quando você olha para “a cama” ou “a tenda” de Tracey Emin, ou para a escultura “Casa” de Rachel Whiteread, que foi demolida no dia em que ganhou o prêmio Turner, uma história extraordinária..
Você pensa que essas mulheres, Tracey e Rachel, elas estão saindo desse espaço. As mulheres aqui, os trabalhos de mulheres surrealistas aqui, tornaram possível para as mulheres agora de nossa geração realmente terem o tipo de reconhecimento, o tipo de  estatus verdadeiro, que elas devem ter.
Mas mesmo aí as pessoas ainda dizem “ah sabe, Tracey Emin, talvez ela seja uma farsa, será que ela é pra valer?”
E acho que tem muita misoginia nesse tipo de comentário, que é certamente o tipo de comentário que as mulheres surrealistas tinham que agüentar, não é?
E elas de alguma forma não eram tão criativas, seu trabalho era muito menos importante, elas não mereciam ter escritos sobre elas. E eu acho que é só nos anos 70, não é? que nós realmente redescobrimos essas mulheres.
Eu estava olhando para essas imagens fantásticas de corpos femininos e de mulheres se fotografando e fotografando outras mulheres. Tão bonito e também tão subversivo, e tão provocativo. E agora estamos num mundo em que uma menina comum, uma menina de 16 anos, vai sair na rua e vê milhares de imagens todos os dias, imagens distorcidas, retocadas e transformadadas de si mesma e de como ela deve ser.
Então uma exposição com essa retoma as questões de como nos vemos, como somos vistas e como nos representamos no mundo.

P.A. – Sim. Eu acho uma pegada bem interessante, por exemplo, nessa galeria onde mulheres artistas representam outras mulheres artistas, como é diferente da representação de musas icônicas do século XX. Então temos mulheres sendo mostradas com seus trabalhos artísticos, mulheres fortes, como por exemplo com a representação de Frida Kahlo. Kahlo é tão freqüentemente representada como um vítima sofredora, sempre apaixonada por Diego [Rivera], perdida….

J.W. – Que era o verdadeiro artista.

P.A. – E que era o verdadeiro artista, sim. E quando você olha para as fotografias de Lou Albarus Beowulf (?) de Frida Kahlo, essa mulher não está sofrendo, essa é uma mulher muito forte. E eu acho, mais uma vez, que a forma como as mulheres surrealistas estão se representando umas as outras, mostra bastante esse lado forte e esse lado de mulheres fortes.

J.W. – Sim, você está certa, mostra. Digo, elas são vistas como co-criadoras, não é?

P.A. – É.

J.W. – Elas se respeitam umas as outras.

P.A. – Há muito respeito com os trabalhos artísticos uma das outras. E mais uma vez, elas conheciam o trabalho artístico uma das outras. Não sabemos muito, mesmo, sobre o quanto cada artista conhecia as outras. Por que não? Por que não pesquisamos isso até agora? é muito, muito importante. Por que estamos sempre tão fixados em saber se Carrington era a namorada de Marx Ernst ou.., sabe, essas coisas de relacionamento sempre vem para primeiro plano, de como mulheres artistas de relacionam com homens artistas? Você só precisa ver as biografias das mulheres artistas. Tem sempre “oh, ela estava num relacionamento com outra pessoa”, enquanto se você olha para uma biografia de homem artista elas são sobre arte e os períodos pelos quais passaram.

J.W. – Certamente isso não mudou. Você ainda encontra todo o interesse, quando uma mulher está fazendo um trabalho criativo agora é entrevistada ou se escreve sobre ela, está sempre em com elas estão fazendo sexo, quem é o macho em cena.
Eu adoro aqui também como temos várias imagens de anjos. Temos o “Anjo da Anarquia” ao entrar pela porta, temos o “Anjo da Misericória”, que não parece muito misericordioso para mim, ao fim da exposição. Temos o “prisioneiro celestial” o anjo na gaiola, outros anjos nas fotografias. Acho que isso é fascinante, porque estava pensando no ensaio de Virgínia Wolf “O anjo da casa”, no início do século XX, vindo da idéia representacional masculina dos anjos presidindo delicadeza, e esse é um anjo confinado, apertado, açucarado. E aqui você tem anjos explodindo, na forma verdadeira, no que se chama de anjos como mensageiros, anjos se movendo entre dois mundos. Isso parece ser para mim o que essas mulheres surrealistas estão fazendo. Elas estão se movendo de forma tão hábil, veloz, leve, inteligente, divertida, bruxa entre dois mundos: o mundo do olhar masculino, e também elas se percebem como mulheres e criadoras. É uma exposição questionadora, porque penso que as mulheres, não apenas como indivíduos, mas como gênero, estamos ainda em transição. Nós não sabemos como nos ver, não sabemos realmente como nos representar, nós não sabemos nem quem somos. Não está acabado por um longo caminho.

P.A. – Não. E isso é bom. É brilhante que não sabemos…

J.W. – Eu acho que sim.

P.A. –  …e que temos que explorar.

J.W. – Então acho que o eu instável que tem sempre sido um problema para as mulheres pode ser também uma força, porque nessa instabilidade surgem muitas possibilidades  contanto que não sejamos imediatamente travadas pelas idéias da sociedade masculinista de como devemos ser ou como somos. Então o que encontramos aqui não é tanto uma filosofia de vida, mas uma série de perguntas que me permite questionar além: onde estamos agora em 2009, em nosso mundo, como mulheres?

P.A. – É. E o que você acha? Onde estamos nós, em 2009, como mulheres?

J.W. – Esse é o momento em que devemos lutar novamente. Esse não é o momento de descansar. Sabe, tem muita bobagem sendo dita sobre como o feminismo está acabado e que não precisamos mais dele. Então vemos uma exposição como essa e saímos e vemos o bombardeio de imagens de mulheres em todo o lugar, em revistas femininas, e a infinita distorção e retoques, e mulheres lutando para fazer suas marcas criadoras e você pensa “não, não, realmente cem anos não é suficiente. Vamos precisar dos milhares de anos que os homens artistas aproveitaram antes de ter certeza de quem realmente somos e o que queremos dizer sobre nós mesmas”.

P.A. – Muito obrigada!

Para saber mais sobre essa exposição visite: http://www.manchestergalleries.org/angelsofanarchy/

Remedios Varo

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Nasceu em Anglès, Espanha, em 1908 e faleceu na Cidade do México, México, em 1963.

Maria de los Remedios Varo Uranga passou seus primeiros 8 anos viajando pela Espanha e norte da África até que sua família se acomodou na cidade de Madri, onde finalmente a jovem Remedios Varo teve uma educação mais contínua. O estudo da arte começou cedo para Varo que, influenciada pelas impressões e desenhos técnicos do pai engenheiro hidráulico, se matriculou ainda na adolescência em aulas de pintura na Academia de San Fernando, em Madri.

Em meados da década de 30, Varo viaja para Barcelona onde entra em contato e se envolve com o movimento surrealista e, em 1937, ela se muda para Paris e  participa ativamente de diversas publicações e exposições surrealistas.

Em 1941, por conta da invasão nazista na França, ela e outros/as artistas se refugiaram no México. A américa central que era a princípio um destino temporário acaba sendo sua casa até o dia de sua morte.

O trabalho de Remedios Varo tem influência de diversas fontes, filosofias, estilos, e culturas, sendo alguns traços mais marcantes a mistura de influencias tanto do ocidente quanto do oriente (vale lembrar que sua viagens na infância e período vivido na Espanha a aproximaram da cultura islâmica); a alquimia, o ocultismo e misticismo; e a geometria e arquitetura sacra.

Olhando para as pinturas dessa artista hispano-mexicana nos deparamos com diversos mundos que não operam com a mesma lógica do lado de cá, do lado desperto, mas daquele outro mundo que adentramos nos sonhos. Talvez por isso, por mais que as imagens causem estranheza elas são também convidativas e, em algum grau, familiares. Como os sonhos, essas imagens contam histórias novas e com infinitos desdobramentos possíveis. Onde será que leva aquela escada? Se entrarmos por ali aparecemos naquela cidade em espiral? O que esse personagem vai fazer depois?

Diferentemente de pintores surrealistas com De Chirico, Magritte e Salvador Dalí, as pinturas de Varo apresentam maior quantidade e variedade de texturas e espaços mais escuros, possivelmente pela noite se relacionar à intuição e aos mistérios. Parece-me ainda que as texturas tornam os universos que ela retrata mais possíveis, mais táteis, sendo possivelmente o que torna suas pinturas mais familiares e aconchegantes (queria entrar em suas pinturas como o personagem no filme Sonhos de Akira Kurosawa entra nas de Van Gohg!).

Tauana M.

Fonte: http://www.remediosvaro.org/

Claude Cahun

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Nasceu em Nantes, França, em 1894 e faleceu em 1954.

Misture as cartas. Masculino? feminino? Depende do caso. Neutro é o único gênero que me cabe. Se existisse na nossa linguagem não haveria essa ambigüidade no meu pensamento. Eu seria uma abelha trabalhadora de uma vez por todas. – Claude Cahun em avec non avenus, 1930.

Claude Cahun foi umx artista um tanto distintx, que escolheu esse nome justamente por sua ambigüidade de gênero.  Originalmente chamadx Lucy Renée Mathilde Schwob, elx passou por Claude Courlis e Daniel Douglas até escolher o nome com que ficou mais conhecidx. Exatamente por essa escolha e pela dúvida gerada em torno de sua identidade de sexual e de gênero (algumas pessoas x consideram transexual FTM  e outras a consideram uma mulher lésbica que brincava com os gêneros) que escolhi tirar desse texto as desinências de gênero, substituindo-as por x.

Filhx de uma mulher com transtornos mentais, Cahun foi criadx pela avó, Mathilde Cahun, e desde 1912, com 18 anos, trabalhou com auto-retratos em que assumia identidades distintas. No início dos anos 20, elx foi para Paris com sua parceira e quase-irmã (os pais se casaram) com a qual se relacionou durante toda a vida, Suzanne Malherbe. Suzanne colaborou com Claude em diversos trabalhos escritos, esculturas e fotomontagens, adotando o também ambíguo nome Marcel Moore. A respeito de hetero e homossexualidade Cahun diz o seguinte:

“Minha opinião sobre homossexualidade e homossexuais é exatamente a mesma que a minha opinião sobre heterossexualidade e heterossexuais. Tudo depende dos indivíduos e das circunstâncias. Eu reivindico uma liberdade geral de comportamento”. Calude Cahun, 1925.

Em 1932 Cahun entrou para a Association des Ecrivains et Artistes Révolutionnaires [Associação de Escritores e Artistas Revolucionários] onde conheceu André Breton e René Crevel e começou a se associar ao grupo surrealista. Elx participou de diversas exposições surrealistas, como London International Surrealist Exhibition [Exposição surrealista internacional de Londres] e Exposition surréaliste d’Objets [exposição surrealista de objetos], em Paris.

Claude Cahun e Marcel Moore se mudaram para Jersey em 1937 e, com a ocupação da Alemanha nazista, o casal ia para eventos militares colocando panfletos anti-guerra estrategicamente nos bolsos do oficiais, em seus acentos, carros e janelas. Esses panfletos, no geral, eram feitos a partir de relatórios da rádio BBC com as atrocidades cometidas pelos nazistas, traduzidos do alemão, recortados e montadas como poemas altamente críticos. A dupla foi presa e ambxs condenadas a morte e, embora a sentença não tenha sido executada, a saúde de Cahun ficou bem debilitada durante a prisão e elx acabou falecendo em 1954. Seu corpo está enterrado ao lado do de sua parceira.

O trabalho escrito de Cahun inclui uma série de artigos e ensaios publicados em revistas e jornais da época, além de livros como Avec non avenus” (1930), com  registros de sonhos e ensaios, ilustrado com fotomontagens , e “Heroines” (1925), que contém uma coletânea de monólogos de personagens femininos mal-compreendidos de contos-de-fada, como Judith, Sappho, Cinderela e Eva. De acordo com Cahun o “Feminismo já está nos contos-de-fada”. Moore, que era artista gráfica, fez as ilustrações desse livro, como a que se encontra ao lado.

O trabalho mais conhecido dx artista são as fotografias em que elx se retrata ora de forma andrógena,  ora mais marcadamente masculina ou feminina. Ao contrário dos outros componentes do grupo surrealista parisiense que retratavam mulheres como símbolo do erotismo, Claude explorava diversas versões do feminino, diversas formas de existir. Tratar de política, ser judia,  transitar por gêneros e possuir uma sexualidade não-normativa além de trabalhar uma poética trans parece ter lhe rendido um empurrão para fora da história da arte.

Tauana M.

Fontes:

Guerrilla Girls. The Guerrilla Girls’ Bedside Companion to the history of western art. Penguin, 1998.

http://fotoclubef508.wordpress.com/2009/03/29/claude-cahun/ (português)

http://www.all-art.org/art_20th_century/cahum1.html (inglês)

http://www.queerculturalcenter.org/Pages/Tirza/TirzaEssay1.html (inglês)

http://www.answers.com/topic/claude-cahun (inglês)